ao Jorge Palma
foi-se amassando em silêncio o tecido das coisas
remendando o pano que vai sustendo isto de irmos indo
porque vamos indo
e nessa imparável maré
o tempo engole o que vai aparecendo pela frente
ele lembrava-se de um sonho que tinha tido
de um quadro enorme
de tão grande que era parecia não caber nem no sonho nem no mundo
era uma montanha de humanidade
com todos os mortos e os vivos empilhados até ao cume
e nesse topo
um velho a erguer um recém nascido aos céus
era o símbolo das gerações a gerarem-se
não chegou a pintá-lo
mas essa imagem ficou-lhe
esse monumento onírico a verter imensidão
a jorrar para fora do sono e a chegar-lhe aos olhos acordados
não se contém o que debita sem freio no lento correr dos dias
como a massa de um pão a levedar na mudez de uma cozinha
ou o voo daqueles pássaros que se atrasaram na fuga aos invernos
ou o suspiro que se adiou até ao impossível e se solta enfim do corpo para nunca mais voltar
e mais do que um acorde de piano ou de guitarra
mais do que uma pose ou de uma voz rouca
mais do que a loucura da partilha
e mais até do que a liberdade
o que sobra é a poesia
pois ela tudo contempla e nada cede
vamos indo
e
enquanto houver estrada para andar
já se sabe
a gente vai
irremediavelmente
continuar


























