não soube bem dizer de onde
e o regresso
apesar de evidente
não era total
trazia ainda os resquícios de onde tinha estado
notava-se sobretudo no olhar
havia um desnorte na vista
como se procurasse reencontrar um equilíbrio perdido
se calhar
por onde tinha andado
o chão tinha outra curvatura
ou o céu mostrava outras estrelas
aos poucos recompôs-se
tentou ajustar o fôlego e reorganizar a alma
nós
que tínhamos ficado
tentámos ajudar
mostrámos-lhe uma cadeira que recusou
oferecemos água que bebeu de um trago
esperámos os momentos que julgámos suficientes antes de perguntar
e quando perguntámos
as respostas voltaram a incendiar-lhe o olhar
retorquiu o que pôde com as palavras que tinha à mão
fomos ouvindo
tentando conceber o périplo
fingimos quando não entendíamos e anuíamos quando era necessário
ele cambaleava pelo relato
estremecia pela tensão da narrativa
lançava-se com fervor pela história que partilhava
até que partilhou desalentos
vi um dia inteiro de chuva a desperdiçar água sobre um oceano
perdi um comboio só porque pensei que a tinha visto à entrada da estação
e o tempo de confirmar o engano assustar a desconhecida e ser empurrado pelo marido
já a locomotiva arrancara pelos trilhos
cheguei a muitos lugares a um domingo
com tudo fechado em penitência
virei à direita quando evidentemente teria de ter virado à esquerda
ou vice-versa
pouco importa
o certo é que era sempre do outro lado que aconteciam as coisas melhores
pedi uma bebida só porque achei o nome interessante
era péssima
e quando repeti não melhorou
numa noite mais solitária
seduzi uma louca
ou ela a mim
inevitavelmente nenhum de nós pagou nem recebeu
e continuou num relambório de desabafos até finalmente aceitar a cadeira
já sentado
mais calmo e sereno
avisou
amanhã volto a partir
mas desta vez
não sei se volto
voltaria sim
ele acabava sempre por voltar
até porque nós
para existirmos precisávamos que ele voltasse
não queríamos ser apenas alucinários de um ébrio