ao pousar as mãos sobre as pernas
encostou-se no sofá e decidiu ouvir
até então
interrompera mil vezes a tentativa de explicação
que ela
mil vezes começara a dar
mas como esperado nestas coisas
o desencontro perdurou
porque ela
agora sem quem a interrompesse
não sabia o que dizer
o impasse entre eles vinha disso mesmo
de um desacerto das almas
cada uma a vibrar em larguras de onda diferentes
o único momento em que pareciam sintonizar-se
era quando partilhavam o fogo dos corpos
mas essas febres duravam somente o tempo de um exorcismo
para lá dele e após recuperarem o fôlego
cada um afastava-se para a incompreensão novamente
talvez fosse hora de virarem costas e seguirem caminho
o problema era
que sendo a terra redonda e indo cada um em direção oposta
haveriam de colidir uma vez mais vindos do ponto cardeal oposto
teriam dado a volta
ao mundo e a eles mesmos
e acabariam onde sempre estiveram
no mesmo impiedoso lugar
portanto havia que teimar
gastarem-se até que um desistisse ou ambos ou nenhum
e assim perpetuarem o desentendimento
no meio de toda essa inevitabilidade
dessa desarmonia
o que lhes doía por cima do desalento
era sentir uma esperança que não se cansava de nascer e morrer
e que se renovava incessantemente nesse círculo vicioso
como uma fénix sem tempo nem para reencarnar nem para sobreviver às chamas
emaranhada num voo em combustão e extinção que ardia e sucumbia instantaneamente
não lhes estava ao alcance
conseguir colher aquele ínfimo momento de silêncio e paz que lhes aflorava a alma
era um entretanto tão sucinto
que só espreitava no rescaldo das tais febres onde jaziam ambos após terem ardido
o destino era ingrato e irredutível
talvez mesmo
só quando percorressem o infinito da sina
no fim disto tudo
quando um deles ou ambos definhasse
é que
enfim
houvesse espaço para realmente se encontrarem
Sem comentários:
Enviar um comentário