onde não há nada
ondula um vazio impossível de preencher
às vezes
quando ninguém está a olhar
estico o braço e com a mão transcendo para lá numa tentativa de alcançar esse destino irreal
tateio cego essa trama de tecido abstrato
há uma demora entre o que por lá me resvala pelos dedos e o que regressa a ditar esse sentir
essa delonga
na verdade
não se consegue medir com exatidão pois o seu início é um embuste que a revelação não desmente
há um nó que se dá na raia entre os dois mundos
e ao redor
qual pêndulo
a alma vai sendo levada em redemoinho
numa oura que ora se intensifica ora esmorece quase até à mudez
ao recolher o braço
a mão volta com um vazio diferente daquele com que para lá foi
as próprias sinas nos traçados das palmas parecem ter mais rugas e desfiladeiros
neles a vida narra passado e futuro
e o que aí é agora dito
é já diferente do que antes sugerira
algo mudou os fados iniciais
esse vislumbre entre as duas dimensões
essa porta entreaberta por breves instantes acaba por alterar ao de leve o âmago das coisas
reordenando a génese original e reescrevendo um outro possível porvir
mesmo se
muito provavelmente
nem a anterior nem esta nova profecia mapeada sobre a pele
viriam a concretizar-se
nunca nada do que é previsto acontece
somente a sua própria ilusão
nesse limbo
ocorre uma osmose existencial que batalha por um equilíbrio utópico
é que apesar desse contacto esporádico entre as duas realidades
e a vizinhança que partilham e na qual se sustentam em simbiose
há uma fome feroz e canibal que vai ladrando e latindo entre as duas
um ódio e um amor a esbracejarem em fogo cujas labaredas se avistam desde o outro lado do cosmos
aqui ou no outro lado disto
e apesar da dança mútua que se desenrola e que aniquila os elementos que calham de se tocar
a vertigem
num ciclo perpétuo de sobrevivência
vai alentando as almas
levando-as em frente
seja lá levá-las em frente o que for
não há razão maior do que um porque sim
