o que foi dito naquela noite
voltava a fazer-se ouvir nos momentos de solidão
um lembrete de que as palavras não esquecem
e deixam
à vista ou dissimuladas
cicatrizes do momento em que vozearam
como tatuagens sob a pele
encarceradas na derme primordial da alma
a memória da tal noite
não era palpável
os detalhes diluíam-se aos poucos pela deslembrança
mas o que fora dito e a forma como fora dito
eram tateáveis e insistiam teimosamente como aquela fenda que não sara nunca no céu da boca e que a língua procura incessantemente
no futuro
para lá do concebível
na autópsia do que fomos
as amostras de sangue coalhado na existência
os fios de cabelo perdidos num casaco ou almofada
as poeiras de saliva seca em toalhas esquecidas
tudo isso revelará esses mesmos traços
o código genético do que foi dito e que numa noite alterou o espírito
redesenhando o mapa e os caminhos de uma vida
não se escapa impune ao que se ouve ou ao que se lê
a linguagem forja o próprio pulsar do universo
molda os percursos e os fados
determina o caos no paradoxo do livre arbítrio
e na escrita
o ditado que a guia
oculta um propósito que apesar de estar sempre presente
é um segredo indecifrável ao longo do tempo
um enigma obstinado que alimenta a curiosidade inescapável de se ser humano
as palavras que foram ditas então naquela noite
regressam num timbre furtivo
soam agora como elogio fúnebre ao ouvinte anterior
como epitáfio daquele ser que era uma coisa antes e nasceu outra a seguir
pois ao serem faladas
mergulharam nas catacumbas do íntimo
e recriaram um outro mundo uma outra ordem uma outra realidade
existem sempre consequências quando se manuseiam os elementos primários
se até gestos vazios podem alterar o universo
quão poderosos são os versos que pela primeira vez se declamam
ou um primeiro beijo
ou um insulto
um desgosto
uma ausência
um reencontro
perguntas há
cujas respostas pouco importam
elas valem pela dúvida que carregam
e sobretudo
pelos ses que embrenham no infinito mais infinito ainda