pairávamos acima
como
por vezes
nos lagos estagnados dos jardins das grandes casas abandonadas
boiam alguns nenúfares quase belos
era isso
tínhamos um quê de beleza mas também de decadência
porque para chegar à madrugada
tínhamos passado por um dia inteiro de excessos
o auge tinha passado algures a meio da tarde
qual cometa evanescente
quando os corpos possuídos pela gula ainda tinham espaço para engolir loucura
agora
com o olhar cansado de ter ardido
antevíamos a ressaca a trepar pela alma
ainda assim
antes dela nos inundar de vez
planávamos pela brisa leve de uma embriaguez cansada
haveria tempo para renascer mais tarde
como uma fénix tímida e envergonhada que aos poucos voltava a aprender a voar
neste nosso percurso até aqui
íamos ouvindo os restos dos ecos das promessas da véspera
da expectativa do que seria um dia de descomedimento
e essas vozes reverberavam incompreensíveis
como se falassem não só uma outra língua mas também como se dissessem respeito a outras gentes que não nós
no fundo neste nosso naufrágio
vamos sendo forasteiros num mundo do qual nos expatriámos a dada altura a golpe de um salto enlouquecido
e que agora
levados pelo que foi um desvario momentâneo
a gravidade inexoravelmente nos trazia de volta
não só caímos de regresso
como somos
inescapavelmente
a própria queda
no entanto
ao sê-la
moldamo-nos num afago que se desenha em câmara lenta
como se uma qualquer mão divina
abrandasse essa defenestração e nos recolhesse em seu regaço
provavelmente
tudo isto
ainda é um espasmo ébrio do incêndio inicial
resquícios alucinados do que foi acontecendo
amanhã logo se verá