afundam-se
em lugares quietos
ora cobrem-se de seda e cetim
ora ficam nus à procura de um deus ou outro
no espaço exíguo de uma vida
há ainda assim muito caminho a desbravar
muitos silêncios por engolir e segredos por desfazer
eles são discretos
mas os corpos não deixam de ter a sede dos amantes
os olhos não deixam de seguir os voos nervosos das moscas no verão
a contrição a que se prestam
nasceu não se sabe bem onde
e hoje é órfã
por isso poucos a abandonam
eles vão seguindo um norte só deles
vagando pelas estações como alguns pássaros
imbuídos numa missão que desconheço
mas que intuo ao vê-los juntarem-se na orla das praias do outono
e nas colinas cujas estradas serpenteiam por curvas e contracurvas
no fim
eu sigo-os ao longe
daqui
do alto de umas palavras
da torre de uns versos
e do aborrecimento de uma espera
e muito provavelmente
por tão longe deles estar
o que escrevi não será bem verdade
mas também
quando é que o que se escreve
alguma vez é verdade
ou mentira


