dia 105 - vulcão

ao fundo
um vulcão

sobre ele
debruçadas e empilhadas
nuvens que iam passando deixaram de passar
acumularam-se sobre a goela adormecida
erguendo uma parede de neblina branca

com o tempo
confundia-se já
seriam as nuvens ou fumaça de erupção a avançar sobre a cidade
preparando-se para cobrir do céu ao chão o mundo inteiro

talvez se rebobine a existência
e essas nuvens que pareciam atravessar o firmamento
viajam afinal de volta à origem
reencontrando o caminho da cratera
entrando pela caldeira até mergulhar nos confins da terra
e quem sabe se mais tarde
não será a vez dos edifícios e do nosso olhar retornar à fornalha inicial
sugados por uma implosão temporal
como se os deuses quisessem tentar de novo

nisto da criação
é fácil de imaginar cair-se no vício de voltar atrás
o arrependimento não poupa ninguém

e quem nunca
pelo menos uma vez na vida
não se sentiu tentado em cometer
sem tirar nem pôr
os mesmo erros
ainda que disfarçando a intenção

ao fundo
um vulcão

falta saber qual ao fundo é aqui referido
se o de lá
ou o de cá


ps - Via Etna, Catania, Sicília, Itália, agosto de 2016

dia 104 - urbehumano

quando o ouviu dizer as coisas que disse
pareceram-lhe sopros a reverberar de uma carcaça
como se a voz viesse de um outro lado

à volta
o mundo ia seguindo
sorvendo o tempo
desinteressado em saber que as palavras vão sustendo a realidade

o que acontecia ia nascendo no olhar
como o sol ou a lua o fazem quando calha de se enquadrarem na janela
as vidas de cada um cruzavam-se num lugar camaleónico
ora entrada ora saída ora nascente ora poente

o que sobrava no final do dia
era uma promessa renovada de que amanhã seria outro dia
mas até lá chegar houve que atravessar uma existência inteira

do que ouviu
dessa fala
já não se recorda senão o som velho do que nem é já memória
mas o labirinto caótico dos espíritos que galgavam numa euforia contida
ainda hoje se tatua na lembrança

cada corpo com o caminho traçado numa certeza desconhecida
uma urgência em ir sem se saber de onde se veio
um imediatismo tão intenso
que fulminavam no presente como os relâmpagos nas noites de tempestade
uns após os outros até o temporal se cansar

hoje
à distância de um esquecimento
esse burburinho urbehumano ainda ecoa
nem que seja atabalhoadamente nuns versos quaisquer


ps - Mercado Municipal, São Paulo, Brasil, maio de 2018

dia 103 - e ele nem era poeta

ficava acordado a espreitar as luzes dos apartamentos a insistir na madrugada
eram quase sempre as mesmas
e de vez em quando
umas outras que só raramente iam luzindo a horas tardias

também se dedicava a acompanhar as sombras
ia espiando-as
vendo-as esticarem-se até ao ocaso as engolir numa penumbra indiferente

outras vezes
passava horas ao espelho com um único propósito
esperar que o próprio reflexo desaparecesse
e assim assistir ao despenhar do infinito nos dois sentidos sem o obstáculo dele a existir no meio

é que o tempo tropeça em nós
como uma pedra que cai num rio
ou uma lomba no final de uma descida

estas coisas definem o universo
as manias
as cismas
os devaneios
as exceções

os versos que sobrevivem
enquanto tantos outros nascem e morrem num instante
uns porque hesitam
outros porque não encontram as palavras que os sustentem

e ele nem era poeta
calhava de estar por ali
de ter estado por ali
de ir estando por ali
de vir a estar por ali


ps - Foz do Douro, Porto, outubro de 2025

dia 102 - amanhecer

começar por um silêncio
sobrevoar um sono alheio pelos desfiladeiros da manhã

a luz a entrar como um relâmpago que não acaba
e o dia inteiro a estender-se lá fora onde o mundo acontece

o quarto resiste ainda
agarra-se às silhuetas da véspera
às roupas que por lá ficaram
ao sabor dos teus lábios
aos sonhos que se consomem num esquecimento cheio de pressa
a preguiça a retesar-se pelo corpo até ser expelida numa neblina invisível

a língua a pedir água e os olhos a habituarem-se ao agora

acordar e reaprender tudo de novo
reconhecer-se ao espelho
voltar a vestir a pele que ficou no ontem
medir o olhar e o alcance das mãos

e onde se começou por um silêncio
há que voltar a saber ouvir
por isso é que muitas vezes
depois do automático bom dia
nunca ouvimos à primeira o que nos dizem depois

muitas manhãs começam com uma pergunta

diz


ps - "desfeitahenge", a duo centésima vigésima sétima "cama desfeita", Porto, agosto de 2022

dia 101 - predestinados

talvez estrague a história dizer que no fim nada muda
mas quem sabe se é verdade uma conclusão antes do tempo

este novo início estende-se por um outro infinito
há todo um deserto por cobrir com palavras
e elas esperam algures
ou se não esperam hão de surgir de um nada sem nome

é sempre assim
não só quando por um acaso o caminho parece ser outro
como num novo amor depois de um que se estilhaçou
ou numa esperança quando as portas da escapatória se fecharam

o que não falta é eternidade para que as coisas aconteçam
até mesmo para que as que já aconteceram antes voltarem a acontecer outra vez

sim
há nuances
originalidades
mas nada é realmente novo
e o que parece ser novo é tão só fruto de um esquecimento

que diferença faz
se uma coisa já foi ou se voltou a ser
se não há memória de que já tenha sido

os labirintos da alma estão ligados pela intuição de que tudo já aconteceu
ou
quando muito
de que o que acontece tinha forçosamente de acontecer

talvez sejamos filhos de um destino
ou órfãos de um propósito
não interessa

sobra sempre o que é inevitável
sermos nós mesmos e não um outro


ps - fronteira entre o Pernambuco e a Paraíba, Brasil, maio de 2018

dia 100 - sal cinza e poeira

havia um vento em permanência
meio norte
não demasiado mas não tão pouco também

era uma lembrança a insistir
de que à volta
havia mar
e de que por dentro
havia fogo

que se o mar parecia imenso
já o fogo nem fim parecia ter

de dentro
a espaços
a terra soluçou e despejou mais mundo no mundo
escorreu em pedra líquida que depois estagnou em basalto
seguindo curvas e contracurvas e o rumo lento mas decidido da gravidade

pela pele dessa ilha
rugas mais antigas ao lado de lisuras mais recentes
o que a sina dessas mãos telúricas contava
eram epopeias feitas de mitos e lendas e deuses mais velhos que a noite e o dia

por fora
ao longe
quando o vento chegava de leste
trazia a calima africana
as areias finas do deserto que iam chovendo
qual bruma seca de sal cinza e poeira que levantava uma sede de loucos
quem sabe se não foi isso que levou a que até vinhas se plantassem por entre o pó queimado
em covas ovais protegidas das brisas para colher sol o ano todo

