dia 35 - recolhimento

levou para dentro
um pedaço de tempo

falou sozinho para as paredes

por vezes
enterra-se aquilo que não se sangra
sangra-se o que não se chora
e chora-se o que não se diz

nesse recolhimento
adormecia sempre com uma faca por perto um pé descoberto e um relógio sem corda 

esperou por colheitas que nunca chegaram a ser
mesmo depois
pela janela
a lua encher e mingar vezes sem conta acima das nuvens

à volta os silêncios farejavam pelas madrugadas fora em busca de não se sabe bem o quê
mas a solidão nunca o convenceu de que estava sozinho

ele tinha visto as cicatrizes dos deuses
as sinas celestes expostas por um momento apenas
o mapa sideral enfim revelado num clarão

o que tudo isso significava não sabia
mas confiava nas inevitabilidades veladas da vida
e por isso
para as paredes ia falando a espaços
sozinho 

ainda desconheço o que quero de mim
certamente um dia o saberei
só espero que seja antes
de dizer o que não choro
de chorar o que não sangro
de sangrar o que terei de irremediavelmente enterrar


ps - Vale da Vilariça, Douro, setembro 2023

dia 34 - fatalista

quando nos encontrámos por acaso
ele segurava uma pasta e o rosto parecia ansioso

uma coisa poderia ter que ver com a outra
pensei

ele estava a pagar um café
e eu entrava para pagar o depósito que acabara de encher

cumprimentou-me e pediu-me para ir ter lá fora
queria ver o céu fumar um cigarro e explicar-me umas coisas

olha
ainda bem que te apanho
ali ao fundo
por detrás daquele muro com aquelas caras e cores
estás a ver

eu via enquanto me desviava do fumo

ali atrás nem te digo
eles tiraram-me o que puderam
meses a fio
mas hoje
hoje pirei-me
meti dentro desta pasta o que tinha escrito e fugi

a pasta era de couro velho
tinha umas rugas que se alastravam da pega às abas e pareciam sina de uma mão antiga
quais desfiladeiros de marte captados dos altos das sondas
emaranhados labirínticos de uma pele desidratada pelo tempo e intempéries

vou fugir sabes
tenho o que preciso aqui
eles virão atrás de mim mas eu tenho o que preciso

o muro ao longe impávido
enquanto linhas de alta tensão fatiavam pedaços de um céu desinspirado

quando nos despedimos vi-o a ir na direção errada
voltava afinal de onde viera
a pasta na mão no compasso do caminhar
e ele decidido como um fatalidade

chamei-o
e ao voltar-se vi-lhe as lágrimas a caírem pela face
abanou a cabeça num não tímido
e retomou o caminho


ps - Nacional 14, Leça do Balio, fevereiro 2026

dia 33 - órbita

sentia o vento passar

regressara a um lugar de onde tinha fugido há mil vidas

lembrava-se bem do cheiro a sal e a pedra

o que vivera entre a fuga e o retorno
era vago mas denso
como um sonho no momento em que se acorda
onde cada piscar de olhos o atira ainda mais para o esquecimento
e então a noite inteira passa num instante apenas
mas que ainda assim carrega toda uma existência

de volta
havia um excesso de tudo nessa imensidão 
e estendia-se agora a seus pés vindo do mais fundo que o fundo
a terra
feita de sangue coalhado em basalto
e de uma cor sem cor

nem céu nem mar lhe cabiam nos olhos
prolongavam-se para lá do possível
perduravam no campo da alma e do espírito 

este lugar é um bicho em si mesmo
pulsa e expande-se até descaber

ela haveria de partir outra vez
de repetir esse exílio
de esvaziar o olhar de firmamento e ondas
de insistir num escape para que faça sentido um regresso

não havia como desprender-se dessa órbita pela qual transita
de revolução em revolução
como os astros e os átomos
ditando marés e estados

ela
ora longe
ora perto
sentia o vento passar


ps - Ilha do Pico, Açores, outubro 2020

dia 32 - nómadas

nómadas ao longe
e como a luz das estrelas que nos chega
o que vemos deles vem com um atraso que não se alcança
porque a memória é líquida e escorre para o lago imenso do esquecimento

