e um silêncio mais denso que o habitual
não será fácil carregar esses pesos até que o dia nasça
por um lado
o tempo que se demora e se estende
por outro
a quietude compacta e repleta de solidão
sobra a certeza do inevitável
a bem ou mal
o nevoeiro acaba sempre por se dissipar
e o dia não tem como não nascer
ele sempre se assumiu como um rebelde fatalista
acreditava num destino traçado mas recusava conceder
chegava até a pensar que só era teimoso precisamente porque a vida lhe tinha imposto um fado
se assim não fosse
provavelmente estaria sentado num canto sem chatear ninguém
mas quando descobriu que dele não dependia o futuro
fez questão de mesmo assim o renegar
tinha um feitio desses
dos que eram mudos até à primeira provocação
a partir daí era uma besta sem açaime
e quem estivesse à frente era mordido até aos ossos
indomesticável
tinha-lhe dito uma vez um velho professor
ele recebeu a deixa como um elogio
embora a boca ensanguentada do velho quando a cuspiu levava o sabor de uma crítica
os dias que passou preso por desobediência e violência
foram dos mais gratificantes
sabia que pelo menos um pequeno transtorno no determinismo tinha conseguido criar
ou assim acreditava
mas eram noites como esta que o faziam duvidar por momentos
noites em que a madrugada rumina interminavelmente
noites em que está tão só que o tal destino traçado parece estar mais perto
agarrava-se a como podia a uma certeza que tinha cultivado por dentro
de que tal como as árvores
na hora final
morreria de pé