o que acontece
nesses intervalos de nómada
quando se recolhe nos quartos de hotel que partilham entre eles uma exatidão comum
é um passar por várias solidões
não as acumula
até poque são diferentes e consomem-se mal a porta se fecha no dia da saída
mas enquanto com elas convive vai também ele entregando-se
e não é incomum que antes de dormir ou a meio da noite ou quando abre a janela de manhã
se sinta sem saber de onde veio nem para onde vai
como se interiorizasse
no âmago
que tudo é momentâneo e que nada pertence a lugar algum
a mala com a roupa aberta
o livro com meia leitura por percorrer
um caderno com notas e hesitações
os cartões e moedas espalhados pela secretária
a televisão apagada e muda
todo um cenário que ao repetir-se nunca é ainda assim igual
a vista a revelar um pedaço de cidade ou umas traseiras urbanas distantes
o vibrar de um frigobar que invariavelmente desliga antes de ir para a cama
as almofadas a mais que amontoa a um canto e que quando acorda lá estão idênticas e aborrecidas
as luzes que acende e apaga e que nunca são suficientes apesar da meia dúzia de interruptores
o calor que se instala à volta do corpo e que ele recusa combater com o ar condicionado
a garrafa de água de cortesia às vezes
duas cápsulas de café ao lado de duas saquetas de chá que nem sempre surripia
esse universo paralelo que vai visitando
com mil variantes e sempre alienígena
e que se apresenta quase transcendente
não que ele não durma bem em casa
aliás dormir nunca foi um problema para ele
mas o sono nesse mundo é mais pesado e definitivo
quando desperta parece que o lugar é outro e que ele já não é o mesmo
essa sensação dissipa-se depois com o café do pequeno almoço
e enquanto faz a mala e a ronda ao quarto para ver se nada esqueceu
aos poucos
a promessa do regresso a casa ganha forma
o hotel vai-se esfumando na lembrança
perde o nome e a forma
até que sume
ficando ele livre para encarar uma saudade
grande ou pequena
e uma viagem de volta ao lar