foi rugindo lá fora
do lado de dentro
um sono interrompido a olhar a janela
era uma vista do alto a sobrevoar a cidade
disse
há muito para sentir num quarto de hotel longe de casa
um conforto descartável e momentâneo
um perfume de anonimato que paira nos corredores desertos
o reconhecer de uma efémera cumplicidade quando um outro hóspede passa por nós
momentos de inspiração que julgávamos esquecidos
bebeu dum copo de água que aguardava à cabeceira
mesmo a meio da noite
quando o silêncio é profundo
sente-se uma impunidade própria
é com certeza uma ilusão
mas por breves momentos
quase damos por nós a imaginar cometer um crime que nunca seria resolvido
ou escrever finalmente o romance adiado há décadas
o sono regressou
o vento que tinha de passar passou
e a cidade esperou que a manhã chegasse