a noite ia longa e há horas que ele ia enganando a distância entre os dois
não que o tivesse feito afincadamente
houve momentos que se distraiu no aborrecimento
mas não desistiu
foi-se chegando aos poucos até poder trocar um olhar primeiro e umas palavras depois
ela vivia no mistério de ser mulher
naquele limbo entre saber tudo e ao mesmo não se importar com nada
o que fazia com que passasse a imagem de afinal não saber nada
ou pelo menos de não se aperceber de nada
viu-o quando a distância foi mingando mas não deu atenção
e provavelmente despoletado pelo instinto até o negou por momentos
só que o tempo foi ganhando terreno e lá aceitou uma bebida e umas palavras
deixou-o apresentar-se e dizer coisas atrás de coisas
até que ela disse
não me fales de cachecóis quando está tanto calor lá fora
fala-me de sal num corpo meio bronzeado
dessa pele a saciar-se de sol e de mar
e obviamente que ele se calou
aquelas frases atiraram-no para dentro num rodopio imaginário
onde ela mergulhava nas ondas para depois se deitar numa praia sem fim
quando voltou a ele ela já saíra
na mesa a bebida que lhe ofereceu quase vazia e uma conta por pagar
recompôs-se
da interação tinha com que se entreter no mundo dos ses
pelo menos o tédio não venceria essa noite
talvez o remorso e um pouco de vergonha
mas com isso podia ele bem
tinha a alma calejada para isso e para os efeitos no corpo havia escapes que conhecia
pediu mais uma bebida e guardou a mulher num canto da lembrança para lidar mais tarde
havia que desviar a atenção para outra mesa
afinal não faltavam mulheres sozinhas por aí
e quem sabe se uma delas não partilharia um pouco de solidão hoje à noite
se não também não havia problema
a que saiu há pouco valeu a pena
mesmo que quase de certeza não tivesse perdido um segundo a pensar mais nele
o que valia era que como ele havia muitos
um mar deles espalhados pelo mundo
mais cedo ou mais tarde
ela teria de o encarar outra vez