ele chegou a dizer
que a dada altura
decidira deixar de sonhar
tomara essa decisão com a resolução frágil de um pensamento selvagem
nem ele nem ninguém acreditou que seria possível
mas dizem-se palavras muitas vezes sem as pesar
só quando se esbardalham no chão da evidência é que o ruído abala o mundo
ele sabia bem que grande parte do que dizia só era verdade até deixar de o ser
que o entretanto valia precariamente
sustinha-se a prazo e era irremediavelmente efémero
haverá um museu para essas coisas também
algures
pensou
numa galeria perdida no meio do nada que é o lugar a que tudo isso pertence
essas promessas quebradas
os anseios fugazes dos entusiasmos que fulminam nas noites ébrias
os desejos instantâneos que o corpo destila sem aviso
tudo por lá abandonado a decair
alguns desses despojos
já tão velhos
são meros contornos de poeira
desfazem-se ao mínimo toque
são estátuas de um sal calcinado pela solidão
outros
mais recentes
ainda tentam resistir na forma e vontade
mas os vestígios de um cansaço fatal desprendem já os primeiros suspiros
seria inevitável que se um testamento existisse desse espólio
ele seria um deserto imenso
pôs-se a imaginar o que seria ver os herdeiros a recolher mãos cheias de nada
uma herança silenciosa e vazia a desaguar num início de loucura
porque é sempre aí que se acaba
no desvario
na obsessão do que não se cumpriu
o espírito não descansa
ele lambe as feridas e sente as dores
sobretudo as dos membros amputados
como se ainda lá estivessem para doerem
a diferença subtil entre um arrependimento e um remorso sopra nesses meandros
ambos a remoerem a erosão inexorável da paz interior
até ao dia em que o mar do desassossego se levanta e se despenha de uma vez
há sempre um naufrágio à espreita nas catacumbas da alma
e sempre um náufrago ou dois por aí
sozinhos perdidos e confusos
sem saber sequer que esperam pela derradeira vaga que os leve de vez
faltava-lhe descobrir se era um deles
ou se era dos outros
dos que calham de ficar a olhar
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