havia um que até hoje me revisita em lembrança
apresentava-se como poeta e vestia-se de preto
não tinha a certeza de onde vinha
mas mencionava uma adolescência a evitar vícios
também não sabia para onde iria
mas acalentava a esperança de poder ter alta
a memória não era o seu forte
e para ilustrá-lo contava muitas vezes a mesma história
que quando abria os cadernos antigos onde escrevera poemas no passado
as letras pareciam agora enevoar-se
a tinta perdia cor e os contornos das palavras resistiam a custo
era a voz a calar-se
a quase não acreditar no que dizia
os versos a serem um princípio de mentira
nada dura para sempre
era o que ele dizia
e completava
nem sequer aquilo que no instante em que nasceu carregava a promessa de eternidade
não
nem isso dura para sempre
havia um desalento na voz quando enveredava por esses desabafos
mas logo alegrava-se quando mostrava novas páginas em branco por desbravar
e uma espécie de esperança renovada cintilava num canto do olhar
era este carrossel de emoções que eu ia anotando
a alternância de uma melancolia silenciosa com um entusiasmo sôfrego
muitas vezes
nas nossas conversas
ele tentava explicar que se apoiava na intuição
que sentia num âmago qualquer
um anseio em tomar certas decisões
que sabia ser louco mas que discordava do diagnóstico e sobretudo do internamento
eu evitava entrar em argumentações
limitava-me em apontar
dava por mim até a rabiscar uns esquissos nas bordas e a fazer contas ao acerto das doses dos medicamentos
estas eram as coisas que eu recordava ao fim de tanto tempo
e isso acontecia
porque ao reabrir os registos das consultas
também as minhas frases se esvaneciam
letra a letra dissipavam-se e apenas um leve resquício de coloração alongava-se até às margens
horizontes empilhavam-se uns nos outros num subtil borrão
a leitura soluçava até se engasgar
a quietude pairava agora no meu consultório vazio
como se não existissem mais loucos no mundo para acolher
sobrava eu
o que não era pouco
onde está um estão todos diz-se por aí
e então
eu
por entre a mudez e a solidão
fui-me fazendo de louco
contando de como a memória não era o meu forte
e de como o que havia escrito se tornara ilegível
de que nada durava para sempre
Gravura de C. Gonçalves, 50/50, Foz do Douro, setembro 2026
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