aos poucos
avançou pelo tempo
viajando para o futuro
no que parece uma evidência
havia contudo um segredo escondido
ele carregava um passado
uma série de comoções e tumultos que qualquer outro teria deixado para trás
ou então teria sucumbido e ficado submerso no antanho
ainda assim
a trazer mais do que o humanamente possível
engrenou no ritmo de todos nós e chega a cada momento presente inteiro e sem atraso
lá bem atrás
antes de lhe caírem em cima os desastres da existência
em que se sentia leve como a luz
fluía e voltava ao agora com um avanço quase imperceptível mas definitivo
como se soubesse das coisas antes de todos os outros as saberem
não que fosse um profeta ou que pregasse o amanhã
mas onde nós nos surpreendíamos
já ele fizera as contas do espanto
onde nós nos assustávamos
já ele se tinha recomposto do sobressalto
mas então
a dada altura
testemunhou incêndios de almas e horrores indizíveis
açambarcou traumas e desgostos pelo mundo fora
sofreu injustiças e planeou vinganças que ao cumprir só lhe pioraram os pesadelos
mas seguiu
seguiu com tudo isso sobre as costas do espírito
recusou esquecer e recusou qualquer tipo de resolução
ignorou arrependimentos ignorou vergonhas da mesma forma que ignorou recompensas e desabafos
decidiu que cada emoção tinha o seu lugar para fulminar
sem mais nem menos
e onde um outro qualquer desistiria
ele continuou
perdeu o tal avanço
mas não ganhou nenhum atraso
igualou-se ao resto de nós
e agora caminha lado a lado
no nosso exílio comum do presente para o futuro
um segundo de cada vez
um erro de cada vez e um acerto de cada vez
havemos de chegar juntos lá à frente
onde no fim do mundo
na beira do precipício
poderemos enfim livrar-nos do peso que carregamos
e quem sabe
possamos voar
ou cair
que no fundo
bem vistas as coisas sob a perspectiva cósmica devida
acabam por ser sinónimos