dia 332

uma coisa sem nome

era isto que ela dizia enquanto dormia
e eu nunca cheguei a acorda-lá nem a perguntar-lhe que coisa seria

e assim sem nome ficou a coisa
até hoje

dia 331

o rosto
morará sempre no mesmo lugar
nas estrelas cadentes de um sorriso
no sono que se evola pela tarde
no espelho que o devolve
no quadro que envelhece
no retrato imperfeito da infância
na lembrança baça de uma paixão
numa nuvem de passagem
numa pedra mais eterna

dia 330

o rumor de que estava vivo
de que disse às pessoas que não estava em lado nenhum
e de que as pessoas
ainda assim
apareceram

dia 329

pé esquerdo
número 10
e nunca se jogou tão divinamente à bola

um dos meus sonhos
era receber um passe dele e fazer um golo

da magia desses desejos de crianças sobra sempre um pouco
e ainda hoje
se pudesse escolher
gostaria de ter sido canhoto

dia 328

vai ser um daqueles que hesita
que se demora na dúvida
que receia existir

procuro dar-lhe alento mas talvez seja mesmo uma causa perdida

olhamo-nos e anuímos
o melhor a fazer é recomeçar
apagar tudo e recomeçar

no entanto
também nesse acordo cresce a incerteza

porque não aguentar
deixar que se escreva e deixar que se leia
que mal pode fazer para além de um poema mau andar por aí

decidimos finalmente
assim fica
assim é

que seja o que a poesia quiser
o arrependimento poderá ser uma forma de se estar vivo
já muita palavra eu falhei para que umas quantas mais não possam escapar



dia 327

um poeta russo com vários medos e um arrependimento

lamento não ser fogo

e o sangue do poema era sujo e lamacento
como a água nas poças esquecidas do inverno

estas minhas leituras fugazes e ocasionais
despertam por vezes a sensação antiga de que outras vozes há que desconheço por inteiro
como se nascessem de um outro caos que não babel

há qualquer coisa que estremece entre o silêncio e o ruído
uma entidade inominável

dia 326

as constelações
que se desenham
não nos pontos luminosos das estrelas
mas no negrume que existe entre eles

é o silêncio que se revela
o infinito das distâncias
os vácuos das irrealidades

como quando se dorme sem sonhos
como quando se era antes de se ser
como se será depois de se ter sido

o eco do silêncio

dia 325

o que fazer

a garrafa vazia
o pão seco de ontem
o frigorífico avariado e a televisão perdeu as cores
passear o cão imaginário
fumar à janela o charuto esquecido de um casamento com décadas
voltar a ler os mesmos livros e esperar um final diferente
afinar a guitarra com as cordas gastas até que uma rebente
olhar as fotografias limpas à pressa na lide semanal
os quadros de sempre nas paredes de sempre
ir dormir
não conseguir adormecer
levantar e passar o dia em pijama
escrever
rasgar
escrever de novo

tudo isto ele disse-me enquanto lavava as mãos
e eu nem sabia que ele escrevia
as coisas que se descobrem junto aos mictórios

dia 324

dos abismos das coisas banais
por vezes brota um gesto definitivo que não significa grande coisa

talvez por isso as coisas banais carreguem o peso do silêncio
talvez por isso a rotina seja a verdadeira revolução
ser-se indiferente às coisas mundanas
semear as emoções aos poucos num ou noutro esgar dissimulado

o grande grito adiado para as noites de luar
os uivos para as tardes ébrias de sábado
os gemidos para as ressacas épicas de domingo
os poemas para as madrugadas infinitas de outono



dia 323

a geografia dos corpos
explicada em golfos e estreitos por entre os lençóis
em penínsulas e ilhas de caracóis

dia 322

a viagem fora uma descida à demência
e convenhamos que é sempre mais bonito dizer estas coisas em verso

porque toda a história foi a mentira
mentiu que mentiu
e no fim desse exagero sobrou a loucura e um desespero
e tudo isso num bolero
acumulando energia como o oceano ao recolher as ondas antes de lançar o maremoto

quando por fim já os olhos ferviam e todos sabiam o que ia acontecer
já era demasiado tarde
o homem já estava para lá dele mesmo
tudo o resto ficara deste lado

dia 321

repleto de secretismo e sem pressa
atravessou o jardim enquanto a própria sombra o seguia

era daqueles seres que conhecia o sabor das cicatrizes
tinha um quê de felino e um quê de neblina

não mais foi visto
mas ainda hoje
por vezes
parece que por entre o piscar de olhos
a silhueta se desenha e refaz o caminho

dia 320

ela escrevia coisas
eu bebia café
a manhã era de luz e a preguiça de domingo

e este cenário imaginário desfalece
porque até o que se inventa alguma substância terá de ter para que se sustente

ela não escrevia coisa nenhuma
e o café que bebo sem açúcar nunca mais me soube tão bem como quando o adoçava
nem amanhece e chove sempre num cansaço derradeiro

mas até este descenário se esfuma
pois também ele não carrega uma voz dentro da voz

ela não escreve é certo
mas o café puro e negro conquistou-me
e as manhãs são tardes onde o corpo repousa

o sentido disto é o de sempre
um verso de cada vez
um verso
por cima do outro

dia 319

acabo de ler um poema
e depois de escrever vou voltar a ele

não sei se será o mesmo ou se mesmo eu serei eu próprio
porque a cada verso vamos sendo outro e a cada leitura outro texto é o que se leu

e neste carrocel de identidades
fica a vertigem
fica sempre a vertigem
e a tontura e o leve desmaio antes do renascer

