um pássaro pousado no ombro
e falava de sereias e marés e correntes
de pilhagens de abordagens no meio de tiros de canhão
os olhos cheio de rum
sim
dizia-se pirata
que dera a volta ao mundo várias vezes
por várias rotas
umas por querer outras sem crer
que em vários portos se apaixonara
teria com certeza uma dezena ou duas de filhos
não lhes sabia os nomes
tinha naufragado vezes sem conta
dado à costa meio morto meio vivo
passara fome e sede e enchera a alma de uma gula da qual desconhecia a origem
era órfão
desde sempre
até mesmo antes de nascer
o pai morrera no dia após ter conhecido a mãe
e a mãe morrera horas antes do parto à força por velhinhas com um pedaço de sabedoria e uma mão cheia de indiferença
mas tinha família
outros mareantes e loucos e poetas e assassinos
com eles comungara e traíra e partilhara e roubara
venceu duelos com coragem e covardia
com honra e com vergonha e batota
perdera fortunas para depois encontrar outras por entre saias e blusas
bebera vinho avinagrado e néctares divinos
rira até deslocar o maxilar e chorara até as lágrimas se confundirem com tempestades
singrara não só os mares mas também pelos sonhos secretos dos homens
testemunhara vulcões a emergir do fundo dos oceanos e a cuspir um fogo de uma cor que ignorava
e a petrificarem-se em pedra negra ainda quente com o bafo dos infernos a suar no meio das ondas
atracara em docas dúbias
onde até os bandidos eram enganados e as mulheres andavam com uma faca numa mão e uma pedra na outra
entrara em tabernas onde o silêncio dera a volta a si mesmo e a morte murmurava nos cantos ensombrados onde seres sem rosto pareciam dormir
e noutras onde a música e o deboche e o álcool fornicavam entre eles numa suruba sem fim
vira o sol nascer e pôr-se apenas ao fim de meio ano
e atravessou uma noite cuja madrugada engolira o outro meio
foi assim que se apresentou
um pássaro pousado no ombro
de pé junto à minha mesa onde eu lutava com uma cerveja já cansada
não soube o que lhe dizer
esperei por uma pergunta
em vão
ali ficamos
um pirata e um bêbado
e nem um nem outro com a certeza absoluta de existir
pouco importava
eu pedira outra bebida
e ele contara mais histórias
descobrimos no fim
que nem as palavras acabam
nem a sede se sacia
