dia 256 - salto

vinha com afirmações
algumas carregadas de certezas outras vazias e frágeis mas ainda assim proferidas

dizia que nunca tinha ida a um funeral
que com certeza iria ao dele e que isso bastava

dizia também que quando havia nevoeiro
ficava a vê-lo esvair-se até não restar mais nada que não fosse a paisagem limpa e definitiva

dizia estas coisas enquanto vasculhava nos bolsos
passando as mãos de um para o outro
o das calças o do casaco e até o da camisa junto ao coração
num exercício de procura intensa

o que procurava não se sabia
nem nós e
pelos vistos nem ele

e regressava ao dizer de coisas
a enunciar que a lembrança mais antiga que tinha tatuada na alma
era a de acordar e ver a luz fatiada por uma persiana a inundar as paredes do quarto
e esse cenário era embalado pelos sons de tachos numa cozinha no andar de baixo

teria uns três ou quatro anos e estava sozinho nesse acordar
talvez aí se tivesse apercebido que nunca mais estaria sozinho daquela forma
que a vida lhe traria companhia
fosse de gente ou de fantasmas ou dele mesmo numa multiplicação de si mesmo
mas que era certo
nesse primeiro acordar estava só pela primeira e última vez

e que esse tipo de memórias eram
hoje
passadas décadas
as que falavam a língua primordial da existência
as que se seguiram já vozeavam noutro idioma e iam mudando ao sabor das cismas

tudo muda à volta do que nunca muda
o corpo cresce no início
os medos vão-se instalando ao longo do tempo
o amor arde por vários rostos e suores
as ambições deitam-se para acordar depois em sonhos descrentes
mas o rumor do instinto não abandona o barco mesmo quando já só é uma tábua à deriva

talvez fosse isso que sondasse pelos bolsos aparentemente vazios
talvez quisesse colher a intuição com as mãos para poder vê-la de perto
chegá-la aos olhos e confirmar que era real
porque só podia ser real
não podia não ser
não concebia que os deuses ou o cosmos ou o que quer que fosse
pudesse brincar com estas coisas

não se fulmina o sopro de uma alma para depois dizer que afinal era a brincar
que é tudo uma quimera

não
e esse não dito assim
com os dentes a morder a língua
era outra prova de que o que sentia era real

enfim
nestas coisas
nestas certezas
há sempre um pedaço de dúvida também
e faz parte
é o que a separa de um fanatismo
há um limite para lá do qual já nada interessa porque deixa de ser partilha e passa a doutrina

ele não era doutrinário
ele era livre
queria arder com as certezas que tinha mas sempre ladeado de uma hesitação
por muito pequena que fosse ela era fundamental

era isso
lançar-se num salto que tanto podia ser queda como voo

o que na verdade era uma redundância

todo o salto é ambos


Obra de Francis Bacon, Three Figures in a Room (1964), Centre Pompidou, Paris, França, dezembro de 2024

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