semeados por várias esquinas
marcos de correio com suas goelas negras à espera de sorver envelopes
ele vivia lado a lado com a ânsia de uma espera
fosse aguardando por uma carta que nunca mais lhe chegava
fosse por uma carta que nunca mais lhe saía dos dedos para o papel
ficava a roer esse desassossego em desatenções estranhas
dedicava-se a ouvir o horizonte onde a sola dos sapatos encontrava a gravilha
o roçar esmagado de borracha com essas areias esfareladas
o encarquilhar e ranger que aconteciam nesse preciso momento em que se caminha e os passos se sucedem
o nevoeiro que lambia a copa das árvores até um orvalho se pousar nos arbustos baixos
a luz espalhada por essa nuvem térrea a empalidecer as distâncias
criando miragens de um tempo em que havia druidas e as florestas segredavam
ele sabia que poderíamos estar dentro de um sonho neste preciso instante
quem sabe
o universo poderá estar a dormir-nos até que o sono se esgote
e quando o dia em que nada mais seja possível a não ser estar acordado chegue
pode ser que tudo faça sentido
mas até lá
ele olhava uma linha de colinas ao longe
onde os moinhos de vento estavam ancorados
e o que rodopiava não eram as velas nem as asas
mas sim tudo o resto
o chão o firmamento o planeta a voltearem em carrossel
enquanto que os moinhos faziam de eixo fixo a sustentar o desvario
falava sozinho para que pudesse ouvir uma voz
e assim talvez acreditar nestas coisas
dizia
houve uma manhã
em que o meu café era um poço escuro a devolver um reflexo que eu desconhecia
e quando já quase não sobrava nada na chávena
a última gota mais aguada
ainda se agarrava a esse mistério
soube aí que esse dia iria serdiferente
se o dia chegou ou não a ser diferente não se soube
mas há tanto que não se sabe
que uma mais não faz diferença nas contas finais disto tudo
a vertigem é isso
essa permanente incongruência onde coabitam
a intuição de que no fim nada importa
e de que ainda assim cada momento conta