dia 141 - primeiro amor

ela abriu os olhos e ergueu o olhar para o céu
inclinava a cabeça até ao limite do equilíbrio
e quando acabava de suspirar dizia coisas como

a minha sombra veio à minha procura
mas eu já não estava lá
e sei que alguns poemas escaparam
ou pelo menos um verso ou dois
e que o encadeamento dessas palavras perdeu-se para sempre

era evidente um arrependimento
mas também uma triste resignação
e essa mistura acabava por ser desconfortável
até porque ele que a ouvia
que nada sabia de poesia nem de penumbras órfãs
ficava a meio caminho entre um gesto de afeto e um calar solidário

era sempre assim entre os dois
ele rendido àquele rosto iluminado e à curvas de um corpo que ondulava
ela longe metida nos próprios dramas que ora partilhava ora os arrancava à força para ela própria como uma criança demasiado mimada

iam dançando essa dança os dois
ele que sabia em demasia o que queria
ela sem saber sequer se queria o quer que fosse

viviam descompassados
como se lhes tivesse calhado ritmos cardíacos alternados
e entre o ir e vir de cada um
por vezes
ambos lá acabavam alinhados
para logo de seguida se descruzarem nessas ondas desencontradas

mas nesses breves instantes em que se entrelaçavam numa arritmia caótica
um e outro acabavam por ceder
fosse ele no que desejava
fosse ela na indefinição

porém rapidamente
o desarranjo voltava
e ela regressava ao refúgio emocional
e ele à sede secreta e insaciável

e queimavam ciúmes e amuos e pedidos de desculpa e amo-te's cada vez menos envergonhados
até ao dia que um deles
ela ou ele
ou ambos
se deram conta que afinal teriam outros incêndios para atear

que nenhum outro jamais seria como o deles
mas esse é o drama do pirómano
saber que nenhum fogo arde como o primeiro
mas ainda assim está condenado a deflagrar quantos puder


Lenções Maranhenses, Maranhão, Brasil, agosto de 2025




dia 140 - o medo

a arena vazia
depois da luta o ar esgotado pelo clamor de uma turba que já dispersou
como se o céu ainda estivesse a recuperar o fôlego

o cheiro do sangue sob a areia deserta
a coalhar até ser parte do solo
húmus de uma loucura que ardeu para lá das próprias cinzas

o corpo do derrotado irreconhecível
levado para as catacumbas para ser esquecido
o espírito do vencedor indistinguível
perdido por entre louvores que não deseja nem contempla

num duelo morrem sempre dois
já o disse antes
um de vez
e o outro de vez em quando sempre que o combate retoma na lembrança destroçada

o tempo passa por cima de tudo
e volta a passar vezes sem conta até cobrir a memória de um pó que não se varre
semeando ecos voláteis que num último suspiro ainda reverberam pelo éter

sobram os mitos nas conversas dos velhos
quando um deles bebe demais e acrescenta mais um golpe à luta passada
até que no fim o combate parece ter durado vários dias

na verdade
o confronto não termina nunca
nem mesmo com um cadáver há muito metido numa vala
nem com o sobrevivente já caquético e demente

há sempre lugar para um gladiador mais
sempre uma lâmina à espera de uma garganta ou veia inadvertida

e há sempre o medo
sempre 
é ele que conspira e que treme na febre da antecipação
é ele que vive na fronteira ténue entre o colapso e a explosão

é o medo que tudo despe e revela
e é ele
que para o bem e para o mal
diz a verdade



Teatro Grego de Siracusa, Parque Arqueológico de Neápolis, na Sicília, Itália, agosto de 2016

dia 139 - o teimoso

até que ponto podemos escapar de onde não há escape

enquanto falava
a sombra do corpo confirmava que existia
não havia dúvidas
ela projetava-se até onde o contorno o permitia
extinguindo-se quase de uma só vez num último suspiro de penumbra
antes mesmo de ser irremediavelmente deglutida pela luz 

era isso
vivia até onde podia
não mais
os limites eram a prova do possível
para lá deles o mundo era uma coisa sem nome e um lugar sem mapa

deste lado
ia aproveitando cada nesga de realidade
ocupando todo e qualquer espaço que descobria
como se uma febre de parasita o tomasse de assalto
e fazia-o com o corpo e com a mente
esticava-se nessas duas dimensões até os ossos doerem ou a cabeça latejar