à noite
os sons eram engolidos pelas crateras e cavernas
o silêncio emanava do próprio solo
com ritmos que vibravam pelo ar estremecendo até ás estrelas lá no alto

e então
era quando regressavam as sombras de antanho
ora piratas e corsários ora marinheiros ou náufragos
que pela madrugada fora
bebiam cantavam
e uivavam
até a lua não caber mais no céu


ps - Ilha de Lanzarote, agosto de 2015

dia 99 - simultaneidade

ao ver
trouxe do que viu algo que não existia neste mundo
como se o ato de olhar por si só forjasse o inalcançável

os ventos que sopram pela solidão
correm até não haver mais por onde resvalarem
e deste lado
os ecos do que dizem são sempre inéditos
pois cada um é único e inimitável

o que é comum é o assombro
o instante em que se nos falham os sentidos e a alma parece elevar-se do corpo

ao ver
aumentou o próprio tecido da existência
qual deus a encontrar um lampejo de criação
e num instante inicial tudo e nada são possíveis
até que aos poucos se vão aniquilando um ao outro
como partículas de carga oposta

no fim dessa dança probabilística
costuma sobrar um pedaço do tudo
só que por vezes
quando o acaso se lembra
muito raramente
o que fica acaba por ser um pedaço do nada
e aí
nesse milagre
o que é real e irreal manifestam-se em simultâneo


ps - "Jovem Mulher na Paisagem (Estudo para ‘Remendadoras de Redes), obra de Max Liebermann, Leopold Museum, Viena, Áustria, abril de 2022

dia 98 - em tortura

se não puderes ser livre
sê um mistério
Rita Dove

apesar das ameaças e da execução de algumas delas
nunca se rendeu à primeira
e mesmo quando concedeu
deixava sempre um pedaço de dúvida nos carrascos
como uma pequena pedra chata no sapato da imposição

ia resistindo furtivamente às torturas e aos castigos
sabia que pelo menos lhe sobrava uma réstia de desdém que era invencível

o calvário teria um fim
nem que fosse também coincidir com o dele mais à frente
mas até lá havia que caminhar pela agonia e suas cambiantes

não se recordava bem de como tinha chegado ali
mas também já não importava
aprendera rapidamente que o presente só existe quando é a dor que o domina
o passado e até o futuro
só ganham forma quando não existe sofrimento

nada existe no agora a não ser o incêndio de uma aflição
os entretantos ou naufragam no pretérito ou esvoaçam pela miragem do porvir


ps - Palacio del Marqués de Dos Aguas, Valência, Espanha, julho de 2019

dia 97 - esboço de lenda

e vieste a meio da noite
quando o lugar já não te esperava

ainda assim projetaste a sombra no corredor silencioso
ao fundo a porta do elevador órfã
os quartos fechados a fazerem guarda de honra ao teu percurso sonâmbulo

tudo isto foi visto nas câmaras de segurança
na manhã seguinte pelas autoridades

quando a tua silhueta desapareceu de repente
um suspiro de susto e depois de desconfiança abalou o pequeno escritório

ninguém desvanece do nada
provavelmente a transmissão falhou
uma interferência qualquer

não sabiam eles
que sempre foste um fantasma
que eras feita de éter e composta de ideia
que a tua substância se rege por outras leis que não as nossas

voltaste a aparecer muito tempo depois
já eu não estava por cá nem mais ninguém te procurava

vieste a meio da noite e o mundo tinha esquecido
sobrava uma subtil solidão à qual juntaste a tua
e dessa soma uma mudez cobriu tudo

nestas coisas de aparições e desaparecimentos
nunca se sabe bem o que sobrevive
talvez uns versos e um esboço de lenda

há sempre alguém que fica com os restos
que se alimenta de resíduos e vive para lá dos mil anos
que deambula pelas esquinas dos mitos


ps - Leonardo Hotel Savoy, Roterdão, Países-Baixos, março 2019

dia 96 - chamamento

dizem alguns rumores
que existe um vento que morde
que faz com que marinheiros se lancem dos navios e se joguem às ondas
e que no meio delas ficam a olhar o céu até que cada estrela se eclipse e a noite se extinga de vez

nos portos e em terra
não faltam sonhadores
e gente cheia de uma coragem nunca testada

o vinho corre e os corpos viajam por outros corpos
trocam-se mentiras e segredos
cumprem-se promessas e quebram-se outras
mas as luzes do farol palpitam e vão segurando o mundo no lugar

é fácil falar de correntes e travessias quando os pés estão secos
é fácil pintar o horizonte e a espuma das vagas a espraiarem-se pelas areias silenciosas
é fácil escrever sobre tempestades e ondas que desabam de tão alto que parecem vindas do céu 

mas o que é difícil na verdade
não tem como se contar
é de uma língua feita de sal e de solidão
é um vínculo pré-histórico dos inícios da vida com o mar
um atordoamento face ao infinito
um chamamento ao princípio
porque já se deu a volta e se passou o próprio fim


ps - Farol da Barra de Aveiro, Gafanha da Nazaré, abril de 2021

dia 95 - amnésia

dessa vez
e só dessa vez
ele contou o que tinha acontecido
ouvimos enquanto a noite passava do lado de fora

eu tinha saído de casa sem saber bem para onde ia
e quando me apercebi
tinha dado a volta ao mundo
ou ao bairro
não sei bem

