algumas gotas de água semeadas
talvez de chuva ou de orvalho matinal agora a desvanecer sob a luz do dia
o que é certo
é que sobre elas
o céu refletido numa distorção convexa que o encapsula
repete-se mil e uma vezes nessas miniaturas aguadas
como se o mundo e as nuvens se afundassem numa só onda limpa e cristalina
ao abrir a janela
uma corrente de ar sacode-as e algumas resvalam até se precipitarem para fora do alcance do olhar
o choque dos ares da manhã com o do quarto abafado da noite
emaranha até as próprias sombras que dançam sobre os lençóis
amanhece enfim também por dentro
desfaz uma noite que cresceu até onde pôde
o corpo dela sobre a cama
desenha a perfeição do que será uma lembrança imaculada
ele sabe-o e por isso saboreia o momento
sente também o próprio corpo a erguer-se
a estalar os restos do sono e da preguiça pelos braços e costas
há um café por fazer e essa sede de despertar por saciar
o tempo que espere
não tem de passar já
há uma paciência que se impõe
uma forma de espera por vestir que cubra tudo isto
depois sim
que aconteçam as coisas que têm de acontecer
não falta espaço para o que sobra dos planos divinos se concretizarem
mas por agora
neste instante maleável de encanto
é a vez dele dela e da manhã se revelarem
a pausa e o silêncio
à deriva
no balançar suave de um acerto
como se
por um segundo mais alongado
a alma se apercebesse enfim
que a vida faz sentido
seja ele qual for
