visitei o lugar onde irei morrer
sem o saber é certo
mas pude sentar-me e olhar o longe enquanto a noite não chegava
talvez se tivesse estado mais atento
saberia que seria ali que ela chegaria de vez
deus o diabo e um fantasma
provavelmente estavam por lá
cada um a remoer uma ideia ou apenas a deixar o horizonte ditar o limite
o que sei agora
e este saber é feito de neblina
é que o caminho se desvenda aos soluços
o passo que vem a seguir ao anterior avança sem se preocupar com o desconhecido
há um alento que nos empurra para a frente
mesmo nas horas mais negras ou mais gastas
por muito que por vezes pareça que acabou
um vento frio ou um silêncio ou um sorriso acabam por nos carregar um pouco mais além
mas também no desencanto de uma rotina ou no esquecimento de que estamos vivos
acontecem pequenos milagres imperceptíveis
como se no tecido do universo
metido dentro dos mecanismos cosmológicos
uma engrenagem nos propelisse malgré nous como se diz em francês
se calhar
afinal
contamos pouco nisto tudo
ou o que contamos não conta tudo nem de perto nem de longe
há tanto e tão pouco no que nos cabe avistar
que nem sempre colhemos o que os outros perderam
nem encontramos o que nem sabíamos estar à procura
não há idade para saber da morte
há quem aprenda muito cedo e há quem nem a reconheça quando chega no fim
há quem prometa viver para sempre e há quem minta ao nunca falecer
mas não se fala da morte sem que a vida fale por cima
como luz e sombra onde existem coisas
sim
onde existem coisas
porque se não existirem coisas
ou a luz alumia sem sombra
ou a sombra tudo cobre onde a luz não alcança
no fundo
a morte e a vida
só se falam onde houver um poeta com palavras para lhes dar
mesmo se o que dizem com elas nos transcende
sem as palavras
morte e vida
deixariam até de passar
Fotografia da Maitê