é que o deixava cada vez mais para trás
como se na distância o que se afastava era a origem e não o destino
indo ele para longe
era o longe que se escapava e que ia mingando num afunilamento perpétuo
um dia
depois de tanto mirrar sob o fundo do tempo
o longe passaria a ser um pequeno ponto quase imperceptível
nesse exílio cuja lonjura se distendia
a memória também se derramava pelas bordas do esquecimento
e aos poucos
ia ficando órfão de um passado e quase sem prova de que facto existia
restava-lhe uma sombra e um eco a dizer-lhe de onde vinha
mas até esses dizeres se tornavam mais difíceis de entender
e chegavam a assustar quando os sons não faziam sentido
como se falassem outra coisa que uma língua
pela frente
o desterro era agora tudo o que podia conhecer
sem mapa e sem norte
a rota
era na verdade
um ir à deriva
e ele
sem sequer a lembrança de ter nascido
lá ia indo
qual náufrago à espera de dar à costa
talvez o resgatassem no último instante
talvez um outro lugar o adotasse
se assim fosse
o ciclo poderia repetir-se
e quando ele voltasse a evadir-se
e a distância e o longe o deserdassem uma vez mais nessa fuga inescapável
o poema
enfim
lograria calar-se