isso
renascer
caminhar no esquecimento para que tudo seja novo uma vez mais

como no amor
como na morte
como na escrita
como nas promessas e resoluções

dia 318

pensei que pudesse escrever
equinócio
ou
prismas
ou coisas do género

e que assim o resto viria

mas hoje não
hoje vai ser mais difícil
hoje vai doer um pouco mais

dias há em que as palavras não chegam

dia 317

forjar com o fogo dos relâmpagos os versos definitivos
ou não
talvez baste a saliva e o sangue e o suor a manchar farrapos
ou não
quem sabe se calhar os ventos e a voz sejam suficientes
ou não
gestos e intenções
ou não
sonhos desejos 
ou


dia 316

olhava o chão
encostada à porta

nunca soube o porquê nem o que sentia nem quanto tempo assim ficou
mas era daqueles olhares em que dava para perceber que se por acaso se desencostasse
toda a casa ruiria e o mundo inteiro iria atrás

dia 315

as cartas não diziam grande coisa
talvez porque já ninguém sabe escrever cartas
ou ninguém as sabe ler

o que diziam tinha que ver com o aconchego das palavras certas
mas as palavras eram as erradas

na verdade
as cartas eram minhas e eu nunca as cheguei a enviar

cartas em silêncio

dava um título dum livro

dia 314

por vezes
antes de começar
vasculho nos outros
busco nos livros e nas gavetas e nos cadernos

não
não é inspiração que procuro
somente um empurrão
daqueles que fazem falta quando à frente o vazio imenso se levanta

dia 313

até agora
o único breve mistério que me visita
é ainda não ter sabido morrer

estas palavras
ditas por um bêbado
ressoam pelo bar

eu fico no meu lugar a assistir
ouço as tiradas ébrias de cada um
umas melhores do que outras
vou bebendo e retocando a maquilhagem
ou o contrário
ou é ela e não eu
não sei
não interessa
a hora do fecho chega
a madrugada é tão densa que até a própria noite ressaca


dia 312

para lá do significado de uma palavra
digamos que por detrás das folhas do dicionário
nem na frente nem no verso
por trás de tudo isso
sobra
nalgumas delas
a voz final e definitiva do que se quer dizer
mesmo quando não sabemos o queremos dizer

o rumor que vibra desde a fornalha da criação do verbo
que sopra dentro do dentro
que sustém os uivos impossíveis de conter
o rumor que trepa pelas tripas e pelo âmago acima
até rebentar pelo lábios e pelos olhos e por um desmaio tal que damos a volta da consciência
até sobrarmos apenas em suor e sangue e lágrimas

e livres

dia 311

veladas as palavras
e desconhecida a passagem
ainda assim
não hesitou

fez-se ao caminho sem ouvir nem ver
que o que importa é a jornada

no regresso
se o houvesse
o relato revelar-se-ia

se por acaso se perdesse
pelo menos o caminho desbravado estaria

que se seguissem outros
fossem náufragos como ele
ou paladinos como os mitos

dia 310

de novo ao longe no mar
erguem-se as nuvens sobre o sol
e um lento incêndio de fim de tarde derrama-se até ser noite

creio que o instinto navega por lá
como um pirata
sem plano sem rumo mas decidido

ele é a certeza inexplicável da premonição
e mesmo quando não acerta
mantém a teimosia inquebrável de que algures no labirinto das coisas possíveis
lá acertou e lá tinha a sua razão

o instinto é o último reduto daquilo que é invencível

dia 309

desta vez convidei-o para se sentar comigo à mesa

partilhámos várias rodadas e finalmente contou-me
uma vez mais 
a viagem ao oeste

o que sobra é a paisagem
como um despojo de guerra
a vista não acaba nunca
planícies infindáveis com as montanhas e as nuvens a correr no horizonte

enquanto falava íamos bebendo

o assombro é tal
que é fácil de entender que quem por aqui andou
falasse com os espíritos todos os dias

adorava ouvi-lo
sobretudo porque mais ninguém o ouvia
já que me confirmaram que à mesa só estava eu

dia 308

estava obcecado
o homem queria a todo o custo dizer uma coisa

no meu lugar do costume
a meio da minha bebida
observava-o ao longe

o que eu quero é que me digam
que palavra apenas foi dita uma vez

temia que me perguntasse a mim
eu não sou dado a pensamentos
nem a bêbados
nem a enigmas

acabei de beber e saí
o homem lá continuou na procura da tal palavra órfã de ecos

dia 307

os atrasos
sempre os atrasos

tudo em si é um desfasamento do instante preciso
nada existe agora

vivemos com a ilusão de que o passado e o futuro são irreais
mas na verdade
é o presente que revela o grande engano
o grande golpe

nada é nem nada vai sendo
ou foi ou há de ser

dia 306

os ramos nus contra a luz parda de um céu cinzento
a típica árvore outonal
e o mar por trás
imenso
ondas a despenharem-se contra as rochas cansadas
um insistir que data do tempo antes de tudo
o rugir imparável do oceano

e eu
aqui
escravo de um pasmo tão terrífico
que o que me sobra é um excesso de olhar
como se vomitasse a alma de uma só vez
e ela se perdesse no meio das ondas
deixando a carcaça do meu corpo na praia e o espírito estilhaçado pelos ventos

o que eu descrevo
é o infinito sim
mas é o infinito que acaba constantemente

dia 305

aos poucos
os golpes vão sendo mais fundos na carne do tempo

o eco já quase se extinguiu
pouco se ouve do que foi dito no início
o rumor agora é outro
é o do fim que se aproxima

curiosamente
o fim que se aproxima
traz tudo outra vez
acende as trevas do futuro
e sem vergonha
revela

vai recomeçar tudo de novo

dia 304

parada à porta com uma cerveja na mão
e um sorriso quase a desenhar-se nos lábios
o silêncio que tudo dizia e um último olhar antes de ir para a sala

assim me deu os versos de hoje