ir ao encontro de todos os escapes
de partir com as possibilidades do que se imagina
mas também daquilo que nunca foi sonhado sequer
deverá ser verdade que tudo o que nunca aconteceu
preenche mais infinito do que aquilo que acontece
mas todos os dias alguma coisa tenta matar-me e acaba sempre por falhar
e eu
então
celebro na corda bamba do horizonte
no equilíbrio possível
por mais um dia que irá nascer
mas este eu é um embuste
ele vai desempenhando o papel momentâneo de ser verdadeiro
de acreditar no que diz e no que conta
mas o seu mundo é lasso
assenta em solos movediços e sujeitos a derrocadas definitivas
é um eu a prazo
como um cometa de passagem que vozeia enquanto é visível
mas que minga e se afasta numa órbita inalcançável
ao lado um outro eu escuta
que julga cada palavra
que procura na mesquinhez da sua natureza a satisfação de um tirano
mas esse também caminha em telhados de vidro
dorme com medo todas as noites
com vergonha e remorso da pequenez que carrega
tudo isto é um jogo de espelhos
e esses dois eus afinal navegam num mar de tantos outros
uns que se olham de frente outros cujo rosto desparece em ângulos impossíveis de contornar
o caleidoscópio de um ego exposto por um instante
até que colapsa na implosão inevitável das palavras que escreve
é certo que vamos sendo muita coisa ao longo do tempo
mas há um momento em que só podemos ser o que somos
