a carta que ela lhe deixou
nunca cheguei a saber se ele a lera nem o que dizia
só sei que durante meses as folhas de papel iam resistindo como podiam
até que um dia o vento rasgou a última folha
ficando apenas um resto irrelevante esmagado pelo prego
escurecendo até ser árvore também
ela nunca mais apareceu
mas deixara para trás um mar de ausência e sombras
a casa
desde então
tornara-se maior
e ele perdia-se nos caminhos entre as divisões
do quarto para a sala da sala para o jardim
quando eu perguntava por ela
respondia
não sei
e se calhar nunca soube
talvez por isso cumpriu o desconhecimento e foi
escreveu e foi
dizia estas coisas sem grande emoção
com uma resignação cansada
o mistério também se foi esgotando
esfiando-se pelos silêncios dos dias tardes e noites
tornando-se um pó de solidão que o envolvia a ele já por completo
eu visitava-o quando podia
tentava ajudar
mas notei com o passar do tempo
que juntava a minha saudade à dele
um dia dei por mim a escrever-lhe uma carta
uma última carta