Dos antepassados

Ouvi histórias, algumas. Do lado da minha mãe e do lado do meu pai. Da mãe são histórias de vareiras por um lado e de lavradores por outro. Das vareiras a imensidão de filhos, do mar, dos lutos. Dos lavradores um tio-avô ou bisavô que foi morto por engano numa espera que correu mal. Um bisavô que morreu exactamente um ano antes de eu nascer e que tinha por hábito quando vinha lá do Minho ao Porto, ficar na avenida a contar os carros que passavam durante horas. Do lado do pai um bisavô que tinha duas famílias e que as manteve. Um que era estucador de tectos. Uma bisavó que caiu pelas escadas ao separar dois netos que se pegaram.
Dos antepassados ouvi histórias. A eternidade é isso, palimpsestos, farrapos dos ecos, mentiras novas sobre verdades antigas. Até sermos silêncio.

É noite já

No ocaso os silêncios crescem até preencherem as janelas desertas. Um resto de chamas ao longe sobre o mar. Recolhem-se as sombras e as formas começam a falar difusas, perdendo realce e escondendo esquinas e contornos. A noite envolve as ruas como uma onda, desaguando primeiro nos passeios e subindo as paredes e muros das casas até aos telhados mais altos. É noite já.

quando não estás

quando não estás
escrever para te ter aqui
outros tê-lo-ão gravado já, mas nada é novo, tudo é memória e o que parece novidade não é mais do que aquilo que já esquecemos
escrever, portanto, para te ter aqui
mesmo se te tenho na lembrança do corpo e no vazio das minhas mãos, mesmo se estás leve por entre o meu olfacto ou no sorriso aberto que se me tatuou nos olhos e na alma, mesmo se vagueias profunda nos ecos do meu escutar e me dizes coisas, as tuas coisas,
escrever para te ter aqui quando não estás e deixares de não estares em lado algum
pois escrever levar-te-á por todas as leituras fora, daqui ao infinito da voz humana
semear-te nas palavras para que te colha em todas as eras e em todos os silêncios e todas as ausências,
fazer do meu rumor atabalhoado a minha promessa solene de escrever para te ter aqui
quando não estás


Diziam eles

Diziam eles que o Amor era velho e deambulava sozinho em bancos de jardim durante a noite. Que o vento era o ar a mexer-se mais a memória por onde tinha passado, trazendo aromas de outros tempos, sombras de outras árvores e segredos de outros livros. Diziam eles.

Douro

Dizer o Douro. A vinha, a uva, o rio, a luz, o vinho e o silêncio. E dizer cada palavra, lançá-las soltas na imensidão do que são. Esperar e reparar que cada uma regressa e fala connosco. No Douro é tudo tão avassalador e tão humanamente real, que pode dizer-se que não há texto que o valha, relato que lhe faça jus ou testemunho que se acerque da verdade, e que apenas seguindo São Tomé e o seu "ver para crer", apenas com os olhos e com a alma rendida para lá dela própria se pode dizer Douro e compreender um pouco deste milagre tão grande, feito de luz, rio, granito, xisto, suor e sangue.


num só fôlego

num só fôlego ou em vários mas que no fim sejam apenas um como se as palavras se agarrassem umas às outras a evitar a queda de um precipício de mãos dadas no limite delas próprias num desespero profundo de resistência a quererem dizer o que dizem que é sempre mais do que o que vozeam como as sombras gigantes daquelas árvores míticas ou como as ondas do mar que se espraiam na imensidão da costa ou ainda os desertos silenciosos das camas desfeitas nos quartos abandonados pelos amantes apressados em ir trabalhar ou finalmente na quietude de uma estante repleta de livros a ganhar pó e atraso de leituras adiadas para sempre aquele sempre definitivo muito antes de acontecer de facto
escrever é ainda um acto sagrado de comunhão com o insondável
ou não
será somente encadear letras e esperar que a lotaria da literatura sorteie o milagre do acerto do que se tem a dizer

Do baú, anos 90


talvez seja silêncio que te lanço no escuro dos meus dias, talvez seja ausência que sonho, talvez sejam sombras e versos vazios que te atiro sem saberes, talvez seja tudo isso... e se é tudo o que tenho é porque não estou contigo...