foi assim que começou
e até acabar falou quase sem perder o fôlego

o que disse ficou perdido algures onde não vale a pena vasculhar
o dia haveria de nascer e o horizonte estaria no lugar de sempre

mas antes de acabar olhou cada um de nós nos olhos e rematou

quando se lembrarem desta história
não se esqueçam do que realmente importa

valeu de pouco
hoje
à distância de uma memória que se esfuma
não resta nem lição de moral nem os acontecimentos dessa volta

mas quem sabe se não é isso que realmente importa
uma inexistência
um apagamento da realidade
como os deuses que reescrevem a história

amnésicos por escolha
reis e senhores desses lugares de silêncio


ps - Foz do Douro, Porto, fevereiro 2025

dia 94 - depois

o que acontece depois
ninguém sabe ao certo

depois do último traço e um ou dois passos de recuo
de um pequeno assombro quando calha de se ter descoberto o que ainda não existia

mas e depois de tudo isso pergunto

é o silêncio que cai ou o desassossego de novo a imiscuir-se

poder-se-á ter ganho um pouco de tempo dentro do tempo
ou a vertigem não descansa e a queda não acaba

quem sabe se o artista não se esquece da própria sombra
a modelo não perde mesmo a cabeça
e a tela não se propela para lá dela mesma

quem sabe se nós
deste lado
sem ter tido de passar pela viagem da criação
não nos contentamos com essa ignorância

porque o que nos chega dos traços não pertence a cronos
a emoção que despertam é intemporal e move-se em coordenadas indecifráveis

o que acontece depois
no fundo
não se sabe
apenas é certo que não é mais o que acontecia antes
pois nem nós nem o mundo somos os mesmos


ps - " Tête de femme", Pablo Picasso, 1963, Museu Albertina, Viena, Áustria, abril de 2022

dia 93 - escape

não se sabe
mas parece provável
que no fim a entropia terá a última palavra
e que provavelmente não será sequer uma palavra
ou então
as letras estarão tão distantes que nem uma leitura será possível

parece inevitável que as coisas se dispersem
porque há demasiado para onde ir para que se fique nos lugares de sempre

deve ser isso
há um escape para cada coisa
e dentro de cada coisa outras coisinhas há que irão escapar
e assim sucessivamente

independentemente do que acharmos
não há como calar o rebelde que habita em cada pedaço do que aqui anda
ele vive numa espera calculada
sabe que isto não passa de um instante
o mar
as montanhas
as órbitas
os campos eletromagnéticos
os desejos e os beijos que nunca se chegaram dar

tudo isso
está preso ao tempo e ao espaço em que se move e acontece
tudo isso se consome até que as portas se abram e por elas tudo se desmorone e se precipite
escoando até que o universo seja um lugar feito de quase silêncio


ps - vista dos Alpes, voo Zurique-Porto, Abril de 2025

dia 92 - recolhimento

a cidade despejada lá fora
onde os ritmos têm vida própria e escapam ao silêncio

por aqui
uma formiga atravessa a página e quase segue o horizonte do verso
até que eu a leve à janela e a exile de vez do meu mundo

talvez vá por lá
por essas avenidas que não acabam nunca
onde o trânsito parece uma teimosia ensimesmada

eu espreito de vez em quando
seja pela varanda
seja em saídas esporádicas para ter a certeza que o mundo ainda existe

no meu recolhimento por vezes duvida-se
habituamo-nos de tal forma aos ecos abafados lá de fora
que eles se esfumam em surdez até o corpo pedir um ruído qualquer que reverbere por dentro

o jogo do alienamento não se fica por uma forma de se ser solitário
ele abre portas por onde correntes de um outro ar vão e vêm sem aviso
trazem para além de um ocasional arrepio
murmúrios que se assemelham a rezas e sons de uma língua estranha

por vezes
esses dois mundos fundem-se
misturam-se na fronteira que vou sendo
esse limite entre a cidade lá fora e o mundo que surge do meu isolamento

e esse limbo sou eu
desmascarado
enredado num caderno a chegar ao fim e onde não vai caber o que resta do infinito


ps - Avenida Paulista, São Paulo, Brasil, maio de 2018

dia 91 - a tua ausência

o que fica é um nevoeiro e um perfume
a tua ausência estes dias tem vindo

é uma companhia agradável
quieta e inquieta nalguns momentos
como que há procura de saber onde está

eu distraído noto-a sobretudo no quarto
há um deserto a ser
e quando lá entro não deixa de ser
chega-se um tanto para o lado
mas não se enrosca em mim nem despeja os caracóis sobre a tua almofada
não se espreguiça de manhã
aliás
de manhã nem está e por instantes ainda mais a noto

à noite vem ter comigo
adormece depois de mim
o que é o contrário de quando estás
ela é que me vela o primeiro sono

estas coisas sabem a tempo
não sei bem dizer o que isso significa
é uma mistura de passado mas com um final longo de futuro
como uma especiaria picante que vai crescendo e aquecendo por dentro

quando voltares
espero mostrar-te essa tua ausência
os vestígios de um silêncio que anseia
dos mil abraços por dar
dos meus lábios secos de esperar
do meu corpo enfim liberto
enfim em casa


ps - "despertar", a centésima décima terceira "cama desfeita", Porto, abril 2022


dia 90 - incompreensão

a cartomante disse

absolutamente
carregas os ossos da tua carcaça
e o futuro encarregar-se-á de os revelar
juntamente com os traços com os quais riscarás o tédio e o assombro

ele aceitou
tinha pago para tal

por vezes arriscava nessas adivinhações
outras ficava-se por ser surpreendido

é certo que nenhuma das premonições que ouvira chegaram alguma vez a acontecer
mas também é certo que há sempre tempo para que tudo aconteça

mesmo depois da morte
o tempo não se esgota e a possibilidade de alguma coisa é o que mais se acerca da eternidade

lembrou-se de quando um vidente lhe escreveu num papel umas palavras ilegíveis
e de como se apercebeu que eram as que precisava de ouvir
pois nessa incompreensão podia enfim descansar
perder-se nesse mistério e não procurar mais respostas para as quais nem as perguntas conhecia

a cartomante recolheu as cartas
recebeu o dinheiro
e antes de desaparecer atrás de uma cortina
disse qualquer coisa que ele não entendeu


