atravessou a noite sem acender a luz
como se tivesse esquecido que ela existia
passou por uma sede sem saber sequer que podia matá-la a qualquer momento
porque até o pudor tem critérios
ele não pulula ao acaso nem se dá a caprichos
o corpo escondia o que ia reverberando em silêncio
fosse por baixo dos lençóis fosse nos largos minutos sob o chuveiro até a pele encarquilhar
o mundo lá fora ia rebentando numa tempestade
ir espreitá-lo à janela era perigoso
havia que ir rente ao chão e erguer o olhar com cuidado junto ao vidro
a casa abanava por inteiro e os relâmpagos pareciam fulminar cada vez mais perto
até que passou
e a rua e os passeios voltaram ao sítio
talvez uma ou outra árvore estivesse mais inclinada mas de resto tudo igual a antes
não restavam testemunhas do que acontecera
ele metido em casa e um temporal que se calhar nem fora verdadeiro
não havia como verificar
havia que sair para perguntar
saber se a vida continuava igual
se as pessoas ainda se juntavam e se enviavam aos céus sinais de que estavam vivas
havia que sondar o que restava de madrugada para ter a certeza que o sol voltaria a nascer
essas ponderações arrastavam-se numa inércia que o prendia
ora quieto na sala à espera que alguma coisa acontecesse
ora nervoso a calçar-se e a descalçar-se na intenção de ir lá fora
há anos que não deixava a casa
ou assim parecia
enraizara-se numa agorafobia inesperada
talvez até mentirosa
se calhar era só uma preguiça antiga ou um aborrecimento
não sabia dizer
os livros que tinha não o explicavam
lera-os e relera-os até saber de cor os finais
as roupas velhas já não lhe serviam como dantes ou era ele que não servia
vestira-as e despira-as até não fazerem sentido fosse no corpo ou arrumadas no armário
a rotina que no início se inspirara numa devoção à disciplina era agora oca e inconsequente
em breve havia que decidir
a questão estava não no verbo mas no que lhe precede
decidir o quê
e na vida
há quês dos quais não se escapa
