as palavras vão perdendo cor
não que desapareçam logo mas rapidamente o brilho inicial dissipa-se
como se a voz depois de dita mingasse por dentro
elas continuam ali
estão lá para que outras leituras se façam
mas os timbres são já outros
e se calhar com isso
o que dizem também é uma outra coisa
e depois há os tempos verbais
que são o que são quando nascem
mas que forçosamente têm de ser outros quando renascem
não é fácil explicar tudo isto
porque o tempo passa e o presente nunca se agarra
ele é furtivo e livre e não pertence a ninguém
o milagre tanto dura um instante como dura para sempre
e às vezes nem sequer acontece
o que leva ao paradoxo de ser algo que mesmo não sendo acaba por ser
se calhar isto é um nó impossível de desfazer
só à espada como fez aquele rei com o górdio
numa decisão radical face a um problema insolúvel
quem sabe
pode ser até que tudo seja impressão minha
ou que as palavras não se deem conta de nada
há quem diga que não passam de caixas de ressonância
carcaças que repercutem o que lhes calha
que no fundo
o que cada uma diz depende do que lá lhe metem dentro
eu já não sei
fico-me pela dúvida e hesitação
ao sabor dos ventos invisíveis da inspiração
porque mesmo não sabendo há ainda assim coisas que nos intermeios se vão sabendo
como uma última palavra