os gatos de rua miavam e bufavam por entre os caixotes de lixo caídos
em breve
no silêncio do quarto
a almofada iria abafar os gritos que tinha guardado durante o dia
não valia a pena falar com o reflexo do espelho por cima do lavatório
nem sentar-se no sofá velho da sala
era a cama que queria e asfixiar os berros que trazia dentro
tinha memórias para desfazer antes de conseguir dormir
era assim há muito tempo
desde que ficara sozinho
já que ninguém estava por perto
havia que abraçar a solidão por inteiro
e convocar deslembrança era parte do plano
a outra parte tinha que ver com uma rotina caótica
acordar quando tivesse de ser
comer quando fosse indispensável
e chorar sempre que possível
esta última revelava-se cada vez mais escassa
sem recordações as lágrimas não vinham
e por vezes
quando se dava conta que estava entre soluços
desesperava por não saber a razão
como se a tristeza o convocara sem aviso e sem chão onde se suster
então saía para a noite
caminhava até as pernas doerem e sentir de novo um desespero a crescer em volta
ia engolindo em seco
acumulando no íntimo ulos e bramidos
apinhando-os até quase transbordarem pela boca
em casa despejava-os então
amarfanhando a almofada com as mãos e o rosto enfiado até não haver mais espaço entre os dentes e o tecido
um açaime de desalento a rasgar a alma mas a poupar os vizinhos
qualquer dia
por lapso ou por insânia
há de colocar a almofada de lado
e à janela a plenos pulmões há de gritar até a voz finar
quem sabe se nesse instante
o sol chegue mais cedo do que o previsto
como se o globo inteiro galgasse o próprio tempo
e num repente acordasse em sobressalto