e ao voltar as coisas pareciam fora do sítio
embora também pusesse a hipótese de ser ele que ao regressar
se calhar chegara a um lugar ligeiramente diferente
há sempre movimento em todo o lado a todo o momento
é sabido
e ao olhar em volta
nem ele nem o mundo eram os mesmos
ocorreram oscilações que por muito pequenas que tivessem sido desviaram a realidade anterior
essa verdade era evidente quando estudava os silêncios
eles não diziam as mesmas coisas de antes
e o que diziam agora ecoavam por outras esquinas
escapavam por frinchas que não conhecia e vertiam para dentro uma solidão desmesurada
quando o encontraram
ele de facto não estava
era o corpo a equilibrar-se num limbo existencial impossível de localizar
o revólver a hesitar entre a mão e a gravidade
o sangue coalhando no chão mas também nos olhos de quem entrara no quarto
a solução pareceu ter sido drástica
e como todas as decisões
esta com certeza fora instantânea
não havia volta a dar
o que acontecera fixara-se
como aquelas pequenas manchas de luz que nos dançam pela vista após olharmos o sol de frente
estas coisas demoram até fazerem sentido
e por vezes
quando algumas delas apesar da espera não chegam a fazer sentido
então permanecem e alastram-se até se mistificarem por aí
serem faladas em segredo elevadas a lenda ou convertidas em rito
"O Suicida", obra de Édouard Manet, 1877; Stiftung Sammlung E.G. Bührle em Zurique, Suiça em abril de 2025