ele revela somente o abalo e o estremecer da alma
do que calha chegar-nos
é sempre um eco do que realmente vozeou
a poesia explica estas coisas
ela dita por leituras silenciosas
os labirintos irresolúveis dos milagres
e nós
perante o desnorte
finalmente encontramos pé nessa contradição
provavelmente pertencemos aos caos
e só no deslumbramento é que achamos paz
nos intervalos
vamos indo
tateando pelo escuro dos dias
ora crendo
ora descrendo
empurramos o corpo pelos nevoeiros incertos
provamos os sabores distintos do que a vida nos semeia
há momentos em que desabam sob o peso deles mesmos
como se o tempo coagulasse num impasse até verter pelas frinchas do universo
e aos poucos
essa torrente adiada
encontra o escape num verso certeiro ou num suspiro que parece não acabar
por vezes
quando os astros se alinham
ou os deuses se distraem
cabe-nos testemunhar o destino a cumprir-se
como se os elementos enfim soubessem falar o mesmo idioma que os nossos espíritos perdidos
mas essa raridade
é tão escassa
que não é improvável que seja tecida a linha de esquecimento
e que por isso
aos nossos olhos
algumas passem despercebidas
pois eles desconhecem-nas e não as conseguem reter
e as que por acaso nos assombram sem aviso
nos abalam tão profundamente
parecem não caber na sofreguidão dos nossos corpos
ou então
tudo isto é um exagero
e de tão absortos que vamos sendo
tudo não passe de um desfasamento entre o que nos inunda e o que conseguimos agarrar
houve um tempo
nos inícios
quando os sonhos ainda eram verosímeis
em que se caminhava de mãos dadas com os impossíveis
talvez seja hora de aceitar de novo os infinitos
e mesmo que não saibamos o que lá anda por trás
ao menos sabemos que temos alma suficiente para que o abalo se propale

























