dia 174 - meu amor

meu amor

e assim um início já diz muito
porque nas voltas do mundo
nos infinitos do que nos calham
na imensidão dos acasos e azares
há um lugar onde só ela cabe

sim
é certo que cada um vai vivendo incêndios ao longo do tempo 
que na sorte de se estar vivo podemos fulminar em paixão
há no coração um mapa atado à cronologia

mas é o presente que bate a cadência e que sustenta o futuro

meu amor

e o dueto de palavras diz tanto
ele é entrega
rendição

e o que parece exagero só o é aos olhos de quem não vê
ou de quem se distrai ou esqueceu
porque não há alma que não saiba o que é ansiar por uns lábios
por um corpo
por uma mão a entrar nos cabelos junto ao pescoço
por uma língua
seja húmida ou com sotaque ou de cetim ou veludo

meu amor

e o que escrever depois
o que dizer que confesse esta sede de ti
este périplo até que me despenhe no teu colo

meu amor

no silêncio
sob a luz oblíqua dos solstícios ou na exatidão de um equinócio
o emaranhado dos teus caracóis a esperar-me
enrodilhando em labirintos onde já me perdi de vez
onde já me perdi para sempre
como é devido nestas coisas

a tua silhueta nas curvas dos bósforos da minha perdição
certas esquinas da tua pele que me negas a espaços por cócegas e arrepios semeados há milénios
os teus olhos a fugirem quando os meus se atardam sobre o teu rosto
a tua mão na minha perna nas manhãs em que saímos juntos de carro
pousada como se ali fosse o destino traçado e inexorável

meu amor

e é só


Ilha do Pico, Açores, junho de 2024

dia 173 - antes do tempo

o que as palavras diziam era ainda um mistério
mas os olhos tinham passado por elas de relance

tinha chegado mais cedo do que o previsto
não era suposto tê-los visto a guardarem os papéis sobre os quais tinham escrito a noite toda

incomodados pediram-lhe para esperar fora
que aguardasse até o mandarem entrar para limpar a sala como combinado

ele sabia que durante a madrugada juntavam-se às dezenas a escrever
e algo lhe dizia que desses muitos um ou outro estavam coagidos
esses saíam pelas traseiras levados pelos que vestiam fato preto camisa branca e gasta e uma gravata mal amanhada à volta do pescoço

tinha ouvido falar desses encontros noturnos
e quando um deles lhe perguntou se por uns trocos não se importava de limpar a sala à primeira hora da manhã
ele tinha dito que sim

das primeiras vezes chegara à hora combinada
a sala não tinha muito que limpar
uns copos de plástico com água morna uns lápis sem ponta e umas folhas amarrotadas sem nada escrito

mas hoje
calhou de chegar cedo e perdido na apatia rotineira entrara de rompante
vira a sair pela porta de trás um homem empurrado por um dos tais de fato
e numa das pontas da mesa comprida
dois outros arrumavam em caixas páginas inundadas de versos

não chegou a ler
mas era evidente tratar-se de poesia

um deles mais perto da entrada
pôs-lhe a mão no peito e enxotou-o para fora de novo e disse

espera

a voz era rouca e impiedosa

enquanto aguardava fumou um cigarro
tentou ouvir o que diziam lá dentro mas em vão
e até lhe darem acesso o silêncio tinha sido denso e pesado

quando voltou a entrar já só estava um dos homens presente
ficou com ele até a sala ficar limpa e acompanhou-o à saída no fim

antes de se separarem o homem disse-lhe

não precisa de vir mais
obrigado

virou costas e desapareceu no prédio devoluto onde tudo acontecera
deixando-o sozinho com o caminho de volta a casa pela frente

enquanto o percorreu imaginou o que diriam os versos que quase leu
se eram sobre o amor ou o ódio
sobre grandes feitos ou atos de coragem singulares
ou quem sabe
se eram sobre alguém que chegou antes do tempo e que viu o que não era suposto ter visto

talvez fosse isso
talvez


Bodega El Capricho, Léon, Espanha, fevereiro de 2026

dia 172 - compadecer

vêm de uma linhagem de gente desiludida
habituados a uma certa melancolia
herdaram o abatimento dos antepassados
ao mesmo tempo que cultivam por cima desse terreno desolado um certo desdém pelas coisas

eu vejo-os por vezes à volta de um banco à hora do ocaso
uns em silêncio outros a murmurar desabafos

enquanto o sol não cai de vez
vão olhando quem passa e fazendo contas ao que sobra de luz
sabem que já faltou mais para que não reste nada

partilham os segredos que imaginam ser verdade
guardam-nos fundo num canto qualquer da alma e provavelmente repetem-nos à noite antes de dormir

sabem que um dia os deuses vão deixar de acreditar no mundo
perdidos na própria arrogância
esquecidos de que foram eles que o criaram abandonando a humanidade num manto de culpa

a própria penitência esvaziou-se
o caminho foi engolido por uma selva inesperada e indesbrabável