ps - Provence, França, abril de 2017

dia 89 - este é um deles

eles recusaram tudo o que fora escrito antes
a missão passava por encontrar outras palavras e outros caminhos
e para isso
por falta de talento próprio
a opção passou pelo rapto de quem eventualmente o tinha

organizaram-se
escolheram um fardamento que pudesse camuflá-los pela noite
fatos escuros camisas brancas velhas e uma gravata preta mal apertada

andavam sempre em grupos de três
abordavam poetas nos cafés
e por promessas e ameaças
acabavam por levá-los para caves de prédios devolutos

onde já estavam outros deles
em mesas corridas de madeira
obrigavam o coitado ou coitada a escrever até que a madrugada se esgotasse

depois
ficavam com os escritos e despejavam o autor para a rua

o que faziam depois ninguém sabe
que destino davam a esses textos é um mistério escondido numa qualquer biblioteca clandestina

o que é certo e comprovado
é que eles foram escritos

este é um deles


ps - Hotel Abadia Retuerta Le Domaine, fevereiro de 2026

dia 88 - lugar

o lugar não existia
era uma irrealidade

foi só quando os olhos caíram nele que nasceu materializou-se e vozeou enfim
não só disse coisas que nunca foram ditas
como o disse numa língua nova e inédita

e eu
dei por mim
de vez em quando
a lembrar esse deslumbre e a concluir

que afinal
o lugar existia e era real
que o que dizia era antigo e tangível

eu é que não tinha ainda nascido para aquilo
e o que eu dizia era até então incompreensível face ao milagre

havia tanto infinito por lá
que foi preciso um vulcão para ancorar um pedaço de mundo
ou não fosse o universo inteiro passar por nós em silêncio sem darmos conta

naquele lugar
não havia como não dar conta
ali
a alma tinha mais caminho para lá do corpo
ela fundia-se em basalto sal e vento
para depois
num derradeiro suspiro de rendição
se precipitar por um céu que não acabava
e não mais voltar igual

ali
inevitavelmente
somos levados a renascer a transmutar e a tornarmo-nos diferentes


Ilha do Pico, Açores, junho de 2024

dia 87 - queda perpétua

o céu todo metido no lago
as nuvens engolidas num repente
que o que mostravam não era o reflexo mas o outro lado delas
como se voássemos por cima

e podemos imaginar que um mergulho
seria antes um salto por entre esse nevoeiro celeste
e passando por ele veríamos a terra ao longe
aproximando-se mais devagar do que se supõe
mas chegando com certeza
as florestas e os horizontes ao redor a escaparem-se pelo lado do olhar em queda livre
enquanto o lago se afunila no foco da visão até ser inevitável despenharmo-nos nele

quem sabe se ao nos abismarmos outra vez pelo manto de água
não ocorra uma queda perpétua em ciclo
do lago ao céu do céu ao lago

e passaríamos por este poema e por esta imagem vezes sem conta
em leituras e deslumbres
em releituras e vertigens
em silêncio e abandono


ps - a Selic em Burnhaupt-le-Bas, Alsácia, França, janeiro 2021

dia 86 - quases

supunha que o amor existia precisamente por não o encontrar
essa ausência era quase uma prova e uma quase confirmação

houve um tempo que não queria não ter medo
apenas queria ser deixado em paz
isso passou no dia em que teve de lutar
ou quase lutar
uns empurrões e um soco bem dado acabou com a coisa

o soco foi ele que o deu
meio por acaso
ou melhor
meio por sorte
lançou a mão antes do agressor
inverteu os papeis no momento certo

o tipo caiu depois levantou-se e foi-se embora

foi curioso vê-lo a afastar-se
ele que tinha vindo cheio de uma intensidade mal intencionada

mas isso foi há muito tempo
nunca mais lutou
nuca mais teve de lutar diga-se

hoje os quases são outros
são ausências e portas por abrir
grandes silêncios entre cada sonho ou pesadelo
pequenos segredos que desconhece e ainda assim espalha

desde sempre
na verdade
foi queimando paradoxos
e até agora
tudo fez sentido
só não sabe bem qual


ps - Bordéus, França, agosto de 2021

dia 85 - memória

provavelmente
o que falamos é linguagem feita de memória
e a pele que nos cobre
por fora e por dentro
o manuscrito decalcado desse idioma

ele revela-se por marés que vão e que vêm até à ilha que somos
em ondas vindas de norte este oeste e sul
cujo sal nos sobe pelas raízes até se esculpir em lembrança

e essas recordações frágeis
que se derretem num instante
ainda assim deixam sempre um travo a mar inconfundível

há um mapa da nossa existência
e nele as rotas possíveis dos ventos e os traços impossíveis das travessias
o xis que marca o suposto tesouro
a escala das distâncias imensuráveis
os desertos planícies e florestas que se estendem no imaginário

provavelmente
uma âncora feita pedra no lugar de sempre
a segurar o oceano e o céu na lâmina do horizonte
a suster o universo para que ele não colapse nem se propague para lá de nós

e no fim
numa epifania
a memória foi-se revelando
falando comigo e dando-me forma

eu que nem sabia que estava deslembrado por aí


ps - Gilreu, Foz do Douro, Porto, fevereiro de 2026

dia 84 - sombra oblíqua

ele disse

primeiro foi a minha silhueta de penumbra
desapareceu de repente
esvaiu como um fio de água cinzenta para lá de mim
seguiu-se o meu corpo
esfumando-se como os nevoeiros devorados pelo sol no final das manhãs

o que sobrou foi uma sombra oblíqua sobre um muro de cal
sesgando a parede sem fazer caso às rugas e pregas
e um lampião também projetado num vulto geométrico de esboço

no entanto
enquanto falava
todos lhe víamos o corpo e um pedaço de sombra sobre o chão

sentiu a nossa descrença e retomou

face ao vosso ceticismo
não posso dizer muito mais
mas sumi naqueles instantes
e acreditem se quiserem
a verdade não é negociável

e ao sentar-se em silêncio
concordámos em dar-lhe o benefício da dúvida

afinal
não seria a primeira vez que algo rocambolesco era dito nos nossos encontros

