o cabelo caía-lhe sobre o rosto
afastava-o a descompasso enquanto falava
não é sobre mim
na verdade não é sobre ninguém
mas as pessoas insistem e acreditam
é mais forte do que elas
eu ouvia e deixava-o expor
porque o que vale não é aquilo que se reconhece
mas antes o que é secreto e anónimo e oculto
há mais mundo para lá de cada um
nem tudo é uma manifestação do corpo ou da alma
nem tudo é reflexo
talvez tivesse razão
muitas vezes a presunção de sermos alguém tendia a impor-se
ora abertamente ora de forma velada
escrevo o que já foi ditado há muito
limito-me a encontrar o caminho
e as palavras depois revelam-se como inevitabilidades
mas elas não são minhas nem sobre mim
elas já eram antes de eu sequer pensar em ser alguma coisa
aceitava o que dizia enquanto me afastava numa lembrança
mas ainda assim esforçava-me por parecer presente
jogava nesse limbo
equilibrando-me na corda bamba que separa céu e horizonte
acho que já bebemos demais
provavelmente teria razão
por isso entre a conversa e o que eu lembrava
erguiam-se divindades num dia de chuva
e resignado alguém caminhava para elas
mas essa jornada seria périplo para toda uma vida
e nessas coisas
nem a origem nem o destino importam verdadeiramente
o percurso é o âmago
é onde os assombros acontecem a solidão sufoca ou a comunhão emerge
onde o amor e a desilusão dançam de noite haja lua ou não
quando se calou
quis eu dizer umas coisas
mas já era tarde
e o caminho de regresso era do tamanho de um silêncio
despedimo-nos e cada um foi para seu lado
talvez em busca de um deus igual ou diferente
nunca o saberemos
ps - Jardim Oriental Bacalhôa Buddha Eden, Bombarral, fevereiro 2013