dia 250 - crononauta

ele adiantou-se tanto no tempo
que acabou por não chegar ao futuro

a contradição não é fácil de explicar
mas há um caminho pelo qual se pode ir com a esperança de o fazer

no fundo
após se cansar da rotina
ele foi imaginando o dia seguinte em antecedência

ao aperfeiçoar essa arte
chegou a ter dois ou três dias já vividos por dentro de avanço
como se as vésperas acabassem por se tornar amanhãs antes de lá chegarem

mas deu-se conta
que esse adiantamento acabava
na verdade
por ancorá-lo no pretérito

essa revelação veio de um pequeno corte que fez no dedo
nada de mais
mas quando a pele se abriu e deixou o vermelho do sangue passar
instintivamente levou-o à boca

ao sentir o leve sabor adocicado do qual já nem se lembrava
apercebeu-se que a ferida estancara

a cicatriz era ténue e tinha os dias contados
seria apagada rapidamente com certeza

mas no presumir dos dias antes deles acontecerem
o lanho não sarava
e o sangue ao não coalhar ia deixando um rastro escarlate aqui e ali

foi então que se lembrou das palavras de um velho com quem se cruzara por acaso

quem maneja o tempo
acaba por se eternizar
e as coisas que acabam por acontecer
são as que não eram suposto acontecerem

pensou que talvez só tivesse de esperar
que escoando os dois ou três dias de avanço que colhera e guardara
as coisas voltariam ao normal

mas nestas contas a soma não fala a mesma língua
a álgebra que dita estas coisas tem outros conceitos a regê-la

estava num impasse
e enquanto lá estava ia sangrando gota a gota pelo corte que parecia inofensivo

era pelo dedo que parecia esvair-se de si próprio
como se tivesse a pagar uma dívida 
e no saldo dessa troca entre tempo e vida
não era certo que o que tinha era suficiente para a quitar

quem o conhecia não sabia do caso
achavam-no um pouco mais pálido do que o habitual
mas não chegaram a perguntar o que se passava

ele ia sobrevivendo
chagando sempre antes da hora ao que quer que fosse
pensando que dessa forma pudesse viver no porvir e antecipar os acontecimentos

mas na verdade
chegando aos lugares onde ainda ninguém chegara
acabava por ser um ente do pretérito
como os monumentos das civilizações perdidas que revelam por baixo da selva
ou as gravuras no fundo das cavernas pré-históricas finalmente iluminadas
ou os fósseis dos seres do antanho esgravatados enfim à luz do dia

e o golpe insignificante no dedo
ia sangrando uma lágrima de cada vez
até que ele se perdeu no caudal de cronos
à deriva numa órbita temporal indefinida

resgataram-no mil anos depois
encapsulado e mumificado
como uma antiguidade rara
um despojo de um tempo que afinal nem chegara a passar


Telamão, Vale dos Templos, Agrigento, Sicília, agosto de 2016

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