e a ausência ia crescendo até ocupar o possível
procurou-se então noutros sítios
menos costumeiros e mais inesperados
mas mais uma vez
o que lá estava era o sumiço
que com o tempo devorava os cantos de sombra envolvendo até os silêncios do sono
não havia nada a fazer
a falta era agora maior que tudo o resto
o vazio sorvia o próprio tempo
no lento passar dos dias
era o deserto que se fazia ouvir
um grande desapego a cobrir as coisas
e era espreitar pela janela para se ver as promessas cabisbaixas e os pássaros sem voar
ao início da manhã
quando os barcos regressavam do alto das ondas
atracavam cansados nas docas dormentes
e ao descarregar o peixe da faina
arriavam também lobos do mar com os olhos cheios de sal e a pele gretada de algas
as mulheres encobertas de lutos passados e seguramente de lutos futuros
esperavam por eles e pela pescaria
de facas na mão prontas para escamar e limpar e vingar uma ou outra traição
ao largo a ausência mantinha-se atenta
a sombra a amadurecer para lá dos arredores
isolando-se do mundo como uma teimosia
por aqui
com os restos da lota agora vazia
o chão cheio de escamas e espinhas e vísceras
e grandes baldes de água a despenharem-se sobre tudo isso
havia que regressar à busca
à tarefa da procura
a vida pedia um desfecho
um desenlace perante a desaparição
uma ausência não pode durar para sempre
