dia 263 - ciclos

cada vez se tornava mais difícil
havia um deserto maior por atravessar

não que ele já lá estivesse há muito
parecia até
que se esvaziara recentemente
como se alguém ou algum evento por lá ocorrido tivesse retirado todas as coisas

era um vazio recém-nascido
o chão ainda tinha os leves contornos das sombras e as pegadas do que lá antes estava pousado

o horizonte
sem obstáculos a ocultá-lo
aparentava estar mais longe
atirado para um largo mais distante
quase inalcançável

digo quase porque ainda assim a esperança de lá chegar ia resistindo
e nem uma miopia crescente no olhar a demovia

mas o alento sofria
o cansaço tinha a voz a ditar palavras de desistência
e o corpo poderia ceder a qualquer momento

sobrava-lhe a memória
podia usá-la como inspiração
recordar o que vivera e assim viver a vida outra vez
duplicá-la até que a soma lhe oferecesse a força necessária para continuar

e se depois disso chegasse a esgotar as recordações
poderia dedicar-se a imaginar o que seria ele hoje sem arrependimentos
inventaria uma outra vida
aquela que não chegou a experimentar

e é sabido
no mundo dos ses tudo é possível

pensou longamente nas escolhas que tinha feito até então
demorou-se nesse exercício até esquecer as dores e a fome

apercebeu-se que ao lado dessas escolhas passadas
houve acasos inevitáveis
sortes e azares que determinaram o caminho que acabou por seguir
como na poesia
versos há que não se escolhem
eles é que acabam por nos escolher

e outros ainda
nem querem saber
são a chama selvagem e indomável que lavra mesmo quando não há por onde arder

a solidão seria isso também
uma fatalidade

tudo o que existe acaba por se esvair para os recantos do universo
tudo o que pulsa vai-se separando e escapando para onde há espaço

e espaço não falta
há quem diga até que cada vez há mais
que se estende a velocidades inconcebíveis
e por isso a energia vai-se desorganizando
vagueando à deriva pelos silêncios que se propagam até definhar de vez

ainda assim
há quem diga também que a partir daí
dessa mudez radical e definitiva
nessa vasta planície de nada
tudo se volta a congregar
e numa vertiginosa implosão
o regresso da totalidade das coisas retorne a um ponto preciso para
uma vez mais
explodir novamente numa gloriosa detonação de elementos e substância

por isso
apesar de cada vez se tornar mais difícil avançar quando nada parece haver pela frente
a ideia de que navegamos dentro de ciclos infinitos
propele-nos para além de nós num rumo que existe fora do tempo


Nascer do sol no Saara, Tunísia, agosto de 2017

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