são feitos de passagem
como algumas traças que vivem apenas um dia
isto se não se lançarem loucas para uma lâmpada a meio da noite
esses lugares não dão tempo para grandes revelações nem traições
eles consomem cada segundo
despenham-se para o momento seguinte sem olhar para trás
são levados por uma pressa desconhecida e levam-nos também nesse frenesim
o que não têm a perder não chegam a sentir falta
e no registo do passado ficam-se por um quadro desfocado e uma descrição incompreensível
como a caligrafia dos médicos nas receitas de sempre
há uma espécie de insónia e amnésia que acompanham esta coisas
o nosso discernimento é toldado por um devaneio que se ergue
um jet lag irrecuperável
vamos cumprindo a missão que desconhecemos mas que aceitamos por um qualquer compromisso de honra
vivemos segundo um código que herdámos e que se tatuou nos genes e nos guia o instinto
a consciência dita o inevitável
seja uma ação ou um arrependimento
qualquer um dos dois é vinculativo
estes lugares que não duram
ainda assim perduram
grudam-se em nós fulminantes
cada ruga conta essas histórias
Aeroporto de Lisboa, hoje
