curvou pelo corpo dela antes de lhe chegar
veio com parte do contorno e com um resto leve do olhar
o que ele via
era ela em contraluz
um meio perfil de penumbra a cobrir o espetro luminoso que radiava pela tarde
havia por trás dessa claridade
ou à frente
diga-se
antes da vereda percorrida
uma janela e todo um mar nesse enquadramento
e que reluzia também mil sóis fúlgidos no pico de mil ondas finamente dobradas
isto pelo menos
pensava ele que houvesse
porque na verdade
nunca se sabe muito bem o que poderá estar
onde supomos que as coisas estejam
há um permanente jogo de fé na vida que se leva
um sem-fim de suspeita conjetura crença e outros entendimentos
porque nunca ninguém sabe tudo
e do que se sabe nunca é certo que seja válido
a luz chegou-lhe então
brindada de sombra e do olhar dela
embebendo-lhe a fronte num afago morno
e os olhos
cegados por momentos
iam discernindo a silhueta revelada
tinha ganho esse gosto em olhar estátuas com o sol por detrás das mesmas
como se nesse ato de olhar
fosse ele mesmo também esculpindo
moldando os mármores ou os bronzes a golpes de vista e a lances de entrega
estas cismas não sabia de onde vinham
mas é sempre assim nos devaneios
surgem sem anúncio e sem pais nem origem
se calhar
quem sabe
existem já nos instantes onde estão
e basta que calhe de por lá passarmos para que fulminem
será isso porventura
sermos o veículo do inevitável
o instrumento de tudo o que é fatal
cabe-nos ir por aí
e por ali
e por acolá
até esgotarmos o destino
para que faísquem todas as possibilidades de beleza
para que não se perca o vislumbre do efémero que perdura para sempre
a luz acabou por cair
e o jogo era agora de breus
de ocultações e silêncios
a madrugada abriu-se para lá dela mesma
o fim consumia-se
quedava mudo
pronto a renascer quando a manhã regressasse
