Dia 243 - caimento

e vinhas com as tuas manias
as tuas obsessões
a dizer que a diferença entre uma queda e uma órbita
é uma questão de velocidade lateral
que uma queda tem um chão e um fim porque está lá esse mesmo chão a dizer chega
mas que uma órbita não
que ela é um caimento perpétuo para um chão que se evade

a órbita é uma fome insaciável
que se engole a si mesma pelos vistos
que cai não caindo porque tem pressa em chegar
ela é um delírio contínuo
e nessa loucura acaba por ser uma trajetória que erra o alvo em permanência porque o alvo teima em curvar

e estas coisas dizias com o olhar a arder

e eu entendia até certo ponto mas desconcertava-me para lá desse mesmo ponto
porque cada um tem os seus entendimentos
e eles nem sempre coincidem

e nós
no que coincidíamos sempre foi efémero
potente mas efémero
enquanto que naquilo em que nos desfasávamos sempre pareceu durar demasiado tempo

mas era assim a dinâmica dos nossos encontros
variava entre instantes fulminantes e uns incómodos que iam crescendo até ser hora de cada um ir para seu lado

com certeza que eu tinha também as minhas cismas
que te falava dos fantasmas cujos contornos invariavelmente apareciam ao crepúsculo
enquanto que o que diziam nunca fazia sentido
e tu que até parecias entender o que eu queria dizer mas que depois expunhas o oposto
e nos desentendimentos acabávamos por desistir e pedir mais cerveja

uma coisa não mudava
a consistência da nossa rotina
disso não abdicávamos
não era bem na esperança de converter o outro
mas de precisamente cimentar as discrepâncias
de abraçar duas formas de se estar vivo

ou então era só sede e um certo vício de embriaguez
juntamente com sede de companhia e de ter lugar no mundo
de comprovar que se existe
e para isso nada melhor que um contraponto ou um discordar

porque ninguém é louco sozinho
é preciso
das duas uma
ou um lúcido ou um outro demente

estas coisas precisam sempre de testemunhas
de uma caixa de ressonância ou de um espelho e um reflexo
de um não a rasgar ou um sim a concordar

tu com as quedas e órbitas
eu com os espectros e as palavras incompreensíveis

cada um com o que lavrava no fundo da alma
e cuja erupção era irreprimível

o nosso dueto ia resistindo pelas tardes lentas do final de verão
e na base dos copos quase vazios
as gotículas de água condensada iam-se juntando a meio da mesa num rastro que engolia em reflexo o mundo à volta

para explicar esse fenómeno
tu disseste uma coisa
e eu disse outra


Ilha de São Vicente, Cabo Verde, dezembro 2016