dia 260 - atuação

ele movia-se com precisão
como que coreografado

ia falando
colocando a voz nos timbres certos e com os ritmos adequados

que tinha peso a mais dizia 
não no corpo
mas por dentro

sabia-o
sentia-o a cada passo a cada conversa a cada momento de solidão

era ator de teatro
amador
não sabia bem porquê
mas há anos entrara na trupe e não mais saíra

nunca quis papéis de destaque
gostava de papéis menores
e em muitas peças preferia até ser um quase figurante

concentrava a emoção nas poucas falas que tinha
fazia-o bem

não se dava socialmente com nenhum dos companheiros
não ia aos jantares nem aos copos
limitava-se em aparecer aos ensaios às estreias e nos restantes dias de exibição

tinha boa memória
decorava os textos com facilidade
quer os dele quer os de mais um ou dois personagens

da literatura sempre recusara os romances e a poesia
gostava de ler teatro
de diálogos e monólogos

as descrições dos cenários pouco lhe importavam
eram os duelos linguísticos que o cativavam
as afirmações as perguntas as hesitações

quando atuava estava sempre ligeiramente ébrio
aliviava-lhe o tal peso e soltava-lhe o corpo e a língua

houve dias em que exagerou
mas conseguiu disfarçar

hoje começavam os ensaios de uma nova peça

o louco e o anão

um texto sobre loucura e alucinações e a condição humana
tudo palavras do encenador
pessoa que ele respeitava mas com quem raramente concordava

ele conhecia a obra
era uma irrealidade

tinha sido uma ideia que ele tivera em adolescente
escrevera um ou dois atos mas nunca a terminara
não era possível que hoje alguém a apresentasse

era o mesmo que uma pessoa dizer que sonhou o sonho de uma outra
ou que dormiu com um amante que não existe
ou que viajou no tempo e decidiu voltar

tudo isto era ridículo
ou no mínimo mentira

o louco não tinha as falas todas nem o anão as aparições pensadas
a quarta parede nem fora quebrada
e já o prédio todo ruía ainda antes de edificado

não sabia o que esperar mais logo em palco
nem sequer se se revoltaria
se sentiria traição
ou orgulho

levantou-se
vestiu o casaco e saiu
ao mesmo tempo que caía o pano e irrompiam aplausos


Passagem do Meteorito (frase de William Blake, representação de Ecke Bonk), Viena, Áustria, abril de 2022

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