e não seria a última em que um de nós
com a alma a transbordar
partilharia um sonho ou alucinação onde nos falta o chão
e nessa ausência por lá caíssemos
desvanecendo
para somente nos reencontrarmos no momento em que tudo isso vozeássemos


ps - Caves Graham's, Vila Nova de Gaia, outubro de 2017

dia 83 - tragédias

ela despia-se
e o vestido cai até hoje

ele encontra dentro da memória
esse lugar preciso de uma ideia do amor
mas o resto parece esfumar-se nos dedos do cigarro que ela vai fumando

eles conviviam esporadicamente
trocavam algumas palavras até só haver silêncio e a vertigem dos corpos

para ela o tempo deles era um entretanto necessário
para ele era uma entrega narcísica e altruísta ao mesmo tempo

não se moviam na mesma realidade
e só quando entrançavam as línguas é que convergiam

ela não estava bem ali
ele estava em demasia
e nem por isso o equilíbrio singrava

provavelmente hoje
passadas tantas outras desventuras
ela não tem por onde se perder em lembrança
e ele não há dia que por lá não mergulhe

eu
a ver de fora
percebo ambos
nem um nem outro escapam a um destino traçado

ninguém escolhe as suas tragédias


ps - Casa da Fundação de Serralves, Alberto Carneiro, outubro de 2019

dia 82 - tudo isto devia ser prosa

tudo isto deveria ser prosa
mas os versos teimam
quebram antes da parede imaginária
e quando
por vezes se estendem para lá
é porque carregam um alento a mais que não estava nas contas de tudo isto

a poesia será indomável
mas mortal ainda assim
pois esgota-se no silêncio inevitável

quem sabe se o poeta não faria melhor em rastejar para dentro de outra pele
ou então trocar de derme como as serpentes
ou aceitar uma metamorfose como exercício de humildade

o que sobra é que tudo isto deveria ser prosa
ter um princípio meio e fim
uma construção lógica e alicerçada numa argumentação plausível

mas não
o caos reina
dançando ao ritmo de intuições e instintos
como os loucos que bailam ao luar em praias desertas
ou os que bebem em bares decrépitos até o dia chegar
ou ainda
os cavalos do oeste a galoparem pelas planícies sem fim

não sei
ninguém sabe
num momento achamos uma coisa
no outro essa coisa esfuma-se por entre um delírio acabado de nascer
e que berra como se nunca tivessem inventado um pulmão

tudo isto deveria ser uma prosa
mas não se escapa à lei da anarquia
nem ao devaneio de uma insónia


ps - Recife, Brasil, outubro de 2018

dia 81 - eco

lembro-me de um texto antigo
daqueles que surgiam na sala virada ao mar
que falava de uma casa abandonada

de como o jardim a engolira
cobrindo a sala que dormia ao ritmo das cortinas rasgadas
e a cozinha e a mesa de caruncho e as cadeiras mancas
e os corredores e os quartos assombrados por um rumor de deserção

de como o mar a inundara de uma só vez
num maremoto imparável de solidão
submergindo-a até que a lembrança se confundiu com o esquecimento

de como o cosmos a apagou
naquele porvir tão lá à frente que não há olhar que lá chegue
desintegrada nas tempestades estelares e dilacerada no próprio cerne

o silêncio dessa casa
há muito fora proferido
nem as palavras sobreviveram

o que nos chega agora
é um resquício feito eco

eco esse que se dispersa até não ter por onde reverberar


ps - Vila Nova de Gaia, março de 2019

dia 80 - tricotomia

não queria nem precisava de mapas
desbravava o caminho a golpe de uma fome cuja origem desconhecia

e enquanto se lançava nesses impulsos
uma parte dele ficava para trás
parado na nascente da resolução

assim
um pedaço ia louco desvendar o desconhecido
outro imóvel enraizava uma mistura de medo e indecisão

o que ia
mergulhava na vertigem de um horizonte inalcançável e no pôr do sol sem fim
a eternidade pela frente ia ao mesmo tempo saciando a fome inicial e renovando-a em permanência
a ida era inevitável o regresso impossível e o destino uma miragem

o pedaço que ficava
prendia-se ao tempo
ancorado num momento preciso nascia e morria instantaneamente
como as partículas que viajam à velocidade da luz
que surgem e se extinguem no mesmo instante
assim
a ida era irreal o regresso redundante e o destino inútil

no fim destas contas
uma terceira parte dispersa e difusa completava a tricotomia
ela dita e escreve algures
entrança e tece esta rede labiríntica
e oferece de novo um convite a ir ou a ficar
fomenta o ciclo infindável e subtilmente poético de andar por aqui


ps - Serra de São Mamede, Portalegre, Alentejo, agosto de 2009

dia 79 - profecia

curiosamente
era antes de beber que ele se punha a falar

chegava sempre já a noite ia a meio
e antes de se sentar ao balcão
dirigia-se a todos e contava histórias e episódios

depois
pedia a bebida e mais ninguém o ouvia

vi a lua e um cometa por baixo a sublinhá-la
e sei que há uma profecia por trás destas coisas
terá de haver

não sei decifrá-la mas o céu não se presta a acasos
e cá por baixo
bem que precisamos de quem nos guie

enquanto o ouvíamos
cada um ia-se perdendo nos próprios presságios
nos alentos que pareciam ganhar força a cada trago

era a noite perfeita para fazer resoluções
morder as certezas e as convicções
sentir o ânimo de uma segunda vida
de renascer e conquistar o pedaço de mundo que era nosso por direito

mais tarde
quando a madrugada se extinguia e o dia parecia espreitar
a lua e o cometa ainda lá estavam
um pouco desviados mas presentes
e cá por baixo
os bêbados do costume a entrar na inevitável ressaca
as certezas a perderem-se em esquecimento
e a segunda vida afinal
igual à primeira


ps - Côte d'Azur, França, maio 2017

dia 78 - oscilação

existe a possibilidade de um traço encontrar um caminho
ele que pernoita há mil anos
anseia por esse escape para finalmente revelar-se à luz

na tela
os contornos de um barco e o eco de um reflexo tímido a vibrar até à mudez