eles onde parecem estar
já não estão mais
e o céu é outro e as nuvens ganharam novas formas no éter

quem sabe se não é no escuro que o presente se alinha
talvez o universo faça finalmente sentido quando toldado pelo breu
e as distâncias se esfumem de uma só vez

os errantes chegariam ao destino
esgotando o caminho que nunca pensaram ter fim

ao longe eles permanecem
num engodo que a lembrança não acaba nunca de engendrar
movida por uma fome nascida de uma teimosia
de que cada instante se julga uma eternidade

mas tudo acaba por se desbotar
até que o que o sobra
é miragem a vibrar pelo calor de um verão antigo


ps - Lanzarote, Canárias, agosto 2015

dia 31 - o louco e o anão

a peça teria três atos e um epílogo

o cenário
seria pobre
um quarto com um postigo corrido no alto da parede do fundo
uma porta numa das laterais uma cama encostada na outra
uma cadeira a meio
do teto um fio magro a terminar numa lâmpada acessa que derrama uma luz timidamente ocre

ato primeiro
um louco deitado na cama
levanta-se
é alto e magro
veste uma bata de doente 
fala sozinho
explica-se com uma certeza que vem de um outro tempo
sabe-se louco mas contesta
diz coisas que apesar da aparente demência
aos poucos vão fazendo sentido

ato segundo
um anão revela-se como uma aparição
dirige-se ao louco
tenta ser a voz da razão
acredita que as evidências sejam suficientes para provar a loucura
os dois batalham em argumentos até o dia começar a nascer pelo postigo

ato terceiro
ambos lançam ultimatos
por momentos desconfiam que há gente a olhá-los
questionam o que está para lá da suposta parede que dá para a plateia
ambos desculpam-se
ambos começam a dar razão ao outro
ambos se calam
ambos duvidam

epílogo
entram dois enfermeiros pela porta
o anão esfuma-se
o louco é amarrado à cama e sedado
os enfermeiros saem

cai o pano
o que sobra é uma ruína


ps- Candal, Vila Nova de Gaia, março 2017

dia 30 - anónimos

o cabelo caía-lhe sobre o rosto
afastava-o a descompasso enquanto falava

não é sobre mim
na verdade não é sobre ninguém
mas as pessoas insistem e acreditam
é mais forte do que elas

eu ouvia e deixava-o expor

porque o que vale não é aquilo que se reconhece
mas antes o que é secreto e anónimo e oculto
há mais mundo para lá de cada um
nem tudo é uma manifestação do corpo ou da alma
nem tudo é reflexo

talvez tivesse razão
muitas vezes a presunção de sermos alguém tendia a impor-se
ora abertamente ora de forma velada

escrevo o que já foi ditado há muito
limito-me a encontrar o caminho
e as palavras depois revelam-se como inevitabilidades
mas elas não são minhas nem sobre mim
elas já eram antes de eu sequer pensar em ser alguma coisa

aceitava o que dizia enquanto me afastava numa lembrança
mas ainda assim esforçava-me por parecer presente
jogava nesse limbo
equilibrando-me na corda bamba que separa céu e horizonte

acho que já bebemos demais

provavelmente teria razão
por isso entre a conversa e o que eu lembrava
erguiam-se divindades num dia de chuva
e resignado alguém caminhava para elas

mas essa jornada seria périplo para toda uma vida
e nessas coisas
nem a origem nem o destino importam verdadeiramente

o percurso é o âmago
é onde os assombros acontecem a solidão sufoca ou a comunhão emerge
onde o amor e a desilusão dançam de noite haja lua ou não

quando se calou
quis eu dizer umas coisas
mas já era tarde
e o caminho de regresso era do tamanho de um silêncio

despedimo-nos e cada um foi para seu lado
talvez em busca de um deus igual ou diferente
nunca o saberemos


