a última vez tinha sido há meses
perguntava-se se a loucura não tinha acabado
se aquela gente vestida de gravata e fato pretos havia desistido
quando o levavam e o obrigavam a escrever madrugada fora
olhavam-no com uma mistura de autoridade raiva e pena
nunca soubera o porquê
mas desde a primeira vez que sabia não ter opção senão ir com eles
os textos com que ficavam no final da noite desapareciam pela porta numa pasta de couro velha
enquanto o despejavam para a rua que amanhecia
nunca o levavam para a mesma casa
mas todas elas pareciam abandonadas e tinham uma cave
era aí que o sentavam de frente para uma mesa com papel e caneta
sempre suspeitou que em quartos vizinhos havia outros como ele
raptados durante o dia e obrigados a escrever
por vezes ouvia uns tumultos
coisa de pouca dura mas ainda assim perturbadores
no entanto
nos últimos tempos ninguém o abordara
as noites passava-as em casa e pusera de lado as palavras
dedicava-se agora a seguir os padrões das sombras que atravessavam o quarto
esperava que um carro passasse lá fora e a poalha luminosa dos faróis rasgasse a penumbra das paredes
contava as intermitências da luz de um lampião cansado do outro lado da rua
no fundo
apercebia-se que o sono lhe fora roubado naqueles exílios de caves da escrita
e começava a sentir uma saudade desses seres estranhos
seria se calhar uma ansiedade disfarçada
passava horas à janela
sondando esquinas e cada passante a ver se eram eles
arrepiava-se quando o som de passos subiam as escadas do prédio
e só se recompunha quando confirmava que era apenas um vizinho a voltar a casa
pensou que talvez eles tivessem encontrado o que procuravam
se calhar
na amálgama dos textos recolhidos
enfim se revelava o propósito
ou ainda
mais tremendo seria
que todos os textos possíveis finalmente estivessem escritos
tendo enfim a poesia dado a volta ao infinito e num último suspiro se tivesse esgotado
e
então
porventura
nessa plenitude
tivessem chegado à conclusão
de que o mundo já não precisava de poetas