ficam assim à porta do futuro
sem conseguirem entrar
estagnados num destino imóvel enquanto tudo o resto ocorre sem dó

nunca cheguei a juntar-me
mas nasceu em mim um sentimento solidário para com essas almas
procurei timidamente fazer-lhes sinal
mas onde eles vivem não chegaram as minhas patéticas intenções

amanhã serão só uma lembrança gasta
eu próprio já não terei olhar que chegue para os alcançar
o vazio que vão deixar
rapidamente cairá em silêncio até ser substituído por outros devaneios

não se interrompe o porvir
ele é inevitável
sorve o presente na correnteza irremediável de cronos

para trás ficam eles
condenados por uma âncora que os atraca de vez
enraizada no antanho
tatuada num código pré-genético

são criaturas fadadas a um lamento
agarram-se a uma jangada existencial à deriva na tempestade cósmica da condição humana

são náufragos bem entendido
mas por pouco
noutras circunstâncias
com cartas melhores para jogar no tabuleiro da vida
teriam sido piratas

em vez de espectros condenados a compadecer


Hazul, Rua 31 de janeiro, Porto, outubro de 2023

dia 171 - alguns eus

ir ao encontro de todos os escapes
de partir com as possibilidades do que se imagina
mas também daquilo que nunca foi sonhado sequer

deverá ser verdade que tudo o que nunca aconteceu
preenche mais infinito do que aquilo que acontece

mas todos os dias alguma coisa tenta matar-me e acaba sempre por falhar
e eu
então
celebro na corda bamba do horizonte
no equilíbrio possível
por mais um dia que irá nascer

mas este eu é um embuste
ele vai desempenhando o papel momentâneo de ser verdadeiro
de acreditar no que diz e no que conta
mas o seu mundo é lasso
assenta em solos movediços e sujeitos a derrocadas definitivas

é um eu a prazo
como um cometa de passagem que vozeia enquanto é visível
mas que minga e se afasta numa órbita inalcançável

ao lado um outro eu escuta
que julga cada palavra
que procura na mesquinhez da sua natureza a satisfação de um tirano

mas esse também caminha em telhados de vidro
dorme com medo todas as noites
com vergonha e remorso da pequenez que carrega

tudo isto é um jogo de espelhos
e esses dois eus afinal navegam num mar de tantos outros
uns que se olham de frente outros cujo rosto desparece em ângulos impossíveis de contornar

o caleidoscópio de um ego exposto por um instante
até que colapsa na implosão inevitável das palavras que escreve

é certo que vamos sendo muita coisa ao longo do tempo
mas há um momento em que só podemos ser o que somos


Estação Europe, Paris, junho 2026

dia 170 - alude

um lugar vazio
tão vazio que é um lugar sem lugar algum
lida com a textura das ausências e das promessas quebradas
alimenta-se de expectativas que tendo sido criadas na origem acabam por se perder num labirinto qualquer
e para além de se perderem no percurso desempossam-se também de vocação e de razão de ser
acabam por se esfumar algures e só um eco subtil chega então a este deserto de deserto

nem o desalento aqui desagua
é um paradoxo o que se estende no descampado que se apresenta
por um lado é feito de infinito
por outro não há espaço para caber o que quer que seja

fica a imagem
ou a ideia de uma imagem
como quando se fala de amor
ele é o que é mais aquilo que projeta numa alma desprevenida
e quantas vezes não nos regemos por aquilo que projeta em vez de nos regermos por aquilo que é

as paixões cujos incêndios vemos lavrar para lá da lenha inicial
os sonhos que carregamos já fora de prazo
as pequenas manias que vamos cismando até serem diagnosticadas

este ermo sem coordenadas
vai habitando para lá dele mesmo
existe numa realidade onde nasce e dispara pela existência sem chegar quase a aflorá-la
como os neutrinos que atravessam o cosmos e nos fulminam a cada segundo sem sequer nos darmos conta

as próprias palavras por lá reverberam de outra forma
os versos não se sustentam e a poesia confunde-se e entrelaça-se até desexistir num nó tão cego que o que vê é o que nunca aconteceu
e depois
no fim
fica o rumor do silêncio que não fala nem diz mas que se eleva com outro verbo

alude

que é um meio caminho andado entre o nada e o muito pouco
enquanto que o outro meio caminho por andar fica mudo tão mudo que o universo desnasce


