dia 254 - dos céus

o céu chegou-lhe
como chegam os acasos inesperados
com a luz a propagar-se com um cansaço antigo
revelando texturas e rugas ocultas

disseminou-se sobre um início de ocaso
num diálogo inaudível de sombras e penumbras
cujos sussurros se escapam num trote de assombro

o mapa sideral coincide com o instante exato e igualado
do nascimento e morte da luminescência
é sabido que o luzir não tem tempo para existir nem deixar de existir
ele transcende qualquer intermitência ou intervalo

cronos só passa por quem observa
não prevalece no fulminar das revelações
nem sequer tem nome nesses lugares onde tudo é
ao mesmo tempo
efémero e eterno

procurou
por entre o milagre do firmamento
um vestígio de simetria

faltava um reflexo para que a vertigem do deslumbre pudesse irradiar-se para lá dela mesma

o pasmo ansiava pelo respirar de uma trajetória possível
havia um galope enjaulado pronto a irromper
e o mundo parecia não ser suficiente

então
perante o impasse
acabou por invocar os segredos e os poderes dissimulados dos deuses já desaparecidos
duplicou o mundo como um molde dele mesmo
depois
colheu a nova metade criada
inverteu-a num rodopio de loucura e colou os dois céus no equilíbrio delicado de um horizonte

esperou

ao erguer os olhos de novo
vislumbrou um impossível

deixou-se ficar

deambulou pelo palco dos silêncios
insistiu na nova paisagem que perdera os sentidos e a própria gravidade
flutuou com a mancha colorida do poente
aguardou até que o rumo das coisas torneasse como as galáxias lá longe no cosmos
e por fim
nessa espiral de poalha iluminada
deixou-se levar
indo à deriva pelo jogo de espelhos
sem princípio nem fim que não fosse a rendição incondicional


Fotografia de um céu, replicada duas vezes, uma delas invertida, Vila Nova de Gaia, setembro 2026

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