Lendo

Vergílio Ferreira escreve na voz certa. Explicar isto demoraria muito tempo. Esse acerto é puramente subjectivo. A conclusão que tiro é por isso pessoal mas transmissível. Serão com certeza os temas, as histórias e tudo o mais que me fascinam no autor, mas há algo mais na leitura que me arrebata. A voz, a forma que ela toma na leitura que vou fazendo de todos os livros, é-me familiar. Não propriamente minha, porque o não é, mas digamos que no silêncio do meu pensar e sentir encontra um espaço que já era dela. Como se ler VF fosse o completar de algo pré-existente. Não sei dizê-lo melhor. No fundo, a leitura é apenas o eco de algo que li antes de nascer e depois de morrer, para lá do limite e antes do limite de se ser.


Que horas são? a manhã vem já aí. Ardem-me os olhos de vigília, o corpo cansado. À porta da capela, fica num alto junto ao mar. À porta da capela, olha à volta o horizonte nocturno, olho o céu cheio de estrelas.

Avanço um pouco no terreno em frente da capela. Há um pequeno muro branco a toda a volta, até ao limite do perigo. Alveja na obscuridade do amanhecer, o muro. Na ponta da enseada há um farol. De vez em quando o facho varre o ar, um cone de poalha luminosa, como um olho brilhante bate-me súbito na cara, roda para o lado oposto.

Preciso de ter um sítio onde esteja bem. Onde esteja eu e não o que me dizem que é o mais plausível de ser eu. Um lugar oculto sem ninguém a testemunhar-me a vergonha. Porque tanta coisa a ser vergonha. Saber como comportar-me ser sensato ter propósitos. e a tua imagem aí - é bom. Eu sei. O teu perfil contra o longe das oliveiras. Contra a tarde clara do ar. E os teus olhos na distância em que estou e tu já não. Never more. É uma tarde de Maio talvez. Alguém canta numa casa da rua de baixo. Nunca mais.
- Não me diga que também gosta do nome!
Quando foi que te conheci? Nunca mais.

E uma comoção súbita, profunda. Tomo os cravos um a um espalho-os devagar por cima. então foi como se eu próprio me não visse, não existisse, dissipado no vazio de estar ali. Luto desesperadamente, os olhos ardem-me. O sol violento, a terra deserta. Eu só.

Podia eu dizer o mesmo? na luz dúbia da manhã, entre a noite que terminou e dia que vai começar. O facho do farol varre as águas de vez em quando, embate-me subitamente, esmorece numa pequena luz. E o rumor do mar como um coro, o estoiro das vagas contra o fundo da falésia.

- Não gostava que viesse. Preferia levar a imagem do orgulho dela e do meu. E tu no meio, sem orgulho nenhum.

Não tinha ilusões sobre isso, não tinha. E quis que tu as não tivesses também. Revelar-te o estado de coisas real. Revelar-te a miséria da nossa vida. E ver se aprendias a humildade. É a lição máxima de um homem.

O jovem, meu caro amigo, ignora o interesse da cultura e tem pressa de se instalar na vida. E sem dúvida a cultura não se pode explicar em termos práticos, não é assim? Digamos que ela só se aprecia depois de se ser culto. Há que obrigar o jovem a ser culto como há que obrigá-lo a ser higiénico. Abandonado a si, o infante nunca se lava, meu amigo. Não vamos concluir daí que a sujidade é que tem razão.

Ser professor é colaborar mais eficazmente com o futuro. E é tudo.