Parque Nacional de Timanfaya, Lanzarote, Ilhas Canárias, agosto de 2015

dia 169 - o corajoso

não ia em direção alguma
e ainda assim movia-se num sentido qualquer que ainda não fora nomeado

a rosa dos ventos perdera as pétalas e o mundo oscilava para lá das orientações conhecidas
um vórtice paradimensional levava-o sem que à volta se pudesse perceber bem o que se passava

esta visão era registada pelos que o esperavam deste lado
rodeando-o até que a transe cessasse

aguardavam que ele regressasse para falar as coisas antigas de uma forma nova
ou coisas novas numa língua antiga
eram fiéis
dependiam desses dizeres para seguir com a própria vida
habituaram-se a que ele lhes indicasse os caminhos a seguir e os perigos a evitar

o culto crescera nos últimos tempos
ele chegara carregado por uma brisa e com muitas certezas para partilhar
encontrou-os perdidos e sedentos de liderança
juntou-os quando mais ninguém acreditava que o futuro existia

porque era disso que se tratava
de imaginar um depois do agora

ele chegara a um lugar em que o tempo emudecera e as pessoas não olhavam em frente
havia tanto de solidão como de desinteresse
como se até a dor tivesse perdido o pé num mar de desdém
nem o luto cabia e muito menos a esperança

o fenómeno era-lhe estranho
mas sabia ter a solução
e assim foi reunindo as hostes
unindo os descrentes
associando os voluntários

deu-lhes palavras que não entendiam
inventou uma forma de dizer coisas
prestou-se a experiências psicotrópicas que o atiravam para surtos dos quais voltava com novas soluções

os desconfiados achavam-no louco
e aos que o seguiam ainda mais loucos

mas a verdade
é que a loucura é uma medida do excesso
e o excesso está para lá da fronteira dos covardes
ele não esperava que o entendessem
sabia bem
que coragem não é para todos


Obra de Jackson Pollock, Number 21, Kunsthaus Zurique, Suiça, abril de 2025

dia 168 - ânsias

por vezes basta um pequeno pormenor
como uma farpa a teimar em dor intermitente na ponta de um dedo que nem serve para grande coisa
e tudo o resto à volta transfigura-se
dissolve-se num caos difuso e incoerente

a nódoa subtil na toalha da mesa
um quadro ligeiramente inclinado na parede mais afastada
ou quem sabe
o mundo inteiro é que oscilou e o quadro até está alinhado

estas coisas entram numa mente obcecada e medram sem freio
tomam conta de uma alma e aos poucos enlouquecem-na

eles bem tentam vir com terapias e meditações
mas esbarram num lugar que não crê nessas curas
ali as leis são outras e as cismas imperam com a firmeza de um delírio

a noite lancetada a golpes de uma tosse seca que não se sabe de onde apareceu mas que insiste em não desaparecer

um poema rasurado qual documento secreto
como se a poesia pudesse alguma vez ser censurada

as palavras que tropeçam numa atabalhoada dislexia por diagnosticar
umas mãos cuja sina desde sempre se revelou errada e incapaz de se tornar realidade
o cabelo que só parece estar perfeito no dia a seguir ao corte nunca antes e muito menos depois

estes desiquilíbrios da vida que se tornam parasitas
que se alimentam de tempo
que o trincam até os dentes rangerem e a boca cuspi-lo pela janela do carro que acelera estrada fora

o suor que se manifesta atrasado
horas depois do esforço
como se tivesse à espera
ao contrário do sono que desponta cedo
fora de horas e sem aviso
como um predador ou assassino

até que a farpa acaba por sair
e do corpo esvoaçam as ânsias como um bando de pássaros assustados
erguem-se desvairados sacudindo as asas como se não houvesse amanhã
lançados ao horizonte como que a fugir do apocalipse

para trás o alívio e o cansaço de um espírito rendido
grato por uns momentos de sossego
o sabor de uma paz que sabe ser efémera e frágil
o dedo inútil a regressar ao anonimato
a toalha da mesa trocada
o quadro enquadrado de novo
a tosse serenada
e os versos livres finalmente


Céu do Rio de Janeiro, Brasil, junho 2026

dia 167 - os que ficaram

ele foi semeando com afinco a própria presença
aos poucos
mesmo sendo o mais recente nos encontros
parecia já um veterano

quando era a vez dele falar
todos sabíamos o que ia dizer e mesmo assim todos ouvíamos com atenção

fugi de ter falecido
e nessa fuga soube perdoar-me

abria sempre os discursos com estas palavras
para depois se lançar num monólogo imparável

o que proferia apesar de não fazer sentido
entretinha a ideia de ser verdade
no caos da palestra as frases encontravam um destino

há viagens cujo caminho acaba por ser desconhecido
mas a meta ilumina-se como um farol ao largo de uma noite fechada

quando soubemos que afinal ele era uma fraude
que se tinha imiscuído no grupo para pagar uma dívida
que inventara um nome e uma história
que não acreditava sequer naquilo que dizia
a desilusão contaminou-nos até ao próprio lamento se esgotar

muitos queriam procurá-lo
tirar satisfações
exigir compensações
ver com os olhos e ouvir de viva voz a enganação

no fundo queríamos a confissão
queríamos a desculpa para um castigo
sentíamos sede de juiz e carrasco

mas o mais velho de nós avisou

a vingança é uma âncora mais no passado

e esse aviso refreou alguns de nós
uns covardes uns ajuizados

mas outros havia ainda que não fizeram caso
que partiram à procura do homem com facas nos bolsos e cordas sob os braços

