dia 253 - prisioneiro

confessou os crimes
todos
sem exceção

a sentença proferida
com a soma dos castigos devidos

a pena seria cumprida
ou pelo menos iniciada

mas ao lado desses procedimentos
a culpa não fora abordada

ninguém pareceu importar-se

agora
enclausurado
teria tempo para contemplá-la

poderia pegar nela com as mãos
sentir a textura áspera de algo imutável
levá-la ao rosto
cheirar-lhe o aroma neutro das coisas perenes
lamber-lhe a forma
provar o sabor metálico dos grilhões

tudo isso haveria de acontecer
a seu tempo
que era coisa de sobra no interior da cela

a rotina também haveria de se juntar
os dias igualados a incendiar qualquer indício de novidade
as horas a arrastarem-se para lá do tédio

percorreria o próprio corpo até o saber de cor
até ao desinteresse
faria o mesmo ao pensamento
tratando-o como uma gruta onde os ecos esgotariam todas as palavras até à mudez

no fundo
o que se anunciava
era o lento apagar de si mesmo
um definhar até ser nada
ou ser só mais uma coisa pálida no cenário disto tudo

purgar-se-ia até ao anonimato
e mais
chegaria o momento até
em que de repente
nem o passado existiria

ia sobrar um presente monótono
e o futuro
estender-se-ia até os ses se imporem e teimarem em insónias

poderia cair na tentação de engendrar uma fuga
imiscuir-se nos padrões dos guardas
vasculhar as debilidades do estabelecimento

mas sabia que lá fora
depois do que fizera
não havia destino após uma improvável evasão

pressentia até
que do lado de lá a prisão seria ainda mais castradora
que as paredes da liberdade forçada revelar-se-iam ainda mais exíguas do que estas
e que o olhar passaria mais tempo a lançar-se para trás do ombro do que para a frente até se perder no horizonte

aliás
horizonte era uma realidade que se esfumava a cada dia
como se o mundo mingasse até que o sopro da respiração embaciasse tudo à volta

havia contudo a derradeira escolha
ainda era dono do pulsar que batia dentro do peito

podia pensar em acabar com esse ritmo
pendurar-se por uma corda na calada da noite
ou lançar-se pela janela que dava para o pátio na passagem entre as celas
ou ainda provocar um recluso até à infâmia e a uma navalhada nos chuveiros comuns

sim
havia isso ainda
mas também é certo
que esse tipo de decisões não era para todos
almas há que não desistem de permanecer
mesmo após terem desistido de tudo o resto

por fim
lembrou-se
sobravam os milagres
a escapatória de uma intervenção divina

quem sabe
perguntava-se enquanto enlouquecia aos poucos dentro da jaula
 

Chateau de la Chèvre d'Or, Èze, França, junho de 2026

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