tão vazio que é um lugar sem lugar algum
lida com a textura das ausências e das promessas quebradas
alimenta-se de expectativas que tendo sido criadas na origem acabam por se perder num labirinto qualquer
e para além de se perderem no percurso desempossam-se também de vocação e de razão de ser
acabam por se esfumar algures e só um eco subtil chega então a este deserto de deserto
nem o desalento aqui desagua
é um paradoxo o que se estende no descampado que se apresenta
por um lado é feito de infinito
por outro não há espaço para caber o que quer que seja
fica a imagem
ou a ideia de uma imagem
como quando se fala de amor
ele é o que é mais aquilo que projeta numa alma desprevenida
e quantas vezes não nos regemos por aquilo que projeta em vez de nos regermos por aquilo que é
as paixões cujos incêndios vemos lavrar para lá da lenha inicial
os sonhos que carregamos já fora de prazo
as pequenas manias que vamos cismando até serem diagnosticadas
este ermo sem coordenadas
vai habitando para lá dele mesmo
existe numa realidade onde nasce e dispara pela existência sem chegar quase a aflorá-la
como os neutrinos que atravessam o cosmos e nos fulminam a cada segundo sem sequer nos darmos conta
as próprias palavras por lá reverberam de outra forma
os versos não se sustentam e a poesia confunde-se e entrelaça-se até desexistir num nó tão cego que o que vê é o que nunca aconteceu
e depois
no fim
fica o rumor do silêncio que não fala nem diz mas que se eleva com outro verbo
alude
que é um meio caminho andado entre o nada e o muito pouco
enquanto que o outro meio caminho por andar fica mudo tão mudo que o universo desnasce
