escapou de um presente insuportável
quando assim é
quando decisões fatídicas são tomadas
para trás fica um passado sempre pronto a aparecer a meio da noite num sonho aleatório
desse meio pesadelo sobra um galope pela alma a imaginar o que teria sido se porventura aquele presente se eternizasse
que eu teria sobrevivido a esse terror
mas é sabido que a promessa de tudo é o pó derradeiro
que já se morreu de certa forma
que os epitáfios ou estão escritos
ou então
se fôssemos o último dos seres
ninguém os escreveria
e assim a sepultura seria um vasto silêncio sem eco
mas o que não foi também não precisa de tanto drama
basta uma febre de vez em quando para o queimar
mesmo que insista em não ceder ao olvido
os ses assim são
resistem e teimam
mas só vencem quando descobrem o caminho oculto da loucura
hoje há outros desvarios a evitar
esses antigos que esperem
que aguardem pelos primeiros dias cinzentos depois do verão
que se calem até o baixar da guarda
porque desse distante presente do qual escapou
todos os dias ele lá volta para se evadir de novo uma e outra vez
só assim o eu de hoje se sustenta
porque se libertou desse instante onde era enclausurado ainda antes de nascer
porque só assim alicerça a própria existência
o rio do tempo pode ser desviado
mas há de correr sempre em direção ao mar
por muito que se acumule e se contorça acaba por transbordar
as inevitabilidades têm uma força maior
e exigem um milagre para que desabem
mas há tanto milagre que se nos escapa
que passam furtivos pelos dedos da sina
que deslizam por entre os hiatos da atenção e que calham no preciso momento de um piscar de olhos
os que dizem que não há tempo a perder até podem ter razão
mas é igualmente verdade que o tempo que se perde também tem o seu valor
seja em equilíbrio em excesso ou em escassez
há sempre uivos para soltar
basta ter um coração no peito a bater