dia 251 - tríade

no que antecedia o conhecimento de várias coisas
havia pelo menos a intuição das mesmas a soprar pelos desfiladeiros da alma

como a ansiedade de que tanto falam alguns

ele desconhecia-a
não só a ansiedade em si como a própria palavra
mas no fim de certos dias
quando o tecido das horas se retesava até à ameaça de um rompimento
conseguia conceber esse estremecimento subterrâneo

ou o amor
que outros iam salivando por aí de olhos esbugalhados

ele que nem sabia nomeá-lo
ia no entanto
a espaços
ficando rendido a certos rostos e sorrisos
perdendo-se
até dele mesmo por momentos

e outras coisas mais
que não tendo denominação no entendimento que até então lhe servia
iam manifestando-se anónimas e órfãs pelo passar dos dias
reverberando-lhe pelo corpo e pelo espírito
comandando aos soluços vontades e anseios

talvez elas
as coisas
existissem duas vezes
uma antes e outra depois de se vozearem

no antes
o fogo que as molda será um instinto
com contornos difusos
iguais às sombras das gaivotas que passam céleres junto ao nível do mar
que hesitam no mergulho predador à ultima hora
reerguendo-se de novo para tentar mais tarde

no depois
com a palavra a impor-se na revelação
já elas vinham elaboradas
concretas na fonética que se anuncia
igual aos trovões inconfundíveis de um fim do mudo
que mesmo não se cumprindo totalmente abalavam os telhados da existência

assim decorriam os dias
na descoberta de um prévio e de um após
encontrando-se a meio num instante de criação

e desse modo
aos dois momentos juntavam um terceiro

ao silêncio de uma insinuação
e ao o grito de uma ameaça
surgia então o rumor de uma génese a imiscuir-se entre ambos

despontava por fim a tríade que completava o real
que sustentava o mundo
que unia as tramas dos assombros

por fim
tudo fazia sentido
mesmo até quando não fazia


Cama desfeita, Bogotá, Colômbia, junho de 2022

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