Tinha um dedo imperativo no ar. Arrumei os utensílios e dispus-me a sair. Mas quando justamente ia a sair. Porque a vida é assim. Súbitas resoluções sem cálculo. Como se nós trabalhássemos para um lado e a vida para outro. Subitamente foi assim. Havia uma poderosa força vinda de Flora. E eu deixei-me ir, um outro de mim deixei-o. No fundo, seria isso? a instintiva certeza de que outra força a trabalhava também. Mas quando a tomei com determinação - a cara rápida voltada de lado, aproveitei a nuca o pescoço. E foi aí. Ela respirava forte sobre o meu ombro.
- Sim? - disse eu.
- Não - disse ela para trás de mim.
Mas eu insistia já com a colaboração do resto do meu corpo. Não, não, disse ela, desprendendo-se. Outra vez disse-me ainda. Um fim-de-semana. Preparar isso com sensatez. No próximo? perguntei. Depois se fala, está bem? respondeu. E então fiquei sem palavras para continuar. Afastei-a um pouco, olhei-lhe nos olhos, ela olhou-me frontal e sorriu breve.

A felicidade não se mede pela quantidade do que nos aconteceu de agradável, mas pela quantidade de nós que responde ao que acontece. Nunca ficou nada em mim que não respondesse. E nas tintas para a filosofia.

Quis acompanhá-lo à aldeia, recusou vigorosamente como se estivesse a insultá-lo - estaria? Fechado sobre a sua condenação como sobre um bem privativo. Tinha um buraco no pescoço, era dele. E o orgulho avultava no seu corpo franzino. Era dele como a sua fatalidade, ele fazia-mo sentir. Ser proprietário mesmo da desgraça, pensei. Telegrafei para o irem esperar, esperaram-no. Telegrafaram-me algum tempo depois para o ir enterrar, enterrei-o. Era Inverno, devia ser Inverno. Tenho frio na alma e na memória. Devia ser.

Fomos jantar fora. Fomos ao cinema. Mas tudo para mim foi difícil e provisório, porque eu estava impaciente pelo que não era isso. Mas havia um cerimonial a cumprir para afastar o mais possível o seu terceiro andar de uma casa de passe. Oh, gostei bem que não fosse, eu amava-te decerto. Era um amor geometrizado na linearidade do teu corpo, como hei-de dizer? no rigor de seres um ser corpóreo. Porque o teu corpo perfeito adiantava-se sobre ti e era com ele que eu primeiro me defrontava. Que é que quer dizer amor? contigo não o sabia, nunca o soube, teria alguma significação? ou a significação não é dele mas de cada um de nós ou de tudo aquilo com que somos cada um de nós. Flora abriu a porta subira a escada em perfeita naturalidade, decerto porque o termos estado juntos esbatera o que era aí anormal ou era a sua legitimação. Depois houve bebidas. Tentei ainda que não houvesse para haver logo o que haveria. Mas Flora não tinha pressa. Abrira as janelas para a noite quente, sentou-se num sofá. E retomava não sei já que conversa para haver um espaço neutro entre nós. De vez em quando, talvez nos pontos mais difíceis da conversa, o tique de enrolar as pontas do cabelo. E fumava constantemente para compor nela um não sei quê de escultural. Flora, o ruído já suspenso do tráfego, a extensão escura do parque. E este todo harmonioso construído disciplinado.

Ensaio para um blues

Apenas um casaco na noite fria. O cachecol levou-o ela, as luvas também. A casa? Pegou-lhe fogo quando fugiu. Levou-me os livros e até o rafeiro que dormia aos nossos pés. Ficou o casaco e a noite fria. A guitarra? Terá ardido com a casa e as fotografias. O coração já era dela, tê-lo-á levado pois claro, ou então usou no incêndio, não sei. Fiquei eu, as chamas ao longe, um casaco e a noite fria. Dava para um poema, mas a inspiração era ela e ela lá foi, com o rafeiro, o cachecol, as luvas, os livros e o amor todo. Fiquei eu, o casaco remendado, um fumo escuro da casa queimada e um frio antigo como a Bíblia.