à volta
uma manhã que se esgotou então
para renascer na voz de uns versos e nas leituras ocasionais do futuro

estas coisas não têm princípio nem fim
são oscilação entre silêncios e declamações
intermitências nas ondas rádio que soluçam no éter

ao largo
a embarcação aguarda ainda
a vela órfã de brisa e o leme sem corrente para singrar

a maré tarda e à deriva ficamos nós
sem rumo nem rota

só a espera suspira qual prece em forma de murmúrio
e o que sobra é horizonte por onde a vista se lança para por lá se perder de vez


ps - aquarela da Maitê Weill Steiger, Porto, janeiro 2023

dia 77 - propósito

por baixo
no fundo que não se vê nem se mostra
uma rede infinita de raízes bebe silenciosamente
sorvendo do húmus que fermenta desde que o chão é chão

desse ofício
com o sopro do tempo a sentir-se
surge por cima o fruto do esforço

ao longo das estações os ramos vão seguindo os caminhos invisíveis da gravidade
encontrando as fendas no contraste com o azul do céu e o casual voo de pássaro

nesse afinco espelham por cima o que as teias subterrâneas desenharam por baixo
e numa simetria etérea outros reflexos manifestam-se
as ruinas de um templo antigo
num amontoado de pedras com história

a teimosia de milénios não é coisa pouca
mas ainda assim
é um detalhe insignificante na perspectiva cósmica

e no final de todas as contas
o que sobra é o espelho dessa mesma pergunta

o que resta

e parece que por entre escombros esquecimentos e uma oliveira solitária
suspira através dos tempos
entrelaçando as texturas do passado e desaguando no mesmo lago de sempre
o das águas paradas do que não se sabe

e questionar e não saber
são o propósito de tudo isto


ps - Coluna de Peristilo, Vale dos Templos, Agrigento, Sicília, agosto 2016

dia 76 - a dormir

no labirinto da necrópole
por entre o que tinham sido alguns caminhos entre as campas
uma tumba em particular saltava à vista

coberta por poeira do tempo passado
duas palavras
gastas e desvanecidas
diziam

a dormir

talvez aí repousasse aquele mito sobre alguém que de tanto se esconder
ninguém mais encontrara e não mais voltara a aparecer

ao largo
numa das muitas sombras despejadas sobre a cidade
a estrada cortava a urbe de horizonte a horizonte
enquanto o céu transmutava por entre as nuvens num contraste que fluía

erguiam-se as torres dos oráculos
apontadas a um alto demasiado longínquo
e cujas profecias cumpriam tudo o que havia a cumprir
menos acontecerem

existia um vazio por preencher no escape destas coisas
e enquanto não surgia
por entre os silêncios e o sono ininterrupto dos mortos
cabia ir tecendo a demora
farrapo a farrapo
com fio que pudesse sobrar das linhas da sina daquele ou daquela que dormia


ps- São Paulo, Brasil, maio 2018

dia 75 - anjo

dizem alguns
que o universo
sobretudo a um nível quântico
é um fluxo
e que a realidade só existe quando alguma coisa é medida
que sem observação
na verdade
nada é
ou será eventualmente uma multitude de probabilidades

somente quando um olhar capta
é que o tal fluxo colapsa
e ocorre a falência da função de onda
e e ao desabar e despenhar-se
fixa
sendo enfim

e ao olhar o o corpo ali suspenso
imagino uma dor nas costas perto dos ombros
provavelmente a memória perdida de quando tinha asas

assim
voltando ao que escapa por entre o que se vai vendo
nem tempo há para o luto do que não se viu ou mediu

mas dando a volta a isso
aceitemos que tudo acontece ainda assim
basta sonhar com o instante em que por um acaso
alguém por lá passe a testemunhar


ps- escultura de Irene Vilar, o Mensageiro (2001), Lordelo do Ouro, Porto, junho 2023

dia 74 - conselhos

desbrava o caminho como se ninguém antes de ti por lá se lançara
até porque
na verdade
ninguém foi antes de ti
e mesmo se foi
não foi com os teus pés nem com os teus olhos
por isso
cada um é pioneiro de si mesmo a cada instante que passa

és o hóspede de um assombro
aproveita mas sê respeitoso
com a devida vénia prepara o uivo que é impossível de domar

bebe o essencial e o supérfluo sem distinção
pois a estrada é longa como as noites de febre e de silêncio

e um dia
lá na frente depois de várias marés terem ido e regressado
as tuas mãos serão diferentes e iguais
ignorantes e sábias
com as mesmas dúvidas e repletas de outras certezas

será evidente então
que nem a estrada acaba
nem o anseio de a encetar se extingue

tudo fica por fazer e nada se completa
não há melhor indício de que a eternidade está mesmo ali
ao alcance de uma intenção e de uns quantos atabalhoados versos


ps - Foz do Douro, Porto, julho 2013

dia 73 - distância

a distância entre as coisas
é uma entidade em si mesma
dialoga como tudo o resto que se vai revelando por aí
mas nem sempre se decifra o que vai proferindo

ela flui e navega por um meio que ora dilata ora contrai
levando-nos atrás por essas correntes secretas
cruzando os intervalos que o olhar soluça e as esperas ditam

por vezes
no contraste entre o céu e um edifício que parece surgir do nada
uma lua desponta à deriva pelas marés celestes

a vertigem implode num estremecimento interno

é então
que por milagre
o espaço que separa as coisas implode
tanto na origem como no destino
e qual íman entre os dois
olhar e lua desabam um sobre o outro

isso dura um instante
mas ainda assim o suficiente para que o tempo se perca
e dele sobrar um pouco menos de infinito


ps- Foz do Douro, Porto, maio 2016

dia 72 - compulsivo

desde sempre que ele falava de causas perdidas
ao mesmo tempo que celebrava o estremecimento da existência

aparecia à janela a gritar

desejo viver assim
com a sede que vem sem avisar
só não quero é morrer da mesma forma
sedento sem perceber

e voltava a recolher-se enquanto a cidade ia sendo lá fora
no compasso habitual de ser urbe
com os cheiros a asfalto e embraiagens gastas
os motores a grunhir nos arranques e as buzinas a palpitarem aqui e ali

lá dentro
ele ia acumulando esperas até ser hora de voltar a debruçar-se
calcorreava o caminho puído do quarto à sala da sala à cozinha
esfregando o rosto e passando as mãos pelo cabelo na luta perdida de o tirar da frente dos olhos

ocorria um duelo permanente entre o abandono e a loucura
ora caia um ora esbracejava a outra
e ele no meio
a assistir
apostando num vencedor sem grande convicção

haveria de chegar o dia
em que à janela
ou a cidade já não lá não estaria
ou ela o engoliria de uma só vez

como jogar um cara ou coroa com a última moeda
e depois de saber o resultado
fosse ele qual fosse
quase que o consigo ouvir deste lado a perguntar ao éter

