desde sempre que uma loucura o habitara
galopara-lhe pela alma até incendiar o olhar
vivera numa sede permanente
e acometiam-lhe sonhos que o devolviam a insónias intermináveis
ora sonhava que a luz voltava a um suposto berço
espalhando-se pelo mundo em ouro e prata
soterrada nas entranhas da terra
e que ele
qual garimpeiro
dedicava-se a peneirar todos os chãos
até saber cada pedra de cor
ora alucinava que um poço engolia a noite
sorvendo-a até desenhar no reflexo ondulado da água um céu estrelado
enquanto no pátio abandonado que cercava o furo
uma tempestade de mil folhas rodopiava até se render num novo suspiro
redistribuindo um tapete outonal como quem dá cartas num jogo cansado
há quem diga
que se perdera às portas do maior deserto
que se evadira para lá de dunas antigas
enfeitiçado pelo azul celeste e o calor insano
terá seguido uma lua solitária que nunca se escondia
esgotando os uivos que carregava
cuspindo-os para lá do cosmos
navegando as ondas trémulas das miragens
até não haver mais mundo por onde ir