Não tenhas pressa

Não tenhas pressa. Nem que a tivesses, mas não tenhas. Nisto do luto mandamos muito pouco. Há a conveniência, a decência de ser gente entre gente, mas o que conta mesmo é algo que se passa por dentro. Por dentro do dentro, abaixo de nós, no invisível de tudo. Não tenhas pressa que hás de escrever as palavras devidas a seu tempo. Terás muitas, ou talvez não. Terás as que tiveres e serão as certas, mesmo que atabalhoadas. Não as culpes a elas, culpa o talento que não tens. A seu tempo elas virão e escreverás, como se diz por aí, "o que te vai na alma", porque para já, com o aperto da tristeza e de uma saudade avassaladora, cada palavra é um soluço incompreensível deste lado das coisas e das pessoas. Não tenhas pressa, tal como ela que agora tem todo o tempo do mundo, um jardim imenso e uma calma que na altura certa, partilharás também. Assim o esperas.

Da crença


O silêncio reinava e não era de hoje. A mudez que o acometera vinha de longe. Houvera um tempo em que aliava, por um lado, a crença de vir a realmente encontrar uma voz, com esboços de realmente vozear por outro. Hoje, resta apenas a crença como carcaça e é sabido por esse mundo fora, que uma crença por si só pode muito bem não chegar.

Do mar

A cada visita não te sobra nada a não ser uma espécie de humildade perante o mar. O teu corpo cumpre uma vénia no silêncio, uma reverência face à irreverência. Sabes que o mar é da mesma massa dos astros e dos confins do universo, do mesmo mistério que as partículas mais pequenas, das ondas invisíveis e etéreas. Tens olhos e alma não tens? Então.


Da decapitação das árvores

A sombra, o verde, a presença eterna de um aconchego, a morte de pé, os pássaros, as folhas, o símbolo do abrigo mais antigo, o exemplo da força de alcançar o céu, tudo isso são as árvores. Decapitas pelo mau tempo, fica a certeza de que outras virão ou até as mesmas retomarão o trabalho de anos em que a seiva teima em brotar e bater-se teimosamente contra a gravidade. Saber que o seu corpo dá para eternizar um amor, cravando na pele, tatuado na madeira para o sempre que for possível.







Torradas

As torradas dos cafés daqui são pedaços de um conforto poético. Pão de forma, dois andares, cortados em três fatias verticais cada um. Começo pelas fatias das pontas, trincando a côdea tostada antes de mergulhar no miolo embebido em manteiga. Deixo as duas fatias do meio para o fim, onde são elas toda manteiga derretida. É assim mesmo, bocados de prazer dourados, húmidos e quentes. O Homem não precisa de muito para sorrir. 

Das leituras

É sabido que a ambição de ler todos os livros da biblioteca que tenho é, tão só, uma mania. A cada livro novo que compro, empurro centenas de páginas para o silêncio provável das minhas não leituras. Ler não é uma escolha, é algo mais próximo do alinhamento dos astros e das matemáticas que isso envolve.

Lendo


Terminada esta primeira aventura com a poesia de Borges.


A minha humanidade está em sentir que somos vozes da mesma penúria.

Falam da pátria.
A minha pátria é um ganido de guitarra, alguns retratos e uma velha espada...



A MINHA VIDA INTEIRA

de novo aqui, com os lábios memoráveis, único e semelhante a vós.
Persisti na aproximação da ventura e na intimidade da pena.
Atravessei o mar.
Conheci muitas terras; vi uma mulher e dois ou três homens.
Amei uma menina altiva e branca e de uma hispânica serenidade.
Vi um arrabalde infinito onde se cumpre uma insaciada imortalidade de poentes.
Saboreei numerosas palavras.
Creio profundamente que isso é tudo e que não verei nem executarei coisas novas.
Creio que as minhas jornadas e as minhas noites
se igualam em pobreza e riqueza às de Deus e às de todos os homens.


