voltar aos gestos esquecidos
retomar a serenidade interrompida
deixar para trás as razões dos incumprimentos
era este trio de sentenças que ele anunciava
dizia que carregava dívidas cujo peso já não aguentava
e que chegara a hora de as pagar
foi enumerando-as enquanto descansava
que devia sombras a muitas paredes
esperas às horas de pesca
poemas aos silêncios que abandonou
desculpas às fraquezas da carne
uivos às noites de lua cheia
ombros aos amigos do passado
e foi listando o débito até quase não haver palavras
sabia que nem o resto da vida seria o suficiente para saldar as contas
tinha passado pela existência acumulando favores
passava promessas em branco a quem ainda acreditava
e de empréstimo em empréstimo
foi indo por entre os salpicos de um chuva de vergonha
tinha vivido acima das suas possibilidades
gastou o que não tinha
enganou todos e a ele mesmo
até aqui chegar
sem nada a não ser um pedaço de tempo ainda pela frente
nenhum de nós tinha a certeza de que a penitência se cumpriria
mas parecia sincero
pelo menos
parecia mais sincero do que o costume
havia um cansaço pousado sobre ele
no alento e na postura
talvez fosse mais um engodo
mas a verdade
é que pelo menos não tinha pedido nada de novo
amanhã logo se vê
se uma sombra regressar à parede
se a cana estiver virada ao rio
se os versos se ouvirem sobre a mudez
se o perdão couber num olhar
se a lua fremir até ser cheia
e se alguém tiver onde pousar o desgosto
então poderá ser
que eventualmente
a dívida se pague




















