entre elas
algumas etéreas
outras concretas
nunca se chegou a descobrir como é que ele as carregou ao longo da vida
mas o que é certo
é que no mausoléu que invadimos
todas elas lá estavam
uma lista interminável de adágios
uma coroa real
um frasco com especiarias
um pedaço de nevoeiro
uma pasta de couro com apenas noite lá dentro
um rótulo de um vinho velho
um antigo amor num poema escrito à pressa
e tantas mais coisas que não há versos suficientes para as enumerar
havia tudo isso
menos o corpo
sabíamos que desaparecera sem deixar rastro
que o funeral fora simbólico
o próprio coveiro contou-nos que no dia se sentiu enganado
aliás
os relatos sobre os últimos dias antes de sumir
eram contraditórios em muita coisa
mas numa todos concordavam
desapareceu numa cidade cujas fachadas eram falsas
e isto explicava parte do mistério
como se também ele fosse só uma aparência
fora um disfarce ao longo dos tempo
uma máscara a esconder um rosto que ninguém chegou verdadeiramente a conhecer
quando decidimos investigar
a curiosidade partiu de um detalhe
as lágrimas de uma mulher solitária
e essa tristeza partilhada levou-nos até este lugar
à sepultura que os que julgavam conhecê-lo criaram em sua memória
mas ele terá sido alguém que não sabia que perguntas fazer
e por isso ocultou a identidade
foi-se camuflando pelos anos
colecionando uma infinidade de tralha que ia levando com ele
terá sido um fingimento na esperança de sobreviver
e se calhar
um dia
apercebeu-se que esgotara o esconderijo
e assim
nessa cidade irreal
nessa urbe onde nada é o que parece ser
ele pôde desvanecer de vez
ou pelos telhados imaginários
ou pelos subterrâneos cujo labirinto não se resolve
ou pelas margens do rio boémio
ou pela silhueta de uma mulher de rua
o que se sabe é quase nada
e da lista interminável de coisas que dizem ter sido dele e que aqui recolheram
fica-se a saber ainda menos
que tipo de homem guarda um sonho num bolso de um casaco
só mesmo um homem postiço
nós assim concluímos
e assim nos desmascáramos também