PARA UMA RUA DO OESTE

Dar-me-ás uma alheia imortalidade, rua sozinha.
És sombra já da minha vida.
Atravessas-me as noites com a tua certa retidão de estocada.
A morte - tempestade escura e imóvel - destroçará as minhas horas.
Alguém recolherá os meus passos e usurpará a minha devoção e esta estrela.
(A distância, como um longo vento, há de flagelar o seu caminho.)
Iluminado por nobre solidão, porá o mesmo anseio no teu céu.
Pôr-lhe-á esse mesmo anseio que sou eu.
Ressurgirei no seu vindouro assombro de ser.
Em ti outra vez:
Rua dolorosamente como uma ferida te abres.


Sei que, mesmo obscuro, qualquer privilégio é da estirpe dos milagres
e grande parte dele provém desta vigília
reunida em redor do que não se conhece: do morto,
reunida para guardar e acompanhar a sua primeira noite na morte.

(O velório desgasta cada rosto;
Os olhos morrem-nos lá no alto como a Jesus.)


Porque o ventre do cemitério do Sul
foi saciado pela febre-amarela até dizer chega;

Dos detalhes

Certos detalhes brotam do cenário mais improvável. Ou, pelo menos, dos momentos mais improváveis, como por exemplo, esperares um autocarro enquanto ouves rádio, e uma mãe a puxar a camisola da filha para baixo, impedindo que o frio lhe trepasse pelo fundo das costas acima. Um gesto que dava todo um tratado sobre a maternidade.
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O homem que escrevia nada

Havia um homem que escrevia nada. Publicou um livro no qual não escrevia nada. Foi entrevistado e perguntaram-lhe para que escrevia. Respondeu que escrevia para dizer nada. O entrevistador, arreliado, argumentou que para não escrever nada teve, ainda assim, de escrever alguma coisa e que a prova estava no livro publicado com palavras lá metidas. Respondeu o homem: "Pois, são as vicissitudes da escrita".

o conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios incertos

vais escrevendo as palavras que te calharam, vais dizendo os silêncios que te nasceram, vais calando os gestos que se te desenham, porque tudo é um lento roer de notas numa guitarra que chora um blues e que inunda a sala, a sala vazia dela enquanto não chega e que com ela te trará de volta também
vais-te escrevendo nas palavras em que calhaste, nas palavras em que tropeçaste, tu trapalhão que és nisto de dizeres aquelas coisas que julgas teres para dizer, sabendo, à partida que o que te cabe dizer foi já dito antes de ti, antes disto e, mais ainda, foi dito para lá de ti, disto e daquilo
sabes, por fim, que o dicionário diz que a ciência é o conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios certos, o que faz com que chegues à conclusão deliciosa que amar é o conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios incertos
sabendo isso, não precisas de saber mais nada

Lendo


Continuo a leitura de Borges. O verdadeiramente extraordinário da poesia dele, é a sensibilidade extrema que consegue transmitir através das mais simples frases. Borges, com associações de ideias aparentemente banais, leva-me ao desfrutar incondicional de cada verso.



Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.




Na sala tão severa, como cegos,
procuram-se uma à outra as nossas solidões.
sobreviveu à tarde
a brancura gloriosa da tua carne.
No nosso amor há uma pena
parecida com a alma.

Tu
que ainda ontem eras só toda a beleza
és agora também todo o amor.



Definitiva como um mármore,
a tua ausência irá entristecer outras tardes.


A casa da avó

A casa da avó. Velhinha, a casa e a avó. Fez 93 anos no dia 1, a avó, a casa não sei quantos anos terá. Sei que já teve várias árvores à frente, foram morrendo de pé. Plantaram-se outras, está lá agora uma, magrinha e novinha, despida de Inverno.
A casa era do avô também. E era a casa de muitas tardes de férias entre pães com manteiga, leite achocolatado, primos e uma bola de futebol.
Não é a casa dos meus sonhos, é uma casa de sonho, cujas traseiras escondem uma passagem até ao mar. E é curioso que a passagem é uma ilha perdida numa viela ladeada de muros e musgo onde os gatos se esgueiram. É uma casa onde da casa-de-banho, se se for homem, vê-se o Gilreu a batalhar o Atlântico enquanto se faz aquilo que ninguém pode fazer por nós.
Mora lá a minha avó, velhinha, no quarto de cima, um quarto semeado de fotografias do marido, dos filhos, dos netos, da mãe, dos dela, dos meus, dos nossos.
Fez 93 anos no primeiro dia do ano.
 
