depois da luta o ar esgotado pelo clamor de uma turba que já dispersou
como se o céu ainda estivesse a recuperar o fôlego
o cheiro do sangue sob a areia deserta
a coalhar até ser parte do solo
húmus de uma loucura que ardeu para lá das próprias cinzas
o corpo do derrotado irreconhecível
levado para as catacumbas para ser esquecido
o espírito do vencedor indistinguível
perdido por entre louvores que não deseja nem contempla
num duelo morrem sempre dois
já o disse antes
um de vez
e o outro de vez em quando sempre que o combate retoma na lembrança destroçada
o tempo passa por cima de tudo
e volta a passar vezes sem conta até cobrir a memória de um pó que não se varre
semeando ecos voláteis que num último suspiro ainda reverberam pelo éter
sobram os mitos nas conversas dos velhos
quando um deles bebe demais e acrescenta mais um golpe à luta passada
até que no fim o combate parece ter durado vários dias
na verdade
o confronto não termina nunca
nem mesmo com um cadáver há muito metido numa vala
nem com o sobrevivente já caquético e demente
há sempre lugar para um gladiador mais
sempre uma lâmina à espera de uma garganta ou veia inadvertida
e há sempre o medo
sempre
é ele que conspira e que treme na febre da antecipação
é ele que vive na fronteira ténue entre o colapso e a explosão
é o medo que tudo despe e revela
e é ele
que para o bem e para o mal
diz a verdade