vamos então
percorrer silêncio
ou uma espécie de mudez que habita naquele instante em que as palavras parecem sumir
por vezes
há olhares que se precipitam pelos reflexos dos espelhos
que disparam numa fuga inalcançável e nunca mais se recuperam
um pouco como os esquecimentos
ou aqueles sonhos que ao acordar começam a esvair até que o que fica é quase nada
uma sobra de contorno
ou nem isso
um pedaço de tempo que não se agarra por muito que apertemos as mãos
aliás
se insistirmos com desespero
o caminho para os dedos deixa de existir
e o próprio corpo fica sem se encontrar como engolido por uma escuridão sem nome
é aí que jaz tudo o que esquecemos
é escusado tentar resgatar o que quer que seja desse poço
o que eventualmente regressa à superfície é fruto de um outro tipo de acaso
e foi um desses destroços que acabou por dar à costa
atirado para a praia da memória como aqueles pedaços de madeira que atracam pela areia depois das marés vivas no início do outono
do rosto e da pele
um leve bronze com sabor a sal e a sol
as curvas e contracurvas de uma silhueta de mulher fatal
uma língua húmida e de cetim
a textura de um afago na derme brevemente desperta num arrepio
o crepitar de uma paixão de verão
os entardeceres que se estendem para lá do possível
o calor que emana de um dentro por desvendar
a nostalgia do que se sonhou a inundar o agora
mesmo se o agora é uma falsidade
é que este poema é de ontem
e ontem foi há mil anos
Foz do Douro, primeiro dia do ano, janeiro 2024