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2012

Assim de repente, 2012 foram dois momentos. Na calçada dos gigantes em terras celtas e sob o sol intenso da poeira marroquina de Fez... sempre atrás dela, o meu horizonte. Que 2013 seja assim também, seguindo-a.
 

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Prendas a mim

No rescaldo do Natal eis as minhas prendas a mim. Para já:
 
  • Creedence... uma paixão antiga cujo espírito ia aparecendo pela net mas que faltava aqui em casa fisicamente e que agora pode rebentar com as colunas quando a Lira for ao ginásio e o gato estiver a dormir lá para dentro.
 
 
 
  • Otis, a voz da Soul, também presente em espírito há muito e que agora pode lamber-me a alma naquela rouquidão imensa de quem sente tanto que arrepia. Seria a música que eu cantaria se fosse cantor, era a pose que eu teria se fosse artista. Nunca se chorou de forma tão boa.
 

 
  • O clássico que ainda não li. Em português porque em inglês seria para bater com a cabeça no génio. Disse Joyce sobre a obra: "Um instante de cio cego". Como não?
 
 
 
  • Até tudo ter dele, a biblioteca não descansa, nem eu. A rendição é assim mesmo.
 

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  • Quem um dia escreveu "a cidade acorda menstruada pelos seus próprios crimes" sabia que teria seguidores de culto.
 

Apenas manto leitoso sobre tudo isto

Enevoaram-se os prédios mais altos, escondendo o céu e os pássaros. Uma chuva miúda plana entre os ramos das árvores, descendo aos poucos numa morrinha leve mas teimosa. Há gatos escondidos sob os carros estacionados, vultos rápidos do lado de dentro das cortinas das janelas. O vento soluça roçando nos arbustos e espalhando ainda algumas folhas esquecidas pelo Outono. Metido num casaco encurralo-me ainda mais por dentro do cachecol e esgueiro-me por entre as paredes e muros das casas. Imagino o que seria um louco tentando apanhar todas as pequenas gotas de chuva que caem antes de chegarem ao chão. O nevoeiro continua alto, vazio de voos, ausente de céu, apenas manto leitoso sobre tudo isto.
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O princípio da incerteza

Andar de autocarro pela cidade, permite reparar em certas coisas curiosas. A escolha do lugar para nos sentarmos gere-se pelo princípio da incerteza. É ver as mulherzinhas com sacos de compras mais a carteira pendurada ao ombro, hesitando entre o primeiro lugar livre que encontram, um mais à frente junto à janela ou o do fundo entre o corredor e um rapaz de phones e carapuço. É do conhecimento científico que o primeiro lugar livre é 99% das vezes desprezado. O segundo lugar livre é escolhido mas normalmente trocado após uma paragem e meia por outro junto à janela. Todo este processo é feito com mudanças de direção rápidas, com os sacos a fazerem barulho e uma espécie de suspiros e murmúrios parecidos com rezas obscuras. Se juntarmos a isto as pessoas que quase perdem o autocarro e entram ofegantes de uma corrida desesperada, é inevitável, que no exato momento emaque entram e se desiquilibram à procura do passe ou da senha, um sorriso a fugir ao riso se lhes desenha no rosto nervoso, como se sentissem o rídiculo a cair-lhes em cima, o cenário completa-se. O autocarro ao arrancar volta a balançar todos os sacos e o braço que se agarra ao ferro funciona como um pêndulo, atirando o passageiro num semi-círculo, pedindo desculpa aqui e ali, um com licença já aborrecido, e a impaciência alia-se ao tal princípio da indecisão do onde sentar. A cada viagem um compêndio rico para a psicanálise.

