deu por ele a sondar vestígios de uma vida que desconhecia
encontrou um espólio interminável de coisas
umas concretas outras indistintas e de contornos múltiplos
havia ali uma herança antiga
uma história de amor provavelmente
e de desamor em absoluto
dava para notar no cuidado com que tudo fora guardado
mas não era só um desgosto nem um fulminar de paixão
havia saudades e dores e afagos
havia memórias a gotejar e muitas sombras de várias almas à espera
havia um murmúrio subtil a reverberar à volta
encontrou palavras escritas
outras que ficaram por dizer
páginas inundadas onde nem um palimpsesto mais cabia
outras tão vazias que o próprio silêncio ia nu
e as cartas que um dia foram sinal de proximidade
hoje eram o reflexo da distância incomensurável do que acabou por nunca acontecer
como os segredos que mudam as formas das nuvens somente por existirem e conspirarem pelo éter
ele sabia que se não olhasse para trás
o futuro não encontraria o caminho oculto para acontecer
deixou-se ficar por ali
nesse museu de um pretérito hipotético a tecer um porvir improvável
descobriu que era possível sobreviver numa existência inverosímil
que o impossível era uma forma de eternidade
que se estendia sem fim até eventualmente realizar-se
no fundo
nesse limbo entre a realidade e o sonho
tinha tempo de sobra para esperar
e esperar é um verbo que não acaba
o legado que encontrara e agora visitava
fruto de um acaso diga-se
far-lhe-ia companhia neste lugar sem nome
e embora esses bens não fossem dele
ambos órfãos e desacompanhados
poderiam em conjunto tecer uma nova linhagem arqueológica das suas vidas
e entrelaçando a solidão dos dois
ir resistindo
sobrevivendo ao lento correr dos dias