ps - Jardim Oriental Bacalhôa Buddha Eden, Bombarral, fevereiro 2013

dia 29 - pêndulo

quando nos desencontramos por entre as palavras
perdidos nos labirintos de todas as possibilidades
fica aquilo que parece ser uma premonição

versos a virem do futuro
nascendo no alto da leitura e bamboleando até à escrita
e no contágio desse ímpeto chegam à ponta dos dedos
subindo de seguida pela vibração interior da mão que segura a caneta
trepando pelo braço dentro até à centelha da criação que por vezes faísca nas catacumbas do pensamento

no fim dessa viagem inversa
vagueiam no caldo original de uma inspiração
até por último se fundirem com o silêncio
e tua silhueta eternizar-se na iminência de uma escolha

mas eis que o pêndulo retoma o caminho por onde veio
devorando a inércia até ao esqueleto e embalando para uma oscilação mais
onde surge uma fagulha que vozeia
um impulso que desce braço fora até reverberar pelos dedos
e os versos desaguarem nessa foz criativa para que uma leitura ecoe algures num porvir 

aquilo que parecia uma premonição
é afinal a causa de um efeito
e do desencontro das palavras no infinito de todas as possibilidades
acabam só por sobrar duas coisas

tu no perpétuo limiar de uma escolha
e
do lado de cá
num lugar irreal inundado de madrugada
um poeta confuso num emaranhado quântico-literário


ps - Theatro, Póvoa do Varzim, agosto 2018

dia 28 - embalo

carregou o velho até às traseiras da casa onde o jardim não tinha fim
estendendo-se até ao horizonte numa planície imensa para lá da qual o sol caía todos os dias

pousou-o para lá de um carvalho encarquilhado
numa clareira de relva sem as flores que à volta iam espreitando um pouco por todo o lado

lembrou-se do que aprendera
de como um enterro era também sepultar os pecados dos mortos impenitentes
cobrindo não só o corpo e o rosto apagado
mas também as culpas e os sonhos desfeitos

haveria que dizer umas palavras mais logo
e desenhar uma vénia final sobre a campa

depois sim
o tempo poderia derramar-se de novo
até apagar os nomes dos mortos no esquecimento universal

não lhe afligia essa desmemória futura
que toda a vida navegara pelo mar de outras deslembranças já ele sabia

que as marés que nos vão calhando
são o embalo ancestral da humanidade
também ele já descobrira há muito
quando notou que os ocasos se repetiam a cada dia


ps - Parque Natural da Serra de São Mamede, Portalegre, agosto 2020

dia 27 - mapeador

a luz azulada de uma televisão ligada desde sempre
banhava o canto do bar onde ele se afundava todas as noites

rabiscava mapas e olhava pela janela nos entretantos

à hora do fecho recolhia os esboços e guardava-os numa pasta velha
saía pela porta depois de vestir uma gabardine desgastada por invernos passados
atravessava a rua e desaparecia na esquina

eu ficava um pouco mais
aproveitava a tolerância do dono
bebia um último copo até as luzes se apagarem ficando somente as de presença a entediarem-se
derramando-se pela vitrine noite dentro

sendo o último era também o primeiro a entrar na madrugada deserta
e o meu caminho ia por outra rua e por outra esquina

sem rota o meu norte confundia-se na leve embriaguez
e rendia-se à corrente mareada de uma oscilação velada
perdia-me até não haver mais mundo
provavelmente escapara para lá dos tais mapas do outro
e aparecia já o dia nascera por entre as vielas

amanhã
quando o reencontrasse banhado pela luz azulada da televisão
talvez lhe dissesse com uma voz rouca
apontando aos rabiscos

olha
há mais por mapear do que isso
o domínio estende-se mais além
e há vastos recantos silenciosos por desbravar
não creio que acabes um dia esses mapas
há coisas que nunca acabam

não sei que me diria
se calhar nada disso era novo
quem sabe se já não conhecia esse meio segredo
e mapear fosse a loucura que lhe calhou no sorteio das obsessões

e provavelmente
se coisas há que nunca acabam
é porque há gente como ele
obstinadas num delírio


