os ossos precisam de alma para encarnar
para cobrir de carne e músculo os corpos
até porque o chicote ancestral do medo tem de ter lugar para se despenhar em estalos que repercutam pelo cosmos
as velas ardem com chamas que arrebatam os corações
e o desejo atordoa os sentidos dos mais distraídos
os outros
aqueles cujos olhos não perdem pitada
que engolem cada segundo com um fervor antigo
esses nunca se saciam
por muito que o mundo se revele por muito que o céu estremeça
esses vivem em permanente transe
adiam a ressaca nessa intoxicação que parece não terminar nunca
ou vivem calejados e por dentro de peles que mais parecem pedra
e aí nada entra e nada verdadeiramente acontece
no grande largo da aldeia
e junto às árvores que o contornam
as velhas
quais figuras mitológicas
metem os braços por dentro dos aventais
enquanto os maridos ora fumam ora se encostam uns nos outros a trocar segredos ébrios
passar o tempo é o que fazem
como se fosse preciso fazer o que quer que seja para que ele de facto passe
os mais novos não estão
virão mais tarde quando a fome os chamar
ou então só amanhã quando um resto de pudor o exigir
ainda que
um ou dois
de vez em quando
não voltam mais
e só numa carta décadas mais tarde é que dão sinais de vida
mas deles pouco ou nada se fala
quem daqui foge leva tudo
os indícios de que por cá andaram e as memórias de quem os recusa lembrar
orfanizam-se
ou por necessidade ou forçados por todos os outros num coro silencioso mas implacável
é sabido que quando nada se tem a perder
o espírito cavalga no vazio do sem rumo
e que essa imagem aos olhos dos outros
aos ancorados
é um quadro que fere o olhar para lá do que é uma dor
como se ao espelho o reflexo mostrasse o vácuo infinito do futuro
o que vale é que com a prática
dominam a arte de fechar os olhos
e de os abrir somente quando o dia seguinte vem
limpo e monótono e igual
perfeito para continuarem o lento definhar que escolheram