ao meu tio João
nos emaranhados da vida
as almas cruzam-se e descruzam-se ao longo do tempo
cada uma com sua sombra maior ou menor
cobrindo ou sendo coberta
dialogando pelos laços de sangue quando de família se trata
impondo loucuras
oferecendo amor de formas diferentes
calando umas coisas gritando outras
dando exemplos bons e maus
desmascarando medos partilhando talentos
num desses elances que a vida me deu
fui um privilegiado
pois a alma em questão vivia entre tempestades
e eu
na infância chegava quando o mar estava calmo
e era um assombro ver aquele barco enorme ancorado
cheio de força e de invencibilidade
repleto de histórias e de certezas
um monumento de presença
intimidatório mas também ferozmente leal
uma imagem do que naquele momento eu pensava que queria ser quando fosse grande
é certo que quando partia em alto mar
no meio das tempestades
era também pequeno e sentia o mesmo medo que todos sentimos
que se perdia em teimosia que se contorcia em arrependimentos
que por momentos esquecia as palavras e remetia-se a desatinos
nestas coisas
numa altura de tristeza incontornável
é sabido
ficam vazios cheios de muito e vazios cheios de tanto
e é essa vertigem que vamos tentando tragar mas que se entala na garganta de uma saudade e de uma lembrança
vamos dizendo o que habitualmente se diz
que é a vida
que assim é
e há que seguir
e dizem-se essas coisas porque sim e ajudam e nada mudam ainda assim
o luto é um lugar solitário
um naufrágio onde à deriva
ora vamos sendo levados
ora vamos nadando
mas onde está um
vamos estando todos também
desaguando juntos
dando à costa que acaba por nos reunir de novo
os que já foram e os que cá ficam