como se
envoltas de insónia varassem o tempo pela calada
deixando do lado de lá
onde o dia começa a nascer
um sabor a desperdício e a remorso
que seca e prende o trago numa garganta desprevenida
esgotou-se um pedaço de existência sem sequer se esboçar uma intenção de a viver
um adiamento do inevitável para o demasiado tarde
um reino por conquistar ou por defender
um corpo por sentir amar ou mutilar
haverá um nome com certeza
e ele é dito mais tarde
lá para o fim da vida
numa dessas tardes de balanço onde se pesam os arrependimentos
mas o que é um se quando ao lado o mundo real pulsou de verdade
o que é um se quando tudo é somente uma questão de perspectiva
essas madrugadas que escaparam num ápice deram à costa de qualquer forma
suas carcaças empilharam-se e apodreceram como tudo o que não serve para nada
e o fedor durou algum tempo e incomodou
mas acabou por desvanecer
e nós acabámos por vibrar e deixar uma outra marca por aí
há que pensar que nem tudo foi em vão
ou terá sido
não se sabe bem
mas pouco importa
porque mesmo o que foi em vão tem o seu enlevo
mesmo o que foi em vão teve o seu grito de libertação