desde sempre que ele falava de causas perdidas
ao mesmo tempo que celebrava o estremecimento da existência
aparecia à janela a gritar
desejo viver assim
com a sede que vem sem avisar
só não quero é morrer da mesma forma
sedento sem perceber
e voltava a recolher-se enquanto a cidade ia sendo lá fora
no compasso habitual de ser urbe
com os cheiros a asfalto e embraiagens gastas
os motores a grunhir nos arranques e as buzinas a palpitarem aqui e ali
lá dentro
ele ia acumulando esperas até ser hora de voltar a debruçar-se
calcorreava o caminho puído do quarto à sala da sala à cozinha
esfregando o rosto e passando as mãos pelo cabelo na luta perdida de o tirar da frente dos olhos
ocorria um duelo permanente entre o abandono e a loucura
ora caia um ora esbracejava a outra
e ele no meio
a assistir
apostando num vencedor sem grande convicção
haveria de chegar o dia
em que à janela
ou a cidade já não lá não estaria
ou ela o engoliria de uma só vez
como jogar um cara ou coroa com a última moeda
e depois de saber o resultado
fosse ele qual fosse
quase que o consigo ouvir deste lado a perguntar ao éter
à melhor de três