ninguém sabe ao certo
depois do último traço e um ou dois passos de recuo
de um pequeno assombro quando calha de se ter descoberto o que ainda não existia
mas e depois de tudo isso pergunto
é o silêncio que cai ou o desassossego de novo a imiscuir-se
poder-se-á ter ganho um pouco de tempo dentro do tempo
ou a vertigem não descansa e a queda não acaba
quem sabe se o artista não se esquece da própria sombra
a modelo não perde mesmo a cabeça
e a tela não se propela para lá dela mesma
quem sabe se nós
deste lado
sem ter tido de passar pela viagem da criação
não nos contentamos com essa ignorância
porque o que nos chega dos traços não pertence a cronos
a emoção que despertam é intemporal e move-se em coordenadas indecifráveis
o que acontece depois
no fundo
não se sabe
apenas é certo que não é mais o que acontecia antes
pois nem nós nem o mundo somos os mesmos