após alguns meses atracaram no castanho e por lá ficaram
azularam-se de novo já perto da décima década
e foram empalidecendo até se atenuarem num lago de cinzento leve
são olhos que tudo viram mas onde ainda cabe um espanto ou dois
o tempo foi esculpindo o rosto
deslizando na juventude e tropeçando mais tarde em rugas e dobras e redobras
as mãos encapadas de sinas e contra sinas
como que a decidirem elas próprias um destino e ignorando as sentenças do acaso
a cobri-la um luto antigo
tão velho que com certeza começou nos antepassados
mas mais do que a recordar um marido ou um filho que se foram
esse luto é um casamento com a dor
como que para a domesticar
transmutá-la para uma rotina tão imutável como o sol que nasce e se pousa cada dia
a velhinha abraça o que ainda sobra de tempo
aceita-o num colo moldado para ser ninho
sabe que um dia a noite não vai ter fim
mas para ela
cuja própria vida já durara um infinito
não é um outro mais que a assusta