lembro-me de um texto antigo
daqueles que surgiam na sala virada ao mar
que falava de uma casa abandonada
de como o jardim a engolira
cobrindo a sala que dormia ao ritmo das cortinas rasgadas
e a cozinha e a mesa de caruncho e as cadeiras mancas
e os corredores e os quartos assombrados por um rumor de deserção
de como o mar a inundara de uma só vez
num maremoto imparável de solidão
submergindo-a até que a lembrança se confundiu com o esquecimento
de como o cosmos a apagou
naquele porvir tão lá à frente que não há olhar que lá chegue
desintegrada nas tempestades estelares e dilacerada no próprio cerne
o silêncio dessa casa
há muito fora proferido
nem as palavras sobreviveram
o que nos chega agora
é um resquício feito eco
eco esse que se dispersa até não ter por onde reverberar
ps - Vila Nova de Gaia, março de 2019