ps - Marselha, França, abril 2017

dia 26 - insanidade

atravessaram o tempo
qual cicatriz num corpo que hoje se recolhe em amnésia

o inferno que encarnaram dorme por debaixo de camadas mudas
recolhidos por mil outonos passados

sinto que o medo esculpiu a golpe de loucura o silêncio final

agora o vento sereno pode escapulir-se por entre as árvores
como um bicho guiado pelo mistério do instinto
mas eu estagno como presa face a uma incompreensão
perdido entre a imaginação do que teria eu feito num lugar destes
e que morte me caberia provar
a de outros
a minha
ou a de todos

nestas coisas
cronos avança sem freio
e nós teimamos em esquecer
talvez para nos desculparmos dos erros que repetimos uma e outra vez
ou somente por intuição

ninguém avança ancorado ao pretérito
ninguém recua quando lançado em queda livre pela insanidade


ps - Bunker da 1ª Guerra Mundial, Burnhaupt-le-Bas, Alsácia, França, janeiro 2021

dia 25 - ciclo poético

os assombros duram um instante
e podem escapar ao leitor
certas hesitações no desbravar do caminho

elas escondem-se por detrás da escrita
até se derramarem numa aparição

como a lembrança de uma praia sem fim e um mar a rugir pela tarde

a orla a recolher ondas que terão nascido há mil anos
e que finalmente se espraiam a nossos pés

a distância a pulsar pela luz coalhada desse dia
porque não havia ninguém para além da nossa solidão
num abandono que cedia antes de chegar ao horizonte

mas dou-me conta agora
que já estes versos se escreviam nesse lugar
e o caminho de volta fez-se agora e no eco de eventuais futuras leituras


ps - Monte Alto, Arraial do Cabo, Brasil, agosto 2023



dia 24 - urbe

na grande urbe
quem olha para cima
pode não saber que o céu é mais do que os pequenos recortes que se revelam por entre os prédios

existem fogueiras a arder lá em baixo
em becos em vielas
e esses fogos não velam quixotes sonhadores sob um firmamento inundado de estrelas
antes ocultam fugitivos ou exilados ou ambos
gente que foge de alguém ou gente que foge de outros lugares
ou até mesmo deles próprios

e a seiva noturna do betão
ergue templos até que arranhem as nuvens
nidificam em altura casulos de pequenos mundos fechados
encapsuladores de promessas e anseios

os segredos não chegam sequer a sussurrar
eles perpetuam-se em autofagia
como aquelas manhãs que nunca acabam de nascer

e assim
a cidade não se alastra só para o alto e para fora
ela germina por dentro
cede sob o seu próprio peso
até implodir
como aqueles corpos cósmicos que se engasgam e se desmoronam pelos infinitos


ps - São Paulo, maio 2018, fotografia tirada do Hotel Maksoud

dia 23 - curandeiro

o velho dizia que curava eternidades
como se o tempo fosse uma doença

por entre o que sobrava de um esquecimento
falava de uma bruma desfocada
uma quase coisa

ia desabitando-se aos poucos
como se cada profecia fosse um adiamento do futuro

mas não desistia em dizer que era preciso vasculhar
escrutinar o acaso e ter fé no destino
porque existe sempre num canto qualquer
um quadro
ou um verso
ou um capricho

ele que nuca chegara a entrar num barco
fora marinheiro a vida inteira dizia

sim
nunca entrei num barco
mas pela janela
todos os dias embarquei
todas as noites naufraguei

e no dia seguinte regressava
para curar eternidades dizia


ps- Capriccio con chiesa diroccata, casa rustica e figurine varie in riva alla laguna, 1781. De Francesco Guardi. Museu Kunsthaus Zürich, Abril 2025

dia 22 - o paradoxo

as rugas e as cicatrizes de quem não está
contarão provavelmente melhor as histórias
mas nem todos falam essa língua original
e poucos testemunharam alguma vez o milagre de um silêncio

os labirintos da alma enredam-se de tal forma
que para os decifrar
haveria que reviver tudo de novo
e ainda assim
não é certo que se consiga escutar os segredos de um mundo que nos escapa