hoje
passados muitos anos
nem dele nem desses que foram atrás chegaram notícias

os que agora falam recusam o tema
e os que ouvem não escutam por dentro senão outra coisa
mas saber-se do desfecho ninguém sabe

e na verdade
dos que por cá ficaram
também pouco se sabe


Amesterdão, março de 2018

dia 166 - perpétuo

o que se revela
por vezes
apanha-nos desprevenidos
surge muitas vezes pela calada de uma noite em pleno dia até

de várias formas estas coisas já foram ditas
mas o que conta é a novidade que trazem
seja por de facto serem novas ou serem somente fruto de um esquecimento
acabam por valer o mesmo pois clamam por esse instante inédito e vibram num canto da alma que desconhecíamos

há uma subtil centelha inesperada a faiscar num breu profundo
e dessa iluminação manifesta-se uma presença inevitável
mesmo se tímida e sem rumo
ela é
e ser
tem o peso de um infinito

há um rosto que rompe o tecido da ausência
exibe-se
e com isso não só divulga os contornos de um perfil
como atesta a evidência de existir
e desse absentismo brota uma companhia etérea
e o deserto da solidão evapora-se num alento de comunhão
na prova derradeira  de que afinal não estamos sós

o paradoxo está no efémero e eterno
eles dançam vindos da sombra que tudo cobre quando não há talento nem imaginação
essa coreografia de uma pose que durou um segundo e ainda assim perdura para sempre

fica-se a olhar
calhou-nos nas contas do acaso testemunharmos um milagre
não era suposto vislumbrarmos a imortalidade
ela alegadamente pertence só às divindades impostas pela criação

mas aqui estamos
inegavelmente

e no raro lampejo que irrompe qual incêndio desmesurado pelo pasmo
o assombro acaba

mas acaba

por ser

perpétuo


Retrato de Rosa Carneio por António Carneiro, Museu Amadeo Souza-Cardoso em Amarante, junho de 2026

dia 165 - calendários

um suspiro caiu
tão baixo que nem tristeza nem alívio chegou a ser

esvaziou-se em sopro
resvalou oco nas catacumbas do que não se alcança

os pulmões encheram-se de noite enquanto o céu fingiu escapar-se

há silêncios que duram sempre mais um pouco
que se alongam para lá do suposto até finalmente cederem

não se pode adiar o inevitável
existe um prazo fixo para as demoras

os fogos ardem apesar dos jejuns e das promessas dos homens
eles projetam sombras até o dia nascer
desenham sobre as colinas e as encostas silhuetas e mensagens por descodificar

as poeiras de leste vão pousando sobre a terra depois de rodopios sem fim
o tempo coalha até fixar-se numa lembrança difusa

os versos carregam incertezas antigas 
não se sabe se já terão sido escritos ou se ainda estão por nascer
e nas asas dessa dúvida desenham voos em parábolas no firmamento
esvoaçam até terem voz que se petrifique e se grave nos diários da existência

não se explicam os murmúrios que ascendem do chão nas noites de verão
nem as chuvas repentinas que caem numa véspera qualquer

há sempre um depois de amanhã nos calendários secretos da poesia


Monverde Wine Experience Hotel, Telões, junho de 2026

dia 164 - o isolado

atravessou a noite sem acender a luz
como se tivesse esquecido que ela existia
passou por uma sede sem saber sequer que podia matá-la a qualquer momento
porque até o pudor tem critérios
ele não pulula ao acaso nem se dá a caprichos

o corpo escondia o que ia reverberando em silêncio
fosse por baixo dos lençóis fosse nos largos minutos sob o chuveiro até a pele encarquilhar

o mundo lá fora ia rebentando numa tempestade
ir espreitá-lo à janela era perigoso
havia que ir rente ao chão e erguer o olhar com cuidado junto ao vidro
a casa abanava por inteiro e os relâmpagos pareciam fulminar cada vez mais perto

até que passou
e a rua e os passeios voltaram ao sítio
talvez uma ou outra árvore estivesse mais inclinada mas de resto tudo igual a antes

não restavam testemunhas do que acontecera
ele metido em casa e um temporal que se calhar nem fora verdadeiro
não havia como verificar

havia que sair para perguntar
saber se a vida continuava igual
se as pessoas ainda se juntavam e se enviavam aos céus sinais de que estavam vivas
havia que sondar o que restava de madrugada para ter a certeza que o sol voltaria a nascer

essas ponderações arrastavam-se numa inércia que o prendia
ora quieto na sala à espera que alguma coisa acontecesse
ora nervoso a calçar-se e a descalçar-se na intenção de ir lá fora

há anos que não deixava a casa
ou assim parecia
enraizara-se numa agorafobia inesperada
talvez até mentirosa
se calhar era só uma preguiça antiga ou um aborrecimento
não sabia dizer

