aos poucos
mesmo sendo o mais recente nos encontros
parecia já um veterano
quando era a vez dele falar
todos sabíamos o que ia dizer e mesmo assim todos ouvíamos com atenção
fugi de ter falecido
e nessa fuga soube perdoar-me
abria sempre os discursos com estas palavras
para depois se lançar num monólogo imparável
o que proferia apesar de não fazer sentido
entretinha a ideia de ser verdade
no caos da palestra as frases encontravam um destino
há viagens cujo caminho acaba por ser desconhecido
mas a meta ilumina-se como um farol ao largo de uma noite fechada
quando soubemos que afinal ele era uma fraude
que se tinha imiscuído no grupo para pagar uma dívida
que inventara um nome e uma história
que não acreditava sequer naquilo que dizia
a desilusão contaminou-nos até ao próprio lamento se esgotar
muitos queriam procurá-lo
tirar satisfações
exigir compensações
ver com os olhos e ouvir de viva voz a enganação
no fundo queríamos a confissão
queríamos a desculpa para um castigo
sentíamos sede de juiz e carrasco
mas o mais velho de nós avisou
a vingança é uma âncora mais no passado
e esse aviso refreou alguns de nós
uns covardes uns ajuizados
mas outros havia ainda que não fizeram caso
que partiram à procura do homem com facas nos bolsos e cordas sob os braços
hoje
passados muitos anos
nem dele nem desses que foram atrás chegaram notícias
os que agora falam recusam o tema
e os que ouvem não escutam por dentro senão outra coisa
mas saber-se do desfecho ninguém sabe
e na verdade
dos que por cá ficaram
também pouco se sabe
