quando o lugar já não te esperava
ainda assim projetaste a sombra no corredor silencioso
ao fundo a porta do elevador órfã
os quartos fechados a fazerem guarda de honra ao teu percurso sonâmbulo
tudo isto foi visto nas câmaras de segurança
na manhã seguinte pelas autoridades
quando a tua silhueta desapareceu de repente
um suspiro de susto e depois de desconfiança abalou o pequeno escritório
ninguém desvanece do nada
provavelmente a transmissão falhou
uma interferência qualquer
não sabiam eles
que sempre foste um fantasma
que eras feita de éter e composta de ideia
que a tua substância se rege por outras leis que não as nossas
voltaste a aparecer muito tempo depois
já eu não estava por cá nem mais ninguém te procurava
vieste a meio da noite e o mundo tinha esquecido
sobrava uma subtil solidão à qual juntaste a tua
e dessa soma uma mudez cobriu tudo
nestas coisas de aparições e desaparecimentos
nunca se sabe bem o que sobrevive
talvez uns versos e um esboço de lenda
há sempre alguém que fica com os restos
que se alimenta de resíduos e vive para lá dos mil anos
que deambula pelas esquinas dos mitos