à melhor de três


ps- São Paulo, Brasil, maio 2018

dia 71 - assombro

existem sombras feitas de luz e de cor
são a luminescência mais o eco por onde passou
e derramam um esboço líquido que tinge um destino numa escrita por decifrar

um plasma que se recusa moldar
vibra e contorna texturas que encontra no desaguar

o que traz é declamado em mistério
em código abstrato órfão de uma chave que o revele
joga nesse limite do que parece e do que verdadeiramente será

por vezes
o passar do tempo resvala como as brisas
têm tacto e afago subtil
como aqueles momentos de leve embriaguez em tardes lentas

um olhar que se dissolve pelo que vê
agregando-se por uma osmose literária ou somente emocional

os pequenos milagres inúteis da existência
ainda assim tão necessários ao deslumbre e ao pasmo

uma alma resiste a tudo
menos à falta de um assombro de quando em vez


ps- Vinum, Vila Nova de Gaia, fevereiro 2019

dia 70 - postura

vinha de vez em quando
quando os dias chuvosos iam desaparecendo e as noites demoravam a chegar

sentava-se sempre no mesmo lugar
pedia uma daquelas bebidas clássicas servidas em copos estranhos

falava baixo

às vezes fico a olhar o meu sofá
com a cova no mesmo sítio
testemunha de um corpo que se afundou horas e horas
o indício de uma solidão preguiçosa

na outra ponta o gato dobrado ao meio num sono interminável
no ecrã a ausência das reticências cintilantes
ninguém a escrever de volta
mesmo se não havia resposta ao que eu própria não escrevi
um silêncio apático tão grande que acabo por sair

pelo menos aqui tenho resquícios de mundo para onde atirar o olhar
e em vez de um sofá uma poltrona que me obriga a uma postura distinta

ninguém a abordava
cada um vagueava pelas suas sombras
a bebida ia mingando por entre as distrações
mas o porte
esse
sustinha-se como uma afirmação indesmentível

um corpo ainda vai sendo mais do que contorno e silhueta
ele emana uma certa forma de resiliência
mesmo desfolhando-se até dar a volta à própria nudez


ps- obra de Pablo Picasso, "Femme assise dans un fauteuil" (1910), Centro Pompidou, Paris, dezembro 2024

dia 69 - teoria poética

ele aceitava que os versos quebrassem antes do fôlego
que obrigassem a uma releitura até que se acertasse o supostamente pretendido pelo poeta

o que ele não entendia
era quando o próprio autor
ao ler em voz alta
recusava a quebra e ia buscar ao verso seguinte a continuação do sopro anterior

para ele
isso era ter a mania
e enquanto ouvia declamações de outros
abanava a cabeça incrédulo e ia dizendo

um verso vai até ao fim
e depois do fim fica calado até que o outro comece
sim eu sei
cada um sabe de si e essas coisas todas
mas então
que lhes caiba ouvir da minha parte um ide enganar o

isso
reticências

só que eu não acredito em pontuações
só intuições

vi-o afastar-se
desistindo de ouvir e avançando para longe
uma lua a espreitar por entre a poalha do ocaso
gaivotas lado a lado a espiar a chegada da noite
enquanto versos iam sendo lidos sem respeito pelos horizontes onde se estenderam


ps - Porto, março 2017

dia 68 - tragando

não havia grande mistério
a tarde ia a meio e as portas estavam abertas para a rua
a luz tinha o sabor tímido de um fim de inverno
ou talvez fosse a memória dessas coisas que entrava pelo bar dentro

há sempre uma dúvida que paira
a incerteza entre o que é real e o que é lembrança

seria fácil saber
se a imagem se embaciasse na hora
e a névoa se dissipasse de seguida como nos espelhos

o que é certo é que o copo esperava
o líquido dourado a prometer uma breve doçura antes do fogo
o gelo a consumir-se na diluição inevitável
prolongando o tempo mas também dissolvendo-o
elevando o paradoxo da demora mas também do desaparecimento
a cada trago um adiamento e um sonho menos concreto

a indefinição a revelar-se
a ser
a valer-se e a subsistir
como as ondas
não as que chegam à praia
mas antes aquelas ondulações que cremos avistar ao longe
a embalar o horizonte e a hipnotizar barcos e seduzir marinheiros

tragando
ao ritmo do que foi sede e passou a rendição
à deriva
do que era rumo e passou a poesia


ps - Candelabro, Porto, fevereiro 2025

dia 67 - vontade

para moldar a luz ou ela moldar-nos as mãos 
há primeiro que acreditar
mas ela não era de acreditar
não que fosse a desconfiança a razão
mas antes um desinteresse 
uma forma de não trocar por nada o pedaço de liberdade que lhe cabia
sim
talvez fosse uma cisma
mas era irremediável

há espíritos que são indomáveis
que não quebram mesmo se torturados
as raízes que os sustentam descendem das entranhas dos mitos e lendas
são forjadas num fogo primordial que não se apaga nunca

ela teria sucumbido a tudo
às muralhas de uma prisão
aos abusos e às injustiças
à falta de alimento e de calor humano

mas ao descrer
ao não pedir que a luz fosse moldável
ela não vergaria
pois o milagre era ela
e não se vence quem se recusa a ceder
a seiva encontra sempre um caminho
o apelo do sol é irresistível
e a eternidade não chega para calar uma vontade
nem impedir que os versos se amontoem
pois a queda não tem fim


ps - Viena, Áustria, abril 2022

dia 66 - desculpa para alguns versos

ele era um dos que acordava ao nascer da lua
espreguiçando-se por debaixo das poalhas noturnas que rodopiam em volta dos lampiões

falava sozinho
e com todos
dizia coisas com uma vontade que parecia vir de uma libertação qualquer

