quando um caiu perdendo a sombra por completo
e o que ficou de pé viu a própria crescer para lá da penumbra
aumentada pelo sangue que se esvaía do corpo morto alastrando-se pela terra poeirenta do meio-dia da canícula
estas coisas ficavam sempre a pairar nas conversas do café onde tudo acontecera
uns a discutirem razões e motivos
outros a luta e as técnicas
outros ainda a coragem a covardia e o azar e a sorte que os golpes ditaram
eu
na minha curiosidade de cronista
tentava engolir tudo
queria
mais do que saber
partilhar a sequência do início ao fim com o mundo
mostrar que ainda havia esquinas onde estas coisas aconteciam
mas depressa entendi que estes confrontos não têm uma origem
ou então ela é tão antiga que fala outra língua
vem de outra era e é herdada pelas gerações que se vão apinhando depois
e percebi que também não têm fim
que há filhos e netos que ficam com uma fome de vingança por saciar
ou simplesmente seres que anseiam por sangue
e mais cedo ou mais tarde
o reflexo do sol há de cintilar nas lâminas perfeitas e prontas a lancetar
o mais velho
parecia entender tudo isto melhor que ninguém
ele mesmo tinha uma cicatriz em diagonal que traçava o rosto
que descia do sobrolho passando pelos lábios e acabando no queixo
tendo pelo caminho vidrado um dos olhos para uma cegueira prematura
ainda assim
no cinto das calças
um cabo de faca mostrava-se acima de uma bainha de couro onde seguramente uma navalha descansava
bebia devagar uma bebida que esperava a dois dedos do fim de um copo
e sentado num canto disse-me algumas coisas que ainda hoje recordo
num duelo
morrem sempre dois
um morre na hora
e o outro
o que sobra
morre todos os dias que se seguem
perguntei-lhe se ele também ia morrendo todos os dias
se a marca na cara fora cravada numa dessas disputas
e qual fora a razão
eu já não morro mais
já morri vezes que chegassem
e sim
esta minha cara nasceu logo da primeira vez que me desafiaram
eu tinha quatorze anos
ele tinha cinquenta e muitos
dizia que eu lhe lembrava o amante da mulher
respondi-lhe que a mulher tinha bom gosto
e a partir daí é fácil de imaginar
um de nós morreu na hora e o outro foi morrendo depois
confrontei-o de que ele dissera que já não morria mais
que se isso era verdade
o que se passara entretanto
entretanto
perguntou enquanto matava a bebida e se levantava
o entretanto foi feito de muitas outras facadas
de provocações
de mal-entendidos
de álcool a mais
de maldade
de piedade também
e foi avançando para mim desembainhando a arma
eu disse-lhe para ter calma
que eu nem navalha tinha
isso não é problema
trago sempre duas
e do bolso traseiro retirou uma outra faca que me atirou para os pés
vamos
essa curiosidade toda merece desaguar
e eu tenho mais coisas para fazer
baixei-me a suar e peguei na navalha
um arrepio atravessou-me o corpo e a alma
e sem contar
um esboço de sorriso começou a desenhar-se-me na cara
recordo tudo isto hoje
ao passar os dedos pela textura áspera da cicatriz que tenho junto ao pescoço
e de como a meio da noite
desde esse dia
acordo sem conseguir respirar
como se emergisse dos infernos
morria como me fora dito
talvez fosse melhor procurar um último inimigo