o paradoxo revela-se
pois os barcos que balançam na corda bamba do horizonte
levam a bordo as ausências que ficaram em terra


ps - Foz do Douro, novembro 2009

dia 21 - versos por escrever

ela vinha com os olhos cheios de um incêndio que não tinha mais por onde lavrar
as labaredas do que disse alastraram pelo silêncio interrompido da noite

quando deflagrou as chamas ergueram-se até não caberem no céu
e um clarão imenso fulminou pela noite num segundo apoteótico

no fim
na areia de cinzas do que sobrou
caminhou até às ondas deixando o rastro de um caminho decidido

não voltaria

e hoje
quando as madrugadas não têm lua e a chuva cai
alguns vão esperá-la na praia
rezam para que volte
para que reacenda as almas

ficam por lá até que a chuva pare ou o dia nasça ou o cansaço vença

mas hoje
aquilo que lembro
mais do que esse lume
mais do que esse exílio inesperado
era o branco silencioso dos versos por escrever

dia 20 - vinheta poética

pelo chão o caos de rascunhos e desenhos inacabados
a refeição por terminar
e uma série de teorias da conspiração penduradas pelas paredes
numa teia de recortes e fios e realces coloridos

por entre chávenas de café sujas e espalhadas pela mesa
um gato dormia numa poça de luz vinda da janela

a um canto um tabuleiro de xadrez a um passo de xeque-mate a favor das brancas
um chapéu de pernas para o ar no sofá
um revólver e uma bala 
uma corda com um laço e uma caixa de comprimidos
um cinzeiro meio cheio e um copo meio vazio

ele sentado num banco a ler
talvez um guião
talvez um livro de orações

um som de rádio abafado a vir do vizinho
o calor da tarde a vibrar por toda a sala

haveria uma decisão a tomar em breve
mas quem sabe se seria tomada

talvez hesitasse
e uma eternidade mais tarde
alguém o veria ao longe
já velho a regressar a casa com as compras


ps - Bruxelas, Estação Central, março 2019

dia 19 - despojos de um duelo

o lugar era perdido
o tempo passara em marés antigas
e o que sobrara era um esquecimento do qual somente um eco ainda teimava

mais do que um abandono
eram penumbras que habitavam o infinito

o velho que me contava o que acontecera
falava baixo e a medo

o duelo fora final
e no dia em que aconteceu
um caiu logo
o outro caiu mais tarde

o primeiro a golpe de navalha
o segundo a golpe de remorso

depois disso
o mundo ficou vazia

não me disse mais nada
nem quem tinham sido
nem o porquê do confronto

mas por todo o lado
as sombras ora pareciam manchas de sangue
ora suspiros de arrependimento

ps - Djerba, Tunísia, julho 2017

dia 18 - o tecido do universo

pode ser que desta vez o dia não entre pela janela
e o quarto tenha atracado na madrugada
um porto deserto de memória
onde os únicos vestígios são roupas espalhadas pelo chão
e uma almofada a mais esquecida na borda da cama

nas paredes uma ténue maré de sombras a jogar à preguiça e ao adiamento
a soluçar pelos traços dos quadros silenciosos

dois corpos adormecidos
um nas profundezas de um sonho
o outro abandonado após ter velado tudo isto

existe um rumor subtil num quarto dormente
que conta os segredos que importam
que nada existe
nem dentro nem para lá dos versos

a poesia vive numa lâmina
numa tangente cósmica da existência
que ora implode ora detona
e nesse propagar
seja para dentro
seja para fora
compõe o tecido do universo


ps - Lençóis Maranhenses, agosto 2025


dia 17 - ao vasculhar

ao vasculhar todas as coisas
deu-se conta que nem o presente nem o futuro se agarram

tudo é pretérito

no exato instante em que alguma coisa se gera
ela se afunda na torrente irrefreável do tempo

assim tudo é passado
e há nisso uma melancolia extrema
como se na verdade já tudo acontecera

