dia 253 - remendos

chegou uma altura
que era imperioso salvar o que fosse possível salvar de um dos cadernos

não havia mais tempo onde guardar certos remendos
as folhas soltas das costuras cansadas
pó que roeu margens
o cheiro a mofo vindo de um esquecimento

e assim
elegeu uns quantos

outros não tiveram essa sorte
iriam perder-se
fosse por serem ilegíveis
fosse por azar
fosse por uma recusa do poeta de hoje
fosse pela morte do poeta de ontem

havia outras razões também
uma espécie de vergonha e de pudor
ou uma vontade de fogo porque sim
porque há versos que já ardem por si
que nasceram de um fogo invariavelmente fugaz

o que não se sabe
é se os que aqui chegaram foram os que se salvaram ou os que se perderam

ei-los apesar de tudo
ditos por alguém cuja voz ecoa agora por leituras alheias
depois é imaginá-los aniquilados

I
as velas
espalhadas pelo chão da sala
como embarcações a sair de um porto que as desterrou
iam deslizando à deriva para longe do olhar que ficara atracado no sofá

a meio da madrugada
quando os pavios se tinham abafado e pareciam já longe em alto mar
ele imaginava que cada uma fora vítima do seu próprio motim até ao naufrágio inevitável
e nesse breu definitivo
o mar tornara-se uma vasta planície de campas de sonhos queimados

II
recordou aquele que uns quantos quiseram calar
e assim
não só o remeteram ao silêncio
como se sujeitaram eles próprios à ausência de ouvir
escapando-lhes dessa forma o quão terrível é uma censura
seja ela qual for

III
havia que esperar
porque é disso que se trata
de aliviar o peso do corpo de uma perna para a outra
numa alternância de paciência até o verbo se consumir

a vista turva-se nessa demora
e quando parece chegar alguém
esfregamos os olhos
mas quem apareceu
afinal
foi um outro alguém

a realidade tem essa mania feroz em ser o que é
mesmo quando por dentro a tentamos forjar com o fogo de um desejo
ela teima em arrefecer cá fora na definição de contornos indesmentíveis

IV
talvez seja tarde
quem sabe se já não enviuvámos de nós mesmos
prostrados sob um luto do que nunca chegámos a ser

talvez seja cedo
quem sabe se não celebrámos o nosso próprio nascimento
a dançar sobre os sonhos do que um dia poderemos vir a ser

V
pedi-lhe que guardasse as ideias
que as voltasse a meter para dentro
que arrumasse a mesa
que havia sede e que isso era mais urgente

por ter demorado
não sei se por não ter entendido ou por não concordar
eu decidi por ele

varri a mesa com o braço e pousei a garrafa

as ideias voaram borda fora caindo ao chão com estrondo

sentei
servi-me
e bebi até a sede ser um esquecimento


Textos, Vila Nova de Gaia, fevereiro de 2018

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