os livros que tinha não o explicavam
lera-os e relera-os até saber de cor os finais
as roupas velhas já não lhe serviam como dantes ou era ele que não servia
vestira-as e despira-as até não fazerem sentido fosse no corpo ou arrumadas no armário
a rotina que no início se inspirara numa devoção à disciplina era agora oca e inconsequente

em breve havia que decidir
a questão estava não no verbo mas no que lhe precede
decidir o quê

e na vida
há quês dos quais não se escapa


Hotel Maksoud Plaza, São Paulo, outubro de 2018

dia 163 - derradeiro precipício

no caleidoscópio de uma febre
a força que alimenta um abandono uiva para lá da lua
a rendição do corpo perante uma vaga de suor que parecia habitar em segredo
e que agora inunda a madrugada onde o náufrago dá à costa

a língua só vai até onde as palavras a levam
para lá delas o silêncio impera

os dedos vão despejando a tinta de um poema
verso a verso como sempre
amontoados até onde a própria luz e leitura não conseguem chegar

a impaciência que surge após uma queda
o fervor da alma que não quer desistir enquanto o cadáver esfria
o coração que volta a pulsar sem se saber bem porquê
como os milagres que alguém ditou no antanho
e que agora vertem como água da boca do ressuscitado

uma segunda vida então
e só se lembra das palavras que leu um dia e que diziam

ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes *

mas ele lá se levanta de novo
e se numa vida não pecou que chegasse para merecer morrer duas vezes
com certeza numa existência mais o mérito cunhar-se-ia

os lábios morde-os até sangrarem
para os lamber até à anemia do espírito
sorver a textura das coisas para poder voar leve no delírio que o acomete
planar na loucura possível até que arda de vez e nas cinzas desse incêndio esconder o mistério que ele próprio desconhece

ensinaram que tudo se resume a uma permissa
que tudo começa por uma fundação
pelo alicerce que sustenta o que virá
pelo suporte que teime contra a gravidade

mas isso tudo é efémero e demasiado aborrecido

no vislumbre dos assombros
nos fogos indomáveis do ser
a verdade é outra e galopa sem freio

porque tal como cavar um buraco
a poesia inicia-se de cima para baixo
até ao fundo que não tem fim
ela é o salto do derradeiro precipício

*José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo



Alto Mira, Santo Antão, Cabo Verde, dezembro 2016

dia 162 - espelho mágico

ela apercebeu-se
após ter viajado pela imaginação
que afinal não tinha deixado o reflexo do espelho

por onde andara nessa jornada de fantasia apagara-se nesse instante
como quem desliga a luz no quarto na hora de ir dormir

recordou a irmandade que se sente num funeral
quando o caixão desce enfim para o buraco e um primeiro punhado de terra esgravata a madeira do tampo
não há como não sentir o que todos sentem quando se caminha em direção à saída do cemitério
haverá um dia em que seremos nós a ficar para trás

lá estava ela de novo a insistir num devaneio
o espelho parecia prendê-la e o atraso que se ia acumulando pesava-lhe ainda mais na alma

talvez já não saísse
faltava-lhe alento
aqui perante o reflexo e um marasmo cada vez mais espesso
acabava por sentir-se bem
ou pelo menos não tão mal como provavelmente se iria sentir se fosse onde tinha de ir

decisões
elas implicam sempre mais do que a escolha
escolher acaba por ser fácil
são as consequências que atrapalham

acabou por ir
se calhar até chegaria a horas
e se calhar até tudo iria correr bem

sempre sentiu um certo otimismo tímido depois de horas de desconfiança
como um último ânimo desesperado
uma última prece aos deuses nos quais nunca acreditou de verdade

no caminho olhou a pele das mãos e seguiu os relevos das veias até desaparecerem nos punhos
entrando pelo corpo dentro como raízes antigas nas árvores que existem desde que temos memória

não a foi a última a chegar
alguns esperavam-na já e outros foram-se juntando

depois
quando estavam todos ou o horário o pediu
o silêncio foi sendo destilado por entre uma tosse aqui e ali até à mudez final que pareceu durar uma eternidade

chegara a hora dela
a campa dizia o nome e duas datas logo acima do epitáfio

viveu pelo reflexo de um espelho mágico


Templo dos Dioscuros no Vale dos Templos em Agrigento, Sicília, agosto de 2016

dia 161 - lugares

há lugares que se esfumam
são feitos de passagem
como algumas traças que vivem apenas um dia
isto se não se lançarem loucas para uma lâmpada a meio da noite 

esses lugares não dão tempo para grandes revelações nem traições 
eles consomem cada segundo
despenham-se para o momento seguinte sem olhar para trás 
são levados por uma pressa desconhecida e levam-nos também nesse frenesim 

o que não têm a perder não chegam a sentir falta 
e no registo do passado ficam-se por um quadro desfocado e uma descrição incompreensível
como a caligrafia dos médicos nas receitas de sempre

