ele contou-me o que fazia há anos nas suas viagens
dizia que por esses blocos de notas órfãos nos vários quartos de hotel onde ficava
ia espalhando bençãos e preces e pedaços de inspiração
evitando as marcas de água e os logótipos e procurando uma simetria impossível
deixava-os quando ia embora e levava com ele a dúvida sobre o que lhes aconteceria de seguida
não se volta a coser o cordão umbilical do que fez nascer um sonho
disse-me entretanto enquanto se ajeitava na cadeira
depois falou-me de um incêndio que tinha por dentro
das chamas que lavravam no peito e que não conseguia apagar
não sei se era de amor que falava
ou de um arrependimento tão grande que só um lume podia calar
pelo menos sabe-se que não há futuro em ser fogo
mais cedo ou mais tarde não há mais nada para arder
as cinzas e os vestígios chamuscados do que outrora foi alguma coisa hão de jazer no que sobrar desse coração
ele não explicava tudo de uma vez
eu precisava de muita atenção para não me perder nas narrativas
e ainda assim dei por mim muitas vezes desorientado
como se acabasse por ser
também eu
um desses versos que ele espalhava em cadernos esquecidos
a cada história nova
a anterior sumia parecendo nunca ter sido contada
e este encadeamento durava horas nas nossas conversas
quando eu tentava regressar a um início
já ele se afastava para uma conclusão sem sentido
mas era esta a nossa rotina
ele a desabafar e eu a desabafar por contágio
e nem sequer sabíamos o nome um do outro
todos temos cismas para expiar as próprias culpas
sejam elas verdadeiras ou imaginadas
e estas coisas são mais fáceis entre desconhecidos ou alucinações do que ao espelho