O futuro

Num dos muitos cadernos esquecidos:
 
Gosto de acreditar que o futuro é feito apenas de nuvem. Não sei. É isto. Nuvem e céu por cima, azul e imenso. Isso.
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O homem que sabia tudo o que não tinha acontecido

Ele não sabia o que se tinha passado dentro daquele quarto. Mas incrivelmente sabia o que não se tinha passado. A ver se me explico: do que se passara lá dentro não sabia nada, mas enquanto olhava a porta fechada do quarto, caiu-lhe em cima, como uma torrente infinita de informação, tudo o que não se passara lá dentro. De todas as possibilidades, da incomensurável quantidade de acontecimentos possíveis, todos eles clarearam-se-lhe na mente, excetuando aquele que de fato tinha acontecido. Imagine-se, de repente, como um clarão de um relâmpago, tudo o que não se passara dentro daquele quarto era-lhe revelado.
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Descrição

Havia, ao longe, um muro eriçado de lascas, era a tinta que se descascava ao ritmo das sombras, do vento, do sol, do frio e do tempo. Por trás desse muro uma casa velha e abandonada espreitava penosamente por entre eras e musgo. As janelas já sem vidros engoliam um negrume espesso e silencioso. O telhado destelhado descobria barrotes de madeira escura e quebrada, vigiados por um esboço do que fora, em tempos, uma chaminé e que era agora nada mais que moradia de um ninho de cegonha pobre e esquecido.
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Lendo

Jorge Luis Borges. Vou lendo, a espaços. Ler poesia exige um silêncio por dentro. Nem sempre o encontro.

Os nossos nadas pouco diferem; é vulgar e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios e eu o seu redator.


(As ruas) São para o solitário uma promessa
porque milhares de almas inquietas as povoam


Às cegas reclama duração a alma arbitrária
quando a tem assegurada em vidas alheias,
quando tu próprio és o espelho e a réplica
dos uqe não atingiram o teu tempo
e outros serão (e são) a tua imortalidade na terra.


quando a luz, como uma trepadeira,
envolve as paredes da sombra

e a noite já gasta
ficou guardada nos olhos dos cegos
 

Céline era um nome que eu já ouvira e lera na boca de outros. Como sempre, caindo numa livraria onde um livro destes ficam por menos de 5 euros não pude resistir. E entrei nesta noite escura, neste relato até agora sarcástico sobre um homem que vive a guerra. Um homem cobarde com medo de morrer, igual a nós portanto.
 

- Arthur, l’amour c’est l’infinie mis à la portée des caniches et j’ai ma dignité moi!
- Arthur, o amor é o infinito posto ao alcance dos caniches e tenho a minha dignidade, eu!
 
On est puceau de l’Horreur comme on l’est de la volupté. Comment aurai-je pu me douter de cette horreur en quittant la place Clichy? Qui aurait pu prévoir avant d’entrer vraiment dans la guerre, tout ce que contenait la sale âme héroïque et fainéante des hommes? À présent, j’étais pris dans cette fuite en masse, vers le meurtre en commun, vers le feu… Ça venait des profondeurs et c’était arrivé.
 
È-se virgem do Horror como se é da sensualidade. Como poderia eu duvidar desse horror quando deixei a Place Clichy? Quem poderia prever antes de entrar na guerra, tudo o que continha a alma heroica suja e preguiçosa dos homens? Agora estava preso nessa fuga em massa em direção ao assassínio em comum e ao fogo… Vinha das profundezas e tinha chegado.
 
C’est des hommes et d’eux seulement qu’il faut avoir peur, toujours.
 
É dos homens e apenas deles que é preciso ter medo, sempre.

 
Dans ce métier d’être tué, faut pas être difficile, faut faire comme si la vie continuait, c’est ça le plus dur, ce menssonge.
Nesta profissão de ser-se morto, não se pode ser complicado, é preciso fazer como se a vida continuasse, é isso o mais duro, essa mentira.