mas curiosamente
perante essa evidência
algo acalenta uma esperança
um instinto desvairado que luta contra o inabalável
uma teimosia que se calhar
essa sim
é o que mais se aproxima de ser presente
que implode a cada segundo e que renasce no seguinte
e assim sucessivamente
sempre derrotada
mas sempre de regresso

e ao ser nem que seja uma centelha do agora
acaba por lançar a sua própria insignificante sombra no futuro

e assim
mesmo que presente e futuro não se agarrem
eles insistem e desistem para todo sempre


ps - Ilha de Porto Santo, Madeira, julho 2022

dia 16 - confissões

contou-me que houve um tempo em que as quedas eram abismais
bastava um olhar e um vento quente de leste a correr
para que num instante ela mergulhasse numa íris ou pupila
das azuladas às esmeralda passando pelas outonais e noturnas

sim entreguei-me a certas febres e delírios
sentia dentro de mim um estremecimento selvagem

enquanto dizia estas coisas
encostava-se na última cadeira do café e já não me olhava

era mais forte do que eu mas também mais forte do que qualquer um
eu uivava a minha loucura para cima de quem encontrava
e era vê-los esses machos tão cheios deles próprios
a escapulirem-se com medo e vertigens
até eu me temia diga-se

eu ouvia em silêncio e atento
ela olhava pela janela
o vidro sardento de gotas de chuva onde a rua era refletida mil vezes

talvez bebamos mais um copo
e quem sabe
pode ser que o meu olhar cansado pálido e ébrio
seja suficiente para que a noite se incendeie uma vez mais no rosto dela
e eu encare essa tempestade de frente

também tenho os meus devaneios de coragem
nem que seja para os desmascarar

dia 15 - orquídeas

as orquídeas vão ditando ritmos
têm os seus próprios invernos

nas cadências silenciosas
a seiva hiberna numa rotina adormecida

e num instante indefinido e difuso
qual predador invisível
anunciam uma ideia de flor

há um milagre que acontece pela calada da noite
e até as manhãs se surpreendem quando a luz resvala num nó de pétalas
e obriga a uma sombra nova que não existia na véspera

às vezes
só às vezes
acontece o mesmo num rascunho de verso ou num esquiço de quadro

se calhar falam a mesma linguagem
um dialeto furtivo e clandestino
proferido nos recantos encobertos e ocultos do que existe

dia 14 - do condenado

jejuou a própria noite
como se por milagre pudesse escapar à madrugada

talvez até o tenha conseguido
vivendo um embuste tão verdadeiro
que se desfez a diferença entre a irrealidade e a noite já velha de tanto ser

o dia quando chegasse que dissesse ao que vinha
por ele já não importava fazer-se perguntas nem esperar respostas
o tempo seria um silêncio e não mais uma conversa

tudo fora dito
ou pelo menos tudo tivera a oportunidade de ser dito
para ele chegava

agora
restava o inominável
e esse infinito teria de bastar

um condenado à morte
uma vez cumprida a sentença
não devia ser obrigado a morrer uma outra vez
mas ainda assim
é sabido
morre-se num dia e morre-se depois num outro mais à frente

pouco importa

ao criar o esquecimento
os deuses sucumbiram ao próprio feitiço
pois nada é novo de facto
somente olvido


ps - detalhe de uma pintura de Franz Sedlacek, "Aparição acima das árvores (segunda versão)"
foto em Viena Abril 2022

dia 13 - somos mais um

para o meu sobrinho
Francisco

uns dias antes de chegares
a irmãe disse-nos

daqui a pouco seremos mais um

e então chegaste

temos cada um um sonho ou dois para ti
temos ideias e sentimentos e coisas
e isso tudo até se pode confundir com um plano

de mim haverá uma bola com certeza
e poesia e música e um olhar que eleve o teu para o cosmos e os infinitos
e mais tarde quem sabe um vinho ou outro e um segredo ou evidência
e o que for preciso e o que nos formos lembrando juntos pelo caminho

mas não é o mais importante
não é o fundamental

o que importa é que haja carinho e um sorriso na alma
seja nos dias mais luminosos como nos mais escuros