há uma espécie de insónia e amnésia que acompanham esta coisas
o nosso discernimento é toldado por um devaneio que se ergue
um jet lag irrecuperável 

vamos cumprindo a missão que desconhecemos mas que aceitamos por um qualquer compromisso de honra
vivemos segundo um código que herdámos e que se tatuou nos genes e nos guia o instinto

a consciência dita o inevitável 
seja uma ação ou um arrependimento 
qualquer um dos dois é vinculativo

estes lugares que não duram
ainda assim perduram
grudam-se em nós fulminantes

cada ruga conta essas histórias


Aeroporto de Lisboa, hoje

dia 160 - alucinações

não sei bem quando começou
mas a tradição mantinha-se

a meio do outono
quando as noites começavam a pedir um casaco
e até ao inverno se derramar de vez
juntavam-se em volta de fogueiras improvisadas

cada um ia dizendo coisas à vez
e no fim
o mais velho fazia as contas ao que fora dito e encerrava os encontros com um monólogo

parece que muitos precisam sempre de ser salvos
não porque os de fora assim achem
mas porque eles mesmo sentem que carecem de uma qualquer escapatória

os que vivem numa esperança alucinada
afinal carregam um luto incompleto
seja ele de alguém ou de um tempo
de um amor ou de uma outra perda irremediável

eu nunca me envolvia
calhei de estar por perto um dia e a partir de aí fui voltando para ver

alguns olhavam-me com desprezo
outros nem sequer reparavam

lembro-me de uma vez uma mulher ter dito

quero uma outra língua e uma outra casa
uma língua que rebente com os muros da cela
e uma casa onde caiba o sonho
quero sentir que no futuro eu possa ser o meu próprio refúgio

vários dos que ouviam aplaudiram
outros dormiam

uma outra vez o mais velho abordou-me
pediu um isqueiro e perguntou as horas
não lhe pude dar o primeiro nem responder ao segundo
e foi então que ele disse

amanhã vai chover
eu já tenho dificuldades em me lembrar do futuro
não é fácil escalar a memória
mais vale inventar um passado de raiz

eu fiz de conta que entendi e afastei-me
o frio apertava e já era tarde

a tradição mantinha-se
o médico bem me disse que as minhas alucinações eram vitalícias


Dragoeiro, Ilha do Pico, outubro de 2020

dia 159 - de onde não há saída

não se consegue pregar um prego no céu
embora me pergunte como é que a lua não cai
nem sequer descai quando o vento sopra forte

nos quartos há luz que transborda para a rua
ela é líquida e derrama-se até se perder pelo ralo da noite

há uma madrugada inteira pela frente
e o silêncio na rua é antigo e cansado

certos desertos não são de areia
são apenas feitos de nada e emanam solidão como o calor de certas pedras após um dia verão

a estas horas
se os fantasmas existissem sairiam para assombrar
ou contar histórias
talvez de guerreiros que morreram pela espada
ou amantes atraiçoados por ataques de luxúria
ou ainda criminosos arrependidos já tarde demais

há muita mudez para preencher
um infinito de quietude por desbravar
sede e fome para matar e saciar

e claro
há palavras e as incomensuráveis combinações possíveis de as encadear
uma a seguir a outra e assim sucessivamente

onde nunca nada aconteceu
tudo é permitido
sobretudo errar
falhar miseravelmente é até o mais provável
mesmo sem comparação no presente o futuro encarregar-se-á de julgar sumariamente
e desse julgamento a sentença será proferida

ninguém escapa de onde não há saída
basta saber que o ar não se vê e ainda assim existe

eu vou indo pela rua
o céu sem lua nem lugar onde cravar pregos
cada vez menos quartos iluminados
e apesar de ainda sobrar muito silêncio pela frente
ao menos
para trás algum dele já foi exorcizado
e as palavras que por lá arderam jazem em cinzas que o porvir sentenciará

como disse
não se escapa de onde não há saída


Hotel Maksoud, São Paulo, Brasil, outubro de 2018

dia 158 - até não caber no horizonte

ela parecia genuinamente despreocupada
como se soubesse de algum segredo

o mundo à volta não passava do olhar
ficava às portas da alma
acumulava não um brilho mas um timbre pardo que denunciava da parte dela um descomprometimento total com a existência
como um nevoeiro permanente em frente dos olhos

não era um abandono
era um atestado de que tudo vira e tudo vivera

não era também desprezo ou aborrecimento
era uma espécie de certeza de que não existiam surpresas

falava pouco
e o que dizia era definitivo sem se impor
mais do que evidências ou constatações eram verdades simples e desconcertantes

não sei se era feliz mas não era infeliz
ela ia sendo como vão sendo todas as coisas mundanas

se calhar não explico bem
mas pouco importa
só a vi uma vez e foram uns minutos

cheguei a estas conclusões como se chega à última estação de comboio num país estranho

