e assim um início já diz muito
porque nas voltas do mundo
nos infinitos do que nos calham
na imensidão dos acasos e azares
há um lugar onde só ela cabe
sim
é certo que cada um vai vivendo incêndios ao longo do tempo
que na sorte de se estar vivo podemos fulminar em paixão
há no coração um mapa atado à cronologia
mas é o presente que bate a cadência e que sustenta o futuro
meu amor
e o dueto de palavras diz tanto
ele é entrega
rendição
e o que parece exagero só o é aos olhos de quem não vê
ou de quem se distrai ou esqueceu
porque não há alma que não saiba o que é ansiar por uns lábios
por um corpo
por uma mão a entrar nos cabelos junto ao pescoço
por uma língua
seja húmida ou com sotaque ou de cetim ou veludo
meu amor
e o que escrever depois
o que dizer que confesse esta sede de ti
este périplo até que me despenhe no teu colo
meu amor
no silêncio
sob a luz oblíqua dos solstícios ou na exatidão de um equinócio
o emaranhado dos teus caracóis a esperar-me
enrodilhando em labirintos onde já me perdi de vez
onde já me perdi para sempre
como é devido nestas coisas
a tua silhueta nas curvas dos bósforos da minha perdição
certas esquinas da tua pele que me negas a espaços por cócegas e arrepios semeados há milénios
os teus olhos a fugirem quando os meus se atardam sobre o teu rosto
a tua mão na minha perna nas manhãs em que saímos juntos de carro
pousada como se ali fosse o destino traçado e inexorável
meu amor
e é só
