uma prece cujas raízes surgem do fundo da terra para depois se ancorarem no alto das nuvens
desenhando nessa elevação uma teia labiríntica de mil entrelaçamentos por onde uma seiva ascende ao ritmo lento do cosmos
a natureza líquida do que pensamos ser uma certeza
mas que depois
num abraço oco que se esfuma revela um destino derramado num paul esquecido
a terra devastada e repleta de fantasmas indomáveis
as poeiras em rodopio com os ventos que sopram desde sempre
os rostos desconhecidos de quem esquecemos e que hoje nos olham em busca de um ninho
os poemas com palavras rasuradas a meio como que para não ferirem
esquecendo que um silêncio imposto dói para lá de um desgosto
os versos impossíveis de rimar pois a cada degrau a língua esquece-se do que disse
as sardas na pele do firmamento quando a madrugada decide durar para sempre
a ausência de um luar no reflexo do grande lago dos anseios
uma insónia amnésica de si mesma a pintar de branco a noite
as sombras a soluçar por entre os salpicos da luz intemporal
os padrões enigmáticos dos acasos que reconhecemos num assombro
e que ditam segredos que falecem no mesmo instante em que brotam
os contornos de um vulto que se escapa pela esquina do olhar
como se se escondesse de um testemunho que o fixasse no mundo
algo que o tornaria inevitável quando o que mais deseja é precisamente o contrário
e tanto mais que a lista estende-se para lá dos números
há sonhos que não acreditam em limites
recusam ideias e ignoram fronteiras
alimentam-se de infinitos e voam para lá de cronos
chega uma altura
que até as palavras se cansam e o poeta adormece
e nem todos os sonos viram poesia
