onde os ritmos têm vida própria e escapam ao silêncio
por aqui
uma formiga atravessa a página e quase segue o horizonte do verso
até que eu a leve à janela e a exile de vez do meu mundo
talvez vá por lá
por essas avenidas que não acabam nunca
onde o trânsito parece uma teimosia ensimesmada
eu espreito de vez em quando
seja pela varanda
seja em saídas esporádicas para ter a certeza que o mundo ainda existe
no meu recolhimento por vezes duvida-se
habituamo-nos de tal forma aos ecos abafados lá de fora
que eles se esfumam em surdez até o corpo pedir um ruído qualquer que reverbere por dentro
o jogo do alienamento não se fica por uma forma de se ser solitário
ele abre portas por onde correntes de um outro ar vão e vêm sem aviso
trazem para além de um ocasional arrepio
murmúrios que se assemelham a rezas e sons de uma língua estranha
por vezes
esses dois mundos fundem-se
misturam-se na fronteira que vou sendo
esse limite entre a cidade lá fora e o mundo que surge do meu isolamento
e esse limbo sou eu
desmascarado
enredado num caderno a chegar ao fim e onde não vai caber o que resta do infinito