um pedaço de tempo
falou sozinho para as paredes
por vezes
enterra-se aquilo que não se sangra
sangra-se o que não se chora
e chora-se o que não se diz
nesse recolhimento
adormecia sempre com uma faca por perto um pé descoberto e um relógio sem corda
esperou por colheitas que nunca chegaram a ser
mesmo depois
pela janela
a lua encher e mingar vezes sem conta acima das nuvens
à volta os silêncios farejavam pelas madrugadas fora em busca de não se sabe bem o quê
mas a solidão nunca o convenceu de que estava sozinho
ele tinha visto as cicatrizes dos deuses
as sinas celestes expostas por um momento apenas
o mapa sideral enfim revelado num clarão
o que tudo isso significava não sabia
mas confiava nas inevitabilidades veladas da vida
e por isso
para as paredes ia falando a espaços
sozinho
ainda desconheço o que quero de mim
certamente um dia o saberei
só espero que seja antes
de dizer o que não choro
de chorar o que não sangro
de sangrar o que terei de irremediavelmente enterrar


