dia 120

o sono chega como um segredo
e o que ninguém ouve ninguém repete
apenas fica o corpo mergulhado num lençol
entregue às correntes nocturnas dos sonhos até naufragar na manhã

dia 119

o caos que é impossível recordar e esquecer
em surdina revolve o chão da alma e ara-o perfeito
e a tua sombra desenhada em traços leves de fim de tarde dança nessa minha planície interior

ter-te tão perto em dois mundos
na sede do corpo
e no desmaio do espírito

talvez te escreva hoje

dia 118

o quadro empoeirado retratava um mar de tempestade à volta de um homem abraçado a um pedaço de madeira
ondas gigantes desabavam e todo o céu estremecia

pergunto-me se o náufrago afinal não seria marinheiro
e o frágil pedaço de madeira uma jangada
e todo ele uma armada domando o oceano e os ventos

porque o meu medo não tem de ser o dele
mas talvez os nossos sonhos sejam os mesmos


dia 117

o velho sentou-se mas recusou-se a contar a história

que a memória é um engodo

disse ele

uma armadilha que se revela crua e nua
o plágio da nossa própria alma
como se fosse possível enganar o tempo
não
não entro nesse jogo de sombras

limitou-se a abanar a cabeça durante toda a tarde
e a cada pergunta que lhe fazia
encolhia os ombros e fechava os olhos
nunca se chegou a saber o que aconteceu na véspera

dia 116

o céu tinha o silêncio como abrigo
e no vasto braço do mar
uma cicatriz subia desaparecendo pela manga de uma ilha

a maior das solidões é mesmo isso
uma ilha deserta sob a quietude celeste
e não há nada mais belo

dia 115

o que não tatuei no corpo
tatuei na lembrança

mas a memória é líquida e sujeita a marés e nevoeiros e espelhos embaciados após o banho
não há como escapar à decadência do que se deseja

os melhores sonhos são aqueles dos quais não nos lembramos

dia 114

Perguntei-lhe sobre o processo criativo e estas foram as palavras que disse:

não posso escrever sobre o medo enquanto o medo se revela

impõe-se um certo decoro durante o bolero das vertigens
e há que ter pudor quando alguém aterrorizado ainda não sabe bem que o está

por isso
antes de cada palavra e de cada verso
fecho os olhos

nunca leio o que escrevo


dia 113

imagino que na hipótese de abrir uma garrafa sozinho
a única postura solidária a ter é bebê-la até ao fim

não há misericórdia para com os ausentes
não sobram despojos para que as lamúrias possam medrar

onde não sobra nada
não há nojo nem poeira
apenas a beleza de um gesto humanitário
e um bêbado claro

dia 112

escapou o verso no último instante
desaparecendo como a água sugada pelo ralo
ou os sardões pelas frinchas dos muros em ruínas

e ficaram apenas a mão estendida e o olhar impotente mergulhado nesses abismos

dia 111

o berço balança
e quer a criança quer o velho
dormem o sono profundo

o resto da casa está vazia
apenas o breve tilintar dos vidros ressoam quando passa um carro na rua

dentro dos louceiros
os desfiles de sempre dos serviços nunca usados
copos pratos sopeiras

atentos a isso estão os quadros de natureza morta pendurados sobre as paredes cujo papel tem padrões florais e sépia

e eu
qual intruso
escrevo
porque nesta rotina diária
encontrei a porta aberta
tivesse ela fechada e o poema seria outro

dia 110

a lâmina do silêncio corta
as folhas do outono no chão da floresta
e a geada quando o sol nasce

e os golpes são labirintos dos quais só se escapa
quando regressa a primavera
ou as noites frias do inverno

dia 109

as fogueiras navegaram a noite deixando um rasto de fagulhas
e rituais antigos onde versos eram declamados até a voz quebrar
perderam-se nos entretantos

em vez de ser no céu
é no fundo dos sonhos que vejo cometas farejar o universo
como que há procura de um derradeiro incêndio ou de uma outra trajectória

dia 108

haiku

parecia um excesso de lua
no reflexo do teu chá
mas era apenas a lâmpada da cozinha

dia 107

pequenos grãos de areia
cansados de serem deserto
passaram a ser praia
mas outros ainda preferiram ser poeira
e de noite
pela porta da frente
enquanto alguém dorme lá em cima
entram e passeiam pela sala
dançando entre quadros e retratos e livros
até sucumbirem no chão ou numa estante

