dia 244 - escolha

a intimidade que ela conhecia era de um outro tipo
vozeava numa língua que só ela entendia
e o que dizia parecia inundá-la de uma inteligência que também só ela alcançava

estas coisas seduziam todos os que a encontravam
semeavam neles uma mistura de inveja e devoção
levando-os a procurá-la na esperança de também eles entenderem os mistérios

ela recebia-os
ouvia-os até as palavras deixarem de ecoar

aguardava em silêncio até que se incomodassem e exigissem uma resposta
era então que abria os braços e lhes dizia

depois

adiava em permanência o que buscavam
e pedia-lhes que voltassem noutro dia
que agora
e esse agora era sempre
ela tinha silêncios à espera e fogos para atear em segredo
que eles se fossem e não insistissem
que o que pedem exige esperar até que os ventos ocultos da natureza lhe autorizem partilhar o que procuram

e uma imensidão de depois passados
consumiu o tempo por inteiro até não sobrar tempo algum
tinha esgotado o que uma promessa podia conter até que se desmoronou

o depois nunca chegou
e a jura violou-se a ela mesma
deixou por cumprir aquilo a que se comprometera
e quando isso acontece
medra um sentimento de retribuição
nasce um outro tipo de voto no âmago dos atraiçoados
um sentimento de vingança que não se apaga até que se faça justiça ou jorre sangue

chamaram-na de bruxa
ameaçaram-na com o mesmo fogo que ela aviva nas traseiras do barraco onde pernoitava

uns
até chegaram a empurrá-la
e de dedo em riste exigiam saber o que ela sabia

deram-lhe um prazo
duas madrugadas e nem uma mais
que voltariam com forquilhas corda madeira e chamas

ela levantou-se
concordou e anuiu
daqui a duas madrugadas que viessem
não precisariam das forquilhas de madeira nem de chamas
que ela lhes resolveria os mistérios e que eles saberiam a verdade finalmente

passaram-se as duas noites
sendo que a última suspirara há pouco sob a maior das luas

ao chegarem ao barraco
ela esperava-os do lado de dentro sentada num cadeirão e de olhos fechados

quando se preparavam para entrar
ela disse

o que procuram
trouxe-vos até aqui

mas aqui
não há nada mais senão uma escolha

ela é vossa e de mais ninguém

é esse o mistério
e é esse o segredo

atordoados pelas palavras
aguardaram por um esclarecimento que nunca chegou

e até hoje
quando alguém conta esta história
acaba sempre no mesmo instante
ela sentada de olhos fechados
e eles suspensos em silêncio com uma escolha por fazer


Bruxelas, Bélgica, março de 2019

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