escrevo tudo isto de pé no meio de uma multidão
e o que é incrível
penso eu
é que é verdade

ela desapareceu engolida numa esquina
e eu
dado e suscetível à desconexão
deixei isso acontecer

agora sentado e sem ela por perto
resta lembrar as artimanhas ocultas de como passar despercebido
mas nenhuma me ocorre
e cada segundo que passa parece que todos me olham
quando na verdade ninguém repara

mas as cismas têm vida própria e ganham uma forma da qual é difícil sair

se ao menos eu lhe tivesse falado
a ela
podia ter perguntado de onde vinha aquela sabedoria absoluta
como é que a vida
por uma lado não a sacudia
nem por outro a incomodava

provavelmente ter-me-ia virado as costas e desandado
mas pelo menos assim
eu ficaria a vê-la ir até não caber no horizonte


Praia da Figueira, Monte Alto, Rio de Janeiro, Brasil, agosto de 2023

dia 157 - contagem decrescente

ele tinha uma hora

quando saiu para a rua viu outros encostados a olhar não sabe bem o quê
talvez a beleza da criação
anjos e o céu e o horizonte
ou os passeios o lixo e carros estacionados há demasiado tempo

avançou
atravessou os cruzamentos sem fazer caso aos sinais
desviando-se dos postes de iluminação e de pessoas agarradas aos telefones

por vezes entrevia-se nos reflexos das janelas das vitrines
um vulto rápido com contornos difusos dele mesmo

nalgumas esquinas pombos teimosos saltitavam até ao limite de um atropelo
para depois esvoaçarem em direção a um canto mais alto num prédio vizinho

enquanto caminhava o mundo passava enrolado pela cintura e pelo olhar apressado
como se no fundo
ele planasse em contramão de tudo o resto
as nuvens fixas no firmamento imunes ao vento que começava a levantar-se
o cabelo despenteado e o pescoço a pedir um ajuste do casaco que tinha ficado em casa
a hora ia escoando

o destino pouco importava
a cidade tinha um fim independentemente da direção
o mar de um lado
o rio de um outro
e o campo para os restantes
o fim
fosse o da cidade ou um outro
era inevitável

mas seguiu até encontrar a chuva que parecia ser uma promessa
quem sabe de alguém desesperado e com sede de um dilúvio
o cabelo molhado então e a roupa colada ao corpo
o corpo que esquecera até ao toque do cansaço

voltar para trás não era opção
mas podia deter-se debaixo de uma árvore urbana para recuperar o fôlego e sacudir a água dos sapatos

podia parar e lembrar-se das outras horas que tivera antes
de esquecer esta última que ia passando
recordar o passado
não todo porque isso seria viver de novo a vida inteira e voltar a este mesmo lugar
mas antes pequenas partes
pedaços insignificantes que povoaram a existência
as esperas os sonos o lavar a cara de manhã o abrir as portas que tivera de abrir

mas então deu-se conta de que da hora que tinha sobrava agora um minuto
e desse minuto
sobrava um segundo

depois
já nada sobrava


Antunes Guimarães, Porto, dezembro 2016

dia 156 - história de um amor artístico

a sombra que o corpo projetava tinha algo mais
uma penumbra ligeiramente desfasada da silhueta suposta
como se a luz que lá chegara tivesse sido afagada por alguma coisa pelo caminho
quando
na verdade
nada nesse caminho a explicava

é sabido
o que nos chega é sempre a soma do que era quando nasceu mais a própria distância até nos chegar
é para além de uma coisa concreta um alento e um caminho e um impulso que a traz

eram estas considerações que ela fazia enquanto olhava a imagem

eu ouvia
esquecido da minha própria sombra e ainda menos consciente de onde ela viera e por onde ela andara

as minhas preocupações eram outras e não cabiam neste lugar

ela absorta nem sequer desconfiava de quão ausente eu estava
perdia-se nas divisões da galeria e atirava-se a cada obra com uma sede que eu desconhecia

a relação dela com a arte era de um predador
a minha era a de um perdedor

logo aí os nossos olhares seguiam por mapas distintos
onde ela sondava eu escondia-me
onde ela reagia eu de lá há muito escapara

no entanto
havia instantes em que nos reencontrávamos
em breves momentos de assombro e outros de tédio
como a dança frágil das ondas num ir e vir impossível de prever

mas era esse imponderável que nos mantinha perto
mesmo quando cada um era levado pelos labirintos da contemplação

o périplo de um e de outro ia-se escrevendo pelas sinas enrugadas das mãos
palimpsesto de palimpsesto
acrescentando ao que foi e ao que teria sido aquilo que é
para desaguar nesse mar improvável de acasos e destinos

para além de tudo isso
quando saíssemos
ela saciada de arte
e eu desolado pela confirmação da minha inaptidão total pelo talento
a hora dos nossos corpos se alimentarem um do outro chegaria
qual serpente a sorver a própria cauda

e desse excesso
por fim
sobre e sob o suor e os restos imortais de um amor
dormiríamos um sono tão profundo
que o dia seguinte jamais amanheceria