chegaste e somos mais um
e ao sermos mais um
somos todos de novo outra vez
graças a ti
somos todos
de novo
outra vez

dia 12 - ascensão

procurou a menor faísca possível
toda ela rodeada do mais profundo dos breus
como se a noite tivesse vindo do início dos tempos e coberto o mundo inteiro

por entre as camadas negras da madrugada
vasculhou até sangrar dos dedos
e da ferida apenas um cheiro coalhado se ergueu até ao rosto oculto

a manhã chegaria com certeza
mesmo que com o atraso de muito poema por escrever
não há silêncio que não sucumba a uma fraqueza

quando enfim o sol nasceu e o dia foi crescendo até ser azul por inteiro
ascendeu
levado por querubins invisíveis

talvez tenha pago dívidas antigas
talvez nessa procura da centelha primordial tenha encontrado o segredo dos deuses

há penitências que desconhecemos até que se revelam e ganham vida própria
e perante o palco da vida se despedem e se retiram



dia 11 - luto impossível

a carcaça de um piano
o luto impossível de melodias inacabadas nos ventos que vêm de longe
que deslizam por uma língua de mar até lamber o porão de uma alma abandonada
como um quadro atracado no deserto perdido de escamas

o rosto sem esgares nem alívios
silhueta derramada nas areias esquecidas de um tempo que se calhar nem passara

quem sabe se estas coisas são verdade
ou plágios de uma outra vida

certo é que vibra algures entre o silêncio e o que é dito
um rumor indomável e selvagem

só assim se explicam a soturnidade e outras melancolias

dia 10 - o romance por escrever

contou-me uma história

apaixonara-se por uma mulher de nome de Lara
que mais tarde descobri ser o nome de uma primeira namorada do primo
e que quando ele ouvira o nome na infância
de tal forma se encantara que talvez aí tenha imaginado a sua

paralelamente a esse amor
vivia perseguido por uma espécie de grupo organizado
uns caçadores de escrita disse-me
vestidos de fato preto e gravatas da mesma cor apertadas nos colarinhos de camisas brancas já gastas

vivia uma realidade peculiar
e ao mesmo tempo que era precisa e rica em detalhes
também era abstrata e difusa

optei por confrontá-lo
segui-lo pelos delírios a ver se a verdade se revelava por si só

disse que tivera de escapar
deixá-la para trás para fugir a essa gente
que se exilara num destino antigo de férias
onde em tempos ela e ele se amaram com a sede e a fome das paixões

foi-lhe escrevendo mas nunca recebeu resposta
até que descobriu que estava para morrer
com essa notícia decidiu enviar-lhe uma última carta e recolher-se a lembrá-la por dentro
queimar em monólogos internos os dias que lhe restavam

e eu que o segui pela narrativa
dou comigo à beira de um mar final
as mãos por doer pelo que ainda não foi escrito


dia 9 - a espera

nos arquipélagos dos sonhos
onde envelhecem palmeiras devagar
encontram-se os suspiros de sempre
e as sedes nunca saciadas do presente cansam-se sozinhas
até serem abandonadas pela nossa própria resignação

há sempre um triz de desistência antes da esperança regressar
um instante em que já nem o corpo clama por uma alma que o preencha ou o carregue
um céu órfão de voos das aves que há muito se evadiram
pedras silenciosas por debaixo das ondas
banhadas por espumas que vão e espumas que vêm
e marés indecisas que ora recuam ora avançam

no exame celeste
o olhar desliza pelo firmamento
resvalando nas subtis matizes azuladas do éter
num instante mais profundas
noutro mais leves e luminosas

enquanto o olhar desaba e naufraga
sobra sempre essa vertigem de infinito

e até aprendermos a caber num poema
os versos suspendem-se e aguardam
numa espera que arde em lume mudo

dia 8 - pertenças

escreveram uma pequena história sobre eles
falava de um quarto que era dela e da vista da janela que era dele
tornara-a dele mesmo se a vista fazia parte do alheamento de ambos

