dia 248 - o permeio

as portas abriram-se
silvou uma corrente de ar até os espaços se igualarem
o de fora e o de dentro

há sempre diferenças nos segredos que pairam em cada lugar
e quando se encontram há que esperar que eles se digladiem durante uns momentos

quando por fim os dois sopros se equilibraram
moldaram enigmas e teceram um éter de novos silêncios

ambos sabiam no que acreditar
só desconheciam se essas crenças se alinhavam ou se falavam a mesma língua

reconheciam que mais cedo ou mais tarde
antes durante ou depois de discordâncias
haveria de haver um acordo formulado na evidência de que tudo isto é efémero
e que para além disso
tudo acaba por empatar no final de todas as contas

a luz que entrou e a sombra que saiu
cruzaram-se num permeio onde por um instante se anularam

um momento sem luz nem breu
difícil de conceber mas que se cristalizou entre ambos
e apesar de quase ter passado despercebido na hora
foi ganhando com o tempo forma e contornos
surgindo cada vez mais definido no tecido da memória

e no fim
após um infinito ter escoado
esse instante voltou com o uivo de uma obsessão

e de um ínfimo desarranjo inicial
quase imperceptível e irrisório
passou a engolir o mar inteiro do passado e a crescer sedento sobre a praia do futuro

eles
que tinham aberto as portas de par em par
que tinham casado os dois espaços onde se moviam
viam-se agora atracados a esse ponto preciso de decisão

como se a memória de tudo o resto tivesse mingado até se esquecer de si mesma
e
em seu lugar
o tal sítio sem luz nem breu ganhara a dimensão de um absoluto

ponderaram fechar de novo as portas
de amputar o espaço e dividi-lo uma vez mais em dois
de regressar ao antes do início
como se fosse possível voltar a nascer

mas o ímpeto com que se lançava pelo tempo a nova morada das coisas
impossibilitava qualquer retorno

o que haviam criado era agora inexorável

não se brinca às divindades sem pagar o preço de uma eternidade


Casa dos avós e agora dos pais, Rua do Farol, Foz do Douro, abril de 2016

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