vinha de vez em quando
quando os dias chuvosos iam desaparecendo e as noites demoravam a chegar
sentava-se sempre no mesmo lugar
pedia uma daquelas bebidas clássicas servidas em copos estranhos
falava baixo
às vezes fico a olhar o meu sofá
com a cova no mesmo sítio
testemunha de um corpo que se afundou horas e horas
o indício de uma solidão preguiçosa
na outra ponta o gato dobrado ao meio num sono interminável
no ecrã a ausência das reticências cintilantes
ninguém a escrever de volta
mesmo se não havia resposta ao que eu própria não escrevi
um silêncio apático tão grande que acabo por sair
pelo menos aqui tenho resquícios de mundo para onde atirar o olhar
e em vez de um sofá uma poltrona que me obriga a uma postura distinta
ninguém a abordava
cada um vagueava pelas suas sombras
a bebida ia mingando por entre as distrações
mas o porte
esse
sustinha-se como uma afirmação indesmentível
um corpo ainda vai sendo mais do que contorno e silhueta
ele emana uma certa forma de resiliência
mesmo desfolhando-se até dar a volta à própria nudez