teria chegado
como eu
num voo mais pelos céus de sempre
com as rotinas bem definidas nesta vida de hotéis e viagens
ouvia-o a desfazer a mala
a organizar o dia seguinte
do meu lado era o caos que eu tinha escolhido
uma desarrumação de cansaço
moedas espalhadas pela mesa e uma garrafa de água de cortesia já meia bebida
com certeza nos cruzaríamos no elevador
ou no pequeno almoço
ele vestido e de cara lavada
eu de calções e os olhos semicerrados em luta com a manhã
ele a comer fruta e iogurte e aveias
eu a hesitar entre os ovos mexidos o bacon e uns bolos doces e artificiais
ele a ler notícias no telemóvel
eu a arrastar imagens numa rede social qualquer
ele pronto para sair
eu ainda a ter de subir ao quarto e acabar com o sono de vez
a vestir-me à pressa com mais uma cápsula de café a estremecer na máquina e verter-se para um copo de papel
mas tudo isto não era bem assim
nem ele nem eu existimos de verdade
nem mesmo uma mistura de ambos pálida e cinzenta
na verdade
o que existe pelos corredores destes lugares
pelas praças destas cidades que se visitam em trabalho
pelos metros e autocarros e avenidas
é uma forma de silêncio e de solidão
e nessa embriaguez
esse silêncio e solidão levam-me a imaginar estes cenários
a percorrer uma possibilidade que nunca existiu mas que fulminou ainda assim
talvez seja uma maneira de criar um ninho longe do ninho
porque há um uivo de liberdade nestes sítios remotos de mim mesmo
como se eu fosse o batedor da minha alma
e por essas incursões
chegasse às falésias do espírito que nem sabia existirem
também pode ser
que tudo isto afinal
seja um passatempo
um caminho para que o corpo e o âmago se reencontrem em compasso
e dessa forma
aproveitem em pleno a cama lavada que os espera
Sem comentários:
Enviar um comentário