o quarto era dela portanto
o calor e o suor eram deles
e o silêncio do depois não era de ninguém
órfão e perdido errava pelas manhãs que se faziam tarde

enquanto ela se arrependia sem sequer se aperceber
ele ia à janela disfarçar o incómodo

no fim
para ambos
a perfeição desértica dos corpos derretidos um do outro
contrastava com o remorso do antes e o remorso do depois

ela afundava-se nela própria
ele esfumava-se à varanda na paisagem exterior

ambos estavam de acordo no desacordo dos seus feitios
um amor imperfeitamente completo e por isso perfeitamente escusado

cada um com o que era de cada um
um quarto uma vista
e um certo desencanto que ainda assim não era o suficiente para impedir um entretanto
esse entretanto que desunia o tal silêncio por umas horas

um entremeio de fogo pelos corpos abandonados um do outro

dia 7 - onde nem palavra nem silêncio reinam

desta vez falou mais pausadamente
não parecia o louco de outras noites
e parecia procurar com o que dizia
não apenas compreensão
mas também uma qualquer absolvição
como se cada um de nós que o ouvíamos fôssemos sacerdotes de um qualquer culto
(o que não anda longe de uma verdade)

eles levam-me de noite para caves de prédios devolutos
e obrigam-me a escrever

não sou o único nessa penitência que não sei de onde vem
outros há a meu lado que pela madrugada fora se debruçam sobre papel e silêncio

quando o sol ameaça nascer
roubam os rascunhos e despejam-nos para a manhã mais solitária de sempre

não tenho como provar o que afirmo
mas acreditem para que não morra sozinho este meu delírio

calou-se até lhe encherem o copo de novo
ninguém respondeu
mas trocámos olhares cúmplices entre os ouvintes

sabíamos que dele já não haveria mais palavras escritas para extorquir
logo à noite não valeria a pena entrar-lhe pelo quarto dentro e levá-lo
este estava vazio de esperança
sobrava-lhe um curioso sentimento de culpa
mas isso era para outro tipo de gente explorar

nós o que queremos são palavras cravadas e forjadas até darem a volta a si mesmas
ansiamos pela revelação de um absoluto
cremos no dia em que tudo acabe por ser dito e nada mais haja a dizer

almejamos por esse instante onde nem palavra nem silêncio reinam



dia 6 - pontuação

disse-o algures num pretérito velado
que a minha pontuação se rege pelo sopro dos versos
que não existem pontos nem vírgulas que não sejam ditados pelo pulmão

as perguntas ou exclamações revelam-se na fluidez do que é dito

é certo que por vezes se confundem as intenções e a rebeldia inata das palavras
mas isso é o que acontece quando arde a poesia no incêndio que é

não distingo prosa ou poema
somente fôlegos
uns cavalgam até ao desmaio
outros cravam-se num instante fulminante de libertação

a epifania do que vou dizendo
é órfã de leis e dependente de cada leitura selvagem

não sou eu que escolho estas coisas
elas vão nascendo e morrendo com cada leitor
esmorecendo até o próprio eco emudecer
sem rastro nem memória

dia 5 - náufrago

ouvira falar de magos errantes
e recordava-os agora entre silêncios e solidões tímidas 

tinham-lhe dito que se juntavam nas clareiras possíveis dos sonhos
e que por ritmos invocados ao cair da noite
e velas a debaterem-se com os últimos soluços de pavios cansados
se agarravam às chamas no limiar da luz e das sombras

até que nos derradeiros instantes
antes de um manto de breu cobrir de vez essas noites de encantamento
e enquanto os outros tapavam os olhos entre os joelhos
um deles abria os braços ao céu anunciando a tempestade final

nestas alucinações e suores noturnos
a febre vinha de um lugar sem nome
ardia pelas planícies do corpo até que o incêndio do espírito
fundia céu chão e horizonte
cegando não só a vista mas também o própria alma

quando a manhã chegava
e a cama alagada escorria pelos lençóis até ao mar da rotina 
voltava a naufragar

e
à deriva mantinha-se
até um novo delírio o afogar uma vez mais