quando se juntou a nós
há muitos anos
trazia no olhar um luzir tremendo
dava para perceber que por dentro
ocorria mais mundo do que cá fora
um vendaval enlouquecia ao redor das pupilas
como se a íris fosse uma colisão de galáxias a acontecer em permanência
no início
conteve esse universo no próprio colo
não o partilhou de imediato
ia ouvindo o que os outros diziam
sorvendo ainda mais para o caos que matutava
aglutinando tudo num âmago que vibrava cada vez mais ferozmente
alguns afastavam-se
outros curiosos aproximavam-se
eu fiquei a meia distância
entre um eventual perigo e uma inútil expectativa
quando finalmente ela falou
fomos arrastados por um maremoto de emoções
não que o concreto do que contava fosse novidade
mas antes o tom do que contava é que nos flagrou abruptamente
inundou a terra de lágrimas
encontrou nisso a sua catarse
uma forma de expiar as labaredas que
segundo ela
ardiam desde que tinha memória
no fim
esgotada e com o olhar vazio e pardo
disse
não precisas de ser deus sempre
só às vezes
eu não na altura não entendi bem o que quis dizer
mas à minha volta alguns pareciam entender
ajoelharam-se para lá deles
como se de repente tivessem recolhido à terra profunda
agora
passadas tantas eternidades
quando a recordo enquanto as nuvens se demoram no horizonte
chego a duvidar se tudo aquilo aconteceu
ou
não tendo acontecido
o que significa
