por trás das cortinas das aparentes evidências
jazem outros mundos
outros rostos
outras vozes que sussurram até para lá de se terem calado
nessas planícies sem fim
ela galopou com um fervor feito de fogo
perseguida por uma sombra oblíqua enquanto se lançava desenfreada na direção do sol
sol esse que se arrastava baixo junto ao horizonte
um dia
há muitos anos
quando uns quantos a rodearam e lhe disseram para baixar a cabeça
ameaçando-a com lâminas e correntes
ela olhou-os nos olhos e proferiu
ou para afagar um campa
para mais nada
do sangue que se seguiu sobrou a lenda de corpos semeados no chão e de uma louca à beira da morte
a partir desse dia pôs-se em fuga
dela mesma
dos outros
e do destino
para escapar ao inevitável agarrou-se a um devaneio
fez de uma cisma uma forma de sobrevivência
cerrou os dentes até cortar o tecido da vida
abraçou o luar quando por sorte ele despontava nos céus solitários do exílio
uivou até a garganta se degolar a ela mesma
deixou-se cair na praia do fim do mundo
mais do que cansada para lá dum esgotamento pleno
abandonou o corpo o suor e a alma
despiu-se do passado do presente e do futuro
vestiu a manta intemporal dos mitos
acabou num lugar sem nome e sem coordenadas
descansou por fim
rendida ao apelo profundo de uma libertação
pôde sonhar
como fazem os animais selvagens nas madrugadas da savana sob o manto incorruptível
de quem pela primeira vez