falo daquilo que se agarra aos ossos
mais do que à alma
que saliva em si mesmo
e onde nós só podemos ranger os dentes e grunhir
arder em fúria como uma febre
gritar amarfanhados numa almofada

depois desaparecia
engolido por uma viela ou furtado por uma esquina
deixando para trás um horizonte mais longínquo
um abandono mais silencioso
um céu em escamas nevoadas
um mar tímido e cansado
e uma desculpa para alguns versos


ps - Foz do Douro, fevereiro 2026

dia 65 - de tanto acabar

os dias quando acabam
na maior parte das vezes
esfumam-se na rotina

outros memoráveis tatuam-se na memória e fintam esses fins

mas há outros ainda
que antes do término
quando a noite galopa por mais uma janela de um quarto de hotel
se despenham de uma só vez

como um machado a cair num pedaço de madeira decepando-o sem dó
ou um piano clássico a defenestrar-se dum vigésimo andar e a esbardalhar-se no chão que o acolheu

um abalroamento tão repentino
que o dia parece implodir de uma vez
como aquelas estrelas massivas que de tão densas nem a luz deixam escapar

dias que de tanto acabar
entram pelo sono dentro
e só nos sonhos é que enfim encontram a sua sepultura


 ps - hoje, Goiânia, Brasil, março 2026

dia 64 - propagados

a conversa mais longa entre eles
durara duas ou três frases
o bastante para que houvesse conforto no silêncio
uma raridade preciosa que encontraram logo ali

partilharam a mudez entre bebidas e olhares lentos
num daqueles dias em que a noite estava tão atrasada
que quando chegou pouco faltava para ser amanhã

o cenário à volta espiava-os
fossem bonecas empoleiradas
relíquias empoeiradas
ou espelhos com molduras antigas cujo reflexo tinha cores sépia e abafadas
portais que desvendavam um outro tempo
um pretérito tímido mas que perdurava reverberando até eles

sobre a mesa os copos e por vezes uma mão ou um braço a descansar
os corpos a endireitarem-se na cadeira e no sofá à procura do aconchego perfeito
à volta as outras mesas com suas conversas
em suas próprias órbitas e translações em redor de um momento
ou talvez fosse a ventoinha no teto a rodar
e eles propagados por esse volteio
deixando-se ir até o futuro chegar e a quietude cumprir-se


ps - Pub Bonaparte, Foz do Douro, agosto 2021

dia 63 - apócrifo

dei por mim
numa noite em que estava sóbrio
a vasculhar velhos cadernos que roubara na véspera

por lá
li umas citações recolhidas pelo anterior proprietário dos ditos cadernos
eram tiradas de um bêbado com quem
pelos vistos
partilhava serões à volta de um interminável carrossel de bebidas

dei por mim a lê-las em voz alta

a diferença entre amanhecer e anoitecer
não existe
a diferença está no depois

quando saltei para a morte
do alto do prédio
o que vi durante a queda
foi a silhueta das janelas passarem por mim numa pressa que desconhecia
depois o chão engoliu-me e eu acordei para lá de mim

soube que te amava quando me lembrei daquele dia
em que fui encontrar-te à porta
pronta para sair de casaco vestido
recordo que endireitei-te a gola e fomos

passei uma existência sentado
durou mais ou menos tempo
mas durou
e fui nesse entretanto
ambiguamente mudando e intercalando estados
como no mundo do infinitamente pequeno
nessas metamorfoses delicadas e subtis
o meu corpo eu e a minha alma
revelou-se bizarro aos olhos dos outros
mas na verdade
os outros é que se deformam e se bestializam
eu sou absolutamente irrepreensível 


ps - Figura Sentada (1960) de Francis Bacon, obra exposta no museu Albertina, Viena, abril 2022

dia 62 - insular

não era propriamente um lugar
era uma estrada e uns quantos sinais
um caminho para o tempo não passar

um lugar exige um peso que o prenda ao chão
um alicerce qualquer que sustenha uma carga
um espaço para que haja história
para que coisas possam acontecer

ali
a luz e as sombras tinham um outro pacto
falavam uma outra língua
e o que parecia ser sítio
era etéreo e onírico
era uma dúvida e uma curiosidade

uma ilha
insular por dentro da alma
à deriva
onde quase sempre a terra era negra
e doutras vezes verde até doerem os olhos
o céu era branco até se confundir com a página de um caderno
ou tão azul que tudo parecia despenhar-se por ele adentro


ps - Ilha de São Miguel, Açores, junho 2017

dia 61 - culpas

pelos séculos
as confissões foram ecoando
herdadas e deserdadas às mãos dos que foram aparecendo

existem culpas que passaram por gerações
outras que se perderam
até não serem mais que órfãs sem lugar por onde remoer

nos templos
sob as abóbodas ou outras coberturas
dentro de muros ou atrás de portões
ainda hoje
jazem as que perduraram
à deriva numa imensidão de silêncios sem nome

elas são os alicerces do que teima em não ruir

é sabido
nada dura tanto como um arrependimento e uma penitência


ps - Amersfoort, Países Baixos, junho 2018

dia 60 - do alto

afundam-se
em lugares quietos

ora cobrem-se de seda e cetim
ora ficam nus à procura de um deus ou outro

no espaço exíguo de uma vida
há ainda assim muito caminho a desbravar
muitos silêncios por engolir e segredos por desfazer

eles são discretos
mas os corpos não deixam de ter a sede dos amantes
os olhos não deixam de seguir os voos nervosos das moscas no verão

a contrição a que se prestam
nasceu não se sabe bem onde
e hoje é órfã
por isso poucos a abandonam

eles vão seguindo um norte só deles
vagando pelas estações como alguns pássaros

imbuídos numa missão que desconheço
mas que intuo ao vê-los juntarem-se na orla das praias do outono
e nas colinas cujas estradas serpenteiam por curvas e contracurvas

no fim
eu sigo-os ao longe
daqui
do alto de umas palavras
da torre de uns versos
e do aborrecimento de uma espera

e muito provavelmente
por tão longe deles estar
o que escrevi não será bem verdade

mas também
quando é que o que se escreve
alguma vez é verdade

ou mentira


ps - vista da Quinta dos Malvedos para a margem sul do Rio do Douro, novembro 2025