e o verbo era definitivo
depois de ter contado todas as histórias
os ecos imparáveis do que dissera
voltavam e reverberavam como as ondas de um mar indomável
o que diziam já eram outras coisas
como se as palavras
após a viagem regressassem diferentes
o percurso transmutara-as
igual à luz que ao chegar ao destino traz o caleidoscópio de um vitral
a quietude que buscava
parecia uma impossibilidade
o próprio corpo pulsava quando se calava
ouvia o coração a bater e o sangue a bombear por dentro
nem o sono era mudo
havia os sonhos a vozearem incongruências
ou o quarto a crepitar a espaços pela escuridão da noite
o respirar a ritmar a rotina
e quando o sustinha
os tais ecos antigos voltavam a zumbir até ter que expelir o ar guardado há demasiado tempo
talvez quando morresse tudo se calasse enfim
mas nem isso era certo
havia os espíritos perdidos entre os mundos a assombrar muitas vidas
havia anjos e demónios a conspirar
havia
em último caso
o próprio corpo a decompor-se
o trabalho dos vermes e fungos a devorar as carcaças
o germinar de outras vidas em cima dos defuntos
se calhar
o silêncio não existe
e essa necessidade era uma rebeldia mais a galopar-lhe a alma
sempre soube que havia dentro dele um quê de selvagem
teimosias inquebráveis
cismas moldadas numa inquietação permanente
a palavra não a saltar-lhe do peito como um uivo
a obstinação em levantar-se sempre após cada golpe até o agressor desistir
o sorriso provocador perante as autoridades
o ódio inultrapassável perante injustiças
essas loucuras faziam parte do tecido da alma
e hoje
já perto do fim
todas elas pediam sossego
ansiavam por um exílio
não por cansaço ou por temerem desvanecer
mas porque até os devaneios desejam olhar-se ao espelho e emudecer
ele precisava de silêncio
e o verbo era definitivo
tal como o é uma última palavra
Aeroporto de Schipol, Amesterdão, Países-Baixos, junho de 2019















