curiosamente
era antes de beber que ele se punha a falar
chegava sempre já a noite ia a meio
e antes de se sentar ao balcão
dirigia-se a todos e contava histórias e episódios
depois
pedia a bebida e mais ninguém o ouvia
vi a lua e um cometa por baixo a sublinhá-la
e sei que há uma profecia por trás destas coisas
terá de haver
não sei decifrá-la mas o céu não se presta a acasos
e cá por baixo
bem que precisamos de quem nos guie
enquanto o ouvíamos
cada um ia-se perdendo nos próprios presságios
nos alentos que pareciam ganhar força a cada trago
era a noite perfeita para fazer resoluções
morder as certezas e as convicções
sentir o ânimo de uma segunda vida
de renascer e conquistar o pedaço de mundo que era nosso por direito
mais tarde
quando a madrugada se extinguia e o dia parecia espreitar
a lua e o cometa ainda lá estavam
um pouco desviados mas presentes
e cá por baixo
os bêbados do costume a entrar na inevitável ressaca
as certezas a perderem-se em esquecimento
e a segunda vida afinal
igual à primeira
ps - Côte d'Azur, França, maio 2017