dia 106

a primeira ideia era cavalgares pelas linhas da mão e saberes de ti
a segunda tinha que ver com as garrafas vazias que tens bebido e coleccionado num arranjo ao pé da televisão
a terceira já não te recordas

e o que fica?
uma outra coisa
algo que desvendas sem te aperceberes
um segredo por contar
um medo por sentir
um arrepio por revelar

dia 105

hoje não
hoje é só

dia 104

as ondas regressam
mas sempre diferentes
e as línguas de água que desenham na areia revelam os segredos que alquimistas durante eternidades buscaram desvendar
mas uma e outra vez perderam-se nesse labirinto de espumas efémeras
 

dia 103

passou para o outro lado da velhice
onde as rugas se tornam o braille do tacto
e a vista tão curta que enxerga o passado

dia 102

- O que senti? - perguntou enquanto falava sozinha encostada ao bar.
- Imagina - continuou - que estás num escafandro, bem no fundo do mar, onde a luz chega em esforço e reina o maior dos silêncios. - parou para terminar o copo de um whisky barato.
- Já imaginaste? Muito bem. Agora, abre a janelinha do escafandro... foi isso que senti.

dia 101

encontrei num acaso um poema que fala de um vento que morde
que faz com que marinheiros abandonem navios e se joguem às ondas
e que no meio delas olhem o céu onde estrelas se escondem umas atrás das outras
em eclipses sucessivos até a própria noite se extinguir

dia 100

a inércia do silêncio semeia inúmeros livros sem palavras
e as histórias que não contam descrevem mundos iguais ao nosso
onde quando alguém grita que há perigo
berrando num bramido que faz estremecer os quadros das paredes
logo há os que fogem levando consigo tudo o que podem
como os há que tudo largam e se lançam irredutíveis na direcção do apelo

dia 99

passo os olhos nuns poemas que não são meus
folheio e despenho o olhar pelos vários versos
e ficam ecos
para sempre

dia 98

há um verso do Cohen que diz

you'd been to the station to meet every train

e com uma janela e um café à frente
imagino essa demência
como se os trilhos suassem de tanta espera

dia 97

o fóssil desenhava uma forma indescritível
como se o tempo tivesse coalhado e apenas uma ideia sedimentara

a memória não tinha cor
e o cheiro a sal cobria lua

a tribo inteira rezava à volta da estranha peça
e os cânticos entoavam pelas paredes do universo

dia 96

poderia atirar orquídeas pela janela
escrever sobre o Pacífico e de como as ondas de lá são menos salgadas que as de cá
poderia saltear legumes e deixá-los suar até ser o momento certo para terminar com um nó de manteiga
poderia abrir um tinto e decantá-lo ao som de um concerto de cravo enquanto pela sala o cheiro das velas e do incenso pairam no ar

mas tudo isso seria petulante
e não tenho orquídeas nem mergulhei no Pacífico
tenho os legumes mas a manteiga acabou
há vinho e velas e incenso mas o som do cravo, todos sabem, não combina com um tinto

dia 95

ao certo ninguém sabe
quanto tempo dedicou à arte esquecida de errar
mas a mestria com que o fazia
levava a crer que fora muito

era preciso na ideia de imprecisão e exacto no conceito do defeito
esquecia os amanhãs lendo coisas antigas
vestia largas camisas às cores

diziam que era louco
que quando amanhecia era o primeiro a sair à rua tropeçando no próprio sono
e que mal o primeiro raio de sol se propagava sobre a estrada
invariavelmente tentava colhê-lo com as mãos para logo descobrir que se lhe escapava em sombra

dia 94 - um quadro imaginado

um quadro imaginado

uma cadeira partida onde o velho se senta olhando nuvens indecifráveis
a sabedoria que o inunda cresce a cada trago de bagaço
e assim vai cosendo sesta atrás de sesta até o retalho fazer-se noite e ser hora de dormir

o absurdo de uma nódoa na camisa tão velha quanto ele
o copo já vazio tombado sobre o chão do alpendre onde uma última gota escorre para o chão
é uma tarde quente e de dentro da casa chega a voz rouca de um rádio

dia 93

houve céu e voos de gaivotas
e houve o teu próprio adiamento
até chegares aqui

agora deparas-te com a incerteza do verso por escrever

dia 92

plagiou a própria vida
fazendo de conta que era ele mesmo
falando no mesmo tom de voz e dormindo na cama de sempre
repetiu as rotinas até serem ecos
sonhou os mesmos sonhos até serem mitos