percorreu um longo caminho sem entender o que lhe iam contando
não que falassem outro idioma
mas o que lhe diziam ganhava formas incompreensíveis
as palavras eram as que conhecia
mas o emparelhamento não fazia sentido
como se as regras fossem outras e o significado inacessível
pensou que talvez o estivessem a pôr à prova
comunicando em código
testando-lhe o génio e a perspicácia
ou que o tentavam enganar
procurando levá-lo ao desgaste e a uma eventual súplica
mas ele lá aguentou
entrou até nesse suposto jogo
respondia com frases inventadas e com tiradas sem nexo
acabaram por ignorá-lo
e a dada altura calaram-se e deixaram-no continuar
quando deu com ele mesmo inundado de solidão
manteve o rumo
inventou pequenas cismas como companhia
na hora de dormir punha-se a imaginar um futuro onde falava ao mundo sobre a sua arte
de como procurava inspiração no silêncio e na textura de certos objetos
de dia ansiava pelo correr do tempo até poder desaguar num ócio qualquer que o deixasse criar
porque era precisamente a centelha da criação que buscava
a gota que faz transbordar o copo cheio ou a corrente de ar que de repente bate com a porta
eram coisas assim que sondava e que ia anotando por dentro para mais tarde transmutar
até chegar aqui
viveu o que pôde e carregou o peso de ser ele mesmo
agora
perante a campa
vem de vez em quando um ou outro prestar homenagem
há quem diga umas palavras
há quem deixe umas flores
há quem só fique a olhar
os que o viram partir há anos
sabiam então que só no fim o voltariam a ver
que o intervalo entre o escape e o regresso estava destinado só a ele
e essa gente que o conheceu antes de tudo isto
desde cedo entendeu que ele era dos que estava talhado a só voltar para um epílogo
curiosamente
numa das últimas tardes de outono
aproximou-se um estranho e deixou sobre a laje uma sombra
e assim adensando o mistério de quem seria o que lá de cima espiava