e era já tarde demais quando confundia a bebida dela com um cigarro
e o desprezo dela com insinuação
e a mesa com a almofada desejada
mas ainda assim
sabia que amanhã lá estariam de novo
prontos a representar os seus papeis
ela falaria dela e ouviria pouco
ele ouviria metade e beberia muito
ainda se lembrava de como tudo começara
de como ela é que o tinha procurado
ele que já povoava as mesas solitárias do bar há anos
tinha-se sentado sem aviso uma noite
e começado a falar
eu sei que não me conhece
mas preciso de uma bebida e de desabafar
ele de facto não a conhecia
mas não se importara em ter companhia
e bebida não faltaria
assim foram repetindo o cenário
uma noite por semana no início
três ou quatro ao fim de alguns meses
uma ou outra vez tinham acabado na cama juntos
mas na maioria das vezes cada um regressava à própria solidão
nos momentos em que partilhavam a mesa
pelo menos procuravam que as solidões se anulassem
às vezes sim
cancelavam-se uma à outra e tinham onde pousar o olhar e um outro corpo para seduzir
às vezes dobravam
e quer eles quer o silêncio naufragavam no álcool e numa melancolia partilhada
o que é certo
é que eu
na minha mesa ainda mais isolada
ao espiá-los para lá de mim
tragava uma inveja cuja sede era impossível de matar
e não era por falta de tentativas