Detalhe de Remorso, ou Esfinge Embutida na Areia, de Salvador Dalí (1931), Museu Belvedere, Viena, Áustria, abril de 2022

dia 155 - viajante do tempo

o sopro vem de um lugar sem tempo
e os atrasos acabam por se anular
mesmo quando se revelam foram de horas

tudo acaba por acontecer

não é com as mãos que se agarra o presente
e o futuro já se cumpriu irremediavelmente

ele soube tudo isso
curiosamente
mais tarde
quando acordou e era já um outro dia e o passado tinha ficado para trás

independentemente da rotina e de uma ou outra aposta no porvir
no silêncio do agora
a vida pulsa e exige testemunho para não se despenhar

o desafio acaba por ser o tempo verbal
porque de cada vez que se conjuga existe uma demora intransponível que atira para o pretérito

ele soube mas não sabe
e tudo foi já não é

no entanto
as palavras viajam em paralelo
e são feitas de uma outra distância
fulminam mais velozes do que a luz
e estagnam mais lentas que o próprio cronos

o dilema acaba por naufragar em si mesmo
devorado por uma tempestade que nem teve início e cujo o fim não se avista

nestas coisas
o absurdo reina
ele é foi e será
ao mesmo tempo
que não será não foi nem é


Guarulhos, São Paulo, Brasil, junho 2018

dia 154 - ele ou ela

ele ou ela 
contemplavam a vista inviolável de certas janelas
como se a vida fosse uma galeria de arte
asséptica e limpa e paralela ao caos do que é real 

um homem numa esquina fumava
escondia-se atrás das danças de névoa do tabaco
num jogo de eclipses e sombras
o rosto indefinido e provavelmente perdido
como o gato que se esgueirava por entre sacos de lixo e arbustos selvagens

ele ou ela
não se sabe
o mundo a passar por essas janelas
lá do outro lado
separado deles
ou dele ou dela

no outono as primeiras chuvas espalhavam as gotas de água sobre os vidros
sardas luminosas a multiplicar a paisagem infinitamente
refletindo quer o rosto
dele ou dela
quer a rua e os prédios e os carros apressados no final da tarde

no verão
quando o sol queimava o passeio
enchia o quarto de um calor de estufa
e o sono era pesado e lento

nas madrugadas
o silêncio percorria as distâncias de um frio que tudo igualava
ora ele ora ela
num arrepio contínuo até encontrar um cobertor mais para pousar sobre o corpo

essa indefinição sem fim à vista
ia sendo
com o peso que o verbo tem

e ia escapando à tentação de querer saber
se ele se ela
ou se até o próprio mundo lá fora

deixando-se ir nesse desconhecer de quem testemunhava tudo isso

a verdade é que
ou ambos ou um deles ou um outro
presenciavam e sustinham essas realidades

nada acontece que não seja sentido
ou então
que não seja declamado
qual poema
qual lamento
qual anseio
qual insignificância


Palácio Belvedere, Viena, Áustria, abril de 2022

dia 153 - luar absoluto

chegar aqui não foi fácil
e explicar ainda mais difícil fica
porque os versos abaixo foram escritos antes destes
e escalar um poema de volta ao início exige uma espécie de amputação temporal

no fundo é ir contra as leis da natureza
e quebrar a regra fundamental de causa e efeito

mas aqui estamos
e o que foi acaba afinal por ser o que será
perdoem
se conseguirem
o paradoxo
mas é inevitável seguir a corrente de uma leitura
por isso
agora que cada um foi para seu lado
revisito a nossa conversa

explicou-me que passou a vida com um anjo e um diabo sobre os ombros
ambos a serem o que são e a fazerem o que supostamente fazem

disse-me também
que salvo raras exceções
seguiu sempre os conselhos do diabo

quando lhe perguntei como acontecia essa interação com o diabo respondeu

falámos pouco
acho até que nem uma palavra trocámos

e assim foi conduzindo a existência

das exceções nunca falou
preferia relatar as histórias macabras que advinham de seguir o que o diabo lhe indicava

e em conclusão rematava

nesta vida
não houve um único dia de aborrecimento
e se houver alguma coisa depois
estou pronto
serei um fantasma com talento
um mestre em assombrações

perguntei-lhe do anjo
de como conviviam
e de como o ser alado lidava com o facto dele decidir outro caminho

não soube responder
dizia somente que o anjo parecia inamovível na sua missão
que não o julgava de cada vez que seguia o mal e o errado
que se mantinha sereno e solidário
nunca o abandonava e fazia o melhor que podia para que escolhesse o lado certo

foi isto
e no momento exato em que se calou
olhámos ambos o céu onde um luar absoluto ia reinando

perante tal pasmo
nada mais tinha importância


Luar no hemisfério sul, Recife, Brasil, no último dia de maio de 2026