um pequeno pormenor a espreitar para fora do que seria mais uma indiferença
ele carregava forçosamente coisas que não podia deixar
coisas que se grudavam à alma
e que por muito que as quisesse esquecer
elas pregavam-se à lembrança e não mais desistiam
essas coisas tinham chegado em silêncio
e aos poucos foram criando raízes tão fundas que se confundiam com a textura do que já lá estava antes
no lento remoer dos dias
foram-se incrustando pela derme do que ele era
como uma tatuagem irremovível
símbolo de que ninguém escapa ileso aos embates da existência
havia que inventar um mundo para que lá caibamos nós menos as cismas
era isso que pensava
enquanto olhava o corpo que cada vez mais lhe parecia estranho
como se se fosse esvaindo por entre as frinchas do espírito
algo ia-lhe povoando o âmago
e assim empurrando-o devagar para fora
vertendo-o pelo caminho que ia irremediavelmente desbravando
temia que a certa altura nada dele sobrasse
e que a carcaça avançaria sem rumo afastando-se como aqueles barcos anónimos que desapareciam para lá do horizonte
a cada passo dado
ia sendo um apagamento do que fora
e foi percebendo
que afinal
no desenrolar dos acontecimentos
ia falecendo para que um outro nascesse
era isso
o que tinha sido no início
quando os sonhos faziam sentido e o medo nem sequer existia
há muito se apagara
tinha sido coberto por outros com outros sonhos e com medos novos a conspirar
mas percebia também
que esses outros já não existiam mais
que foram sendo extintos por subsequentes cujos alentos eram diferentes
no fundo
a cada instante ele morria e renascia
e esses eus falavam já outras línguas
quando se confrontavam nos monólogos interiores das madrugadas
desentendiam-se até aos duelos mortais
ao nascer do sol
só um sobrevivia
para logo depois ser confrontado com um mais forte e mais decidido em sobreviver
ele não sabia se todo este caos fazia sentido
mas pouco importava
sabia desde já
que em breve
outro o substituiria
e esse jogo de cadeiras do ser era interminável
aceitou enfim a fatalidade
e ao ser expelido de si próprio pela torrente interna do assombro
esvaiu-se de vez pelo éter difuso de tudo isto




























