o mundo de cada uma isolado
e elas solitárias a olhar os horizontes que se afastavam cada vez mais
havia um espaço a crescer entre as almas
e era preciso falar cada vez mais alto para que se ouvissem
com o tempo a passar
as palavras iam sendo berradas
e o vozear perdia o sentido
cada um prostado nas falésias
as gargantas esgotadas e o que chegava incompreensível
o afastamento agigantou-se até cada um ser uma ilha perdida
a sensação é de que era o universo que estava à deriva
enquanto que cada ilhéu estava ancorado num eixo inamovível
o destino seria um isolamento final
condenando os seres a vadiarem nas extremidades dos próprios abismos
isto era o que o quadro revelava
uma obra enorme a cobrir uma parede que parecia não ter fim
o artista falava com umas pessoas a um canto
e de frente para a pintura
um casal discutia detalhes e técnicas
eu entrara por acaso
talvez levado por uma daquelas brisas que nos empurram pela vida fora
a tela falava-me então desse distanciamento entre os espíritos
expunha o grande mar a apartar tudo e todos
mas também ia murmurando os cansaços de cada homem e mulher isolados nos seus rochedos
de como cada um deles se esgotava em desespero e ao mesmo tempo em esperança
a contradição aliás
ia ganhando força à medida que o meu olhar se pousava
apesar do desterro
a possibilidade de uma comunhão afinal resistia
as marés tinham os seus desígnios
quem sabe se um deles não seria levar todos a dar a uma mesma costa
para isso
bastava que se fizessem ao mar
que se lançassem com fervor para as ondas
que naufragassem para lá deles mesmos
a meio deste devaneio uma mão tocou-me no ombro
era o artista a apresentar-se
a perguntar se eu gostava
eu a dizer que não sabia
e ele a dizer
perfeito
e afastou-se
ou o espaço entre nos é que expandiu
fiquei eu a não saber
e enquanto não sabia alargavam-se mais as distâncias
de mim para o quadro do quadro para os outros e do instante para tudo o resto
a expansão prosseguiu até o olhar se perder de vez
e à volta de mim o mar a bramir um apelo inevitável