as raízes vinham de cima
desde as nuvens e fincadas no azul profundo do firmamento
quem sabe se até não viriam do escuro do cosmos
lá de longe onde as estrelas nascem
forjadas no caldeirão sideral do universo
os ramos em direção ao solo mas ainda longe
como se chegar ao chão fosse um sonho
um intento que jamais seria alcançado
era assim que ele descrevia o assombro de ver uma árvore brotar desde cima
era um exercício de imaginação
mas realizava-o com uma ferocidade tal
que por momentos
os que à volta o ouviam
acreditavam ser verdade
ou pelo menos
possível
que por si só já era um pequeno milagre
continuou com devaneios vários
cada um mais surreal que o outro
manejando as palavras com uma sinceridade lacerante
ninguém ficava indiferente
e era ver os céticos habituais começarem a duvidar de si próprios
eu permanecia imune aos detalhes
mas a retórica fascinava-me
havia como que uma voz por dentro da voz desse homem
um ente qualquer a ditar aquelas coisas através do louco que se apresentava
era essa voz que eu seguia
não o que dizia
mas como o dizia
como parecia tecer realidade a cada frase
acrescentando ao que existe um remendo de impossível
e assim tornando as absurdidades no mínimo plausíveis
escapava-me como acontecia essa execução
mas sentia no corpo e na alma o poder vibrante da criação
e mesmo sabendo que era tudo mentira
que era tudo um ilogismo
havia um eco a dizer que isso pouco importava
que o que realmente conta é o pulsar de um crer
no fundo
à nossa frente
perante os dislates que se iam amontoando
ia despontando o contorno de uma fé sem nome
até hoje
ainda recordo o estremecimento subtil daquelas palavras
de como vibravam para lá delas mesmas e do que contavam
e assim desenharem os contornos do absurdo numa tela quase verosímil
nunca vi uma árvore a crescer vinda do céu
mas por momentos
enquanto o doido a descrevia
ela brotou inversamente e despenhou-se-me pela emoção






















