no labirinto da necrópole
por entre o que tinham sido alguns caminhos entre as campas
uma tumba em particular saltava à vista
coberta por poeira do tempo passado
duas palavras
gastas e desvanecidas
diziam
a dormir
talvez aí repousasse aquele mito sobre alguém que de tanto se esconder
ninguém mais encontrara e não mais voltara a aparecer
ao largo
numa das muitas sombras despejadas sobre a cidade
a estrada cortava a urbe de horizonte a horizonte
enquanto o céu transmutava por entre as nuvens num contraste que fluía
erguiam-se as torres dos oráculos
apontadas a um alto demasiado longínquo
e cujas profecias cumpriam tudo o que havia a cumprir
menos acontecerem
existia um vazio por preencher no escape destas coisas
e enquanto não surgia
por entre os silêncios e o sono ininterrupto dos mortos
cabia ir tecendo a demora
farrapo a farrapo
com fio que pudesse sobrar das linhas da sina daquele ou daquela que dormia
ps- São Paulo, Brasil, maio 2018