começar por um silêncio
sobrevoar um sono alheio pelos desfiladeiros da manhã
a luz a entrar como um relâmpago que não acaba
e o dia inteiro a estender-se lá fora onde o mundo acontece
o quarto resiste ainda
agarra-se às silhuetas da véspera
às roupas que por lá ficaram
ao sabor dos teus lábios
aos sonhos que se consomem num esquecimento cheio de pressa
a preguiça a retesar-se pelo corpo até ser expelida numa neblina invisível
a língua a pedir água e os olhos a habituarem-se ao agora
acordar e reaprender tudo de novo
reconhecer-se ao espelho
voltar a vestir a pele que ficou no ontem
medir o olhar e o alcance das mãos
e onde se começou por um silêncio
há que voltar a saber ouvir
por isso é que muitas vezes
depois do automático bom dia
nunca ouvimos à primeira o que nos dizem depois
muitas manhãs começam com uma pergunta
diz