talvez se me expandir pelo que alcanço
consiga um dia passar a muralha do que é real
esgotar todos os lugares e recantos
e constatar que não há mais por onde ir

remoía estas coisas
imaginava transbordar para lá disto tudo
ponderava ser um excesso dele mesmo
e assim emboscar a condição finita com que havia sido condenado

um impasse então seria bem-vindo
encarar o possível num duelo de teimosia não o assustava
sabia do infinito de irredutibilidade que o habitava
sentia-se capaz de vencer
ou pelo menos de nunca se render


Zurique, Suiça, abril de 2025                                      

dia 138 - incongruência ontológica

no tempo em que ainda se encontravam
semeados por várias esquinas
marcos de correio com suas goelas negras à espera de sorver envelopes
ele vivia lado a lado com a ânsia de uma espera
fosse aguardando por uma carta que nunca mais lhe chegava
fosse por uma carta que nunca mais lhe saía dos dedos para o papel 

ficava a roer esse desassossego em desatenções estranhas

dedicava-se a ouvir o horizonte onde a sola dos sapatos encontrava a gravilha
o roçar esmagado de borracha com essas areias esfareladas
o encarquilhar e ranger que aconteciam nesse preciso momento em que se caminha e os passos se sucedem

o nevoeiro que lambia a copa das árvores até um orvalho se pousar nos arbustos baixos
a luz espalhada por essa nuvem térrea a empalidecer as distâncias
criando miragens de um tempo em que havia druidas e as florestas segredavam

ele sabia que poderíamos estar dentro de um sonho neste preciso instante 

quem sabe
o universo poderá estar a dormir-nos até que o sono se esgote
e quando o dia em que nada mais seja possível a não ser estar acordado chegue
pode ser que tudo faça sentido

mas até lá
ele olhava uma linha de colinas ao longe
onde os moinhos de vento estavam ancorados
e o que rodopiava não eram as velas nem as asas
mas sim tudo o resto
o chão o firmamento  o planeta  a voltearem em carrossel
enquanto que os moinhos faziam de eixo fixo a sustentar o desvario

falava sozinho para que pudesse ouvir uma voz
e assim talvez acreditar nestas coisas
dizia

houve uma manhã
em que o meu café era um poço escuro a devolver um reflexo que eu desconhecia
e quando já quase não sobrava nada na chávena
a última gota mais aguada
ainda se agarrava a esse mistério
soube aí que esse dia iria serdiferente

se o dia chegou ou não a ser diferente não se soube

mas há tanto que não se sabe 
que uma mais não faz diferença nas contas finais disto tudo

a vertigem é isso
essa permanente incongruência onde coabitam
a intuição de que no fim nada importa
e de que ainda assim cada momento conta


Subida ao Pico, Ilha do Pico, Açores, outubro de 2020

dia 137 - o poeta e eu

claramente
as vírgulas e a pontuação em geral eram algo que ele descartava
bem como as letras maiúsculas salvo raras exceções

acreditava no alcance do fôlego para ditar a quebra do poema
e quando essa crença era posta à prova assim que os versos se aventuravam para lá do razoável
limitava-se a encolher os ombros e a dizer

é voltar atrás
inspirar até mesmo antes de tossir
e lançar-se de novo pelas palavras
não há outra forma

sabia também que para escrever era preciso estar-se só

a poesia dele pelo menos
não nascia sem silêncio
ou uma certa forma de se estar só e uma certa forma de silêncio

temia não saber explicar essa parte
vivia na contradição destes esclarecimentos e na liberdade inata de cada palavra
que no fundo nem lhe pertenciam
e
que uma vez lançadas pelos horizontes poéticos
acabavam por pertencer a qualquer pessoa que desse com elas

era isto que lhe ocupava o pensamento quando me sentei ao lado

fui vendo como lhe roía a alma essa impossibilidade
de querer fundamentar uma criação que afinal não o era
que na verdade era ele que ia nascendo de todas as vezes que escrevia
e nesses partos literários deparava-se com ter de reaprender tudo de novo

eu lá ia acenando
fingindo entender quando ainda mais perdido estava

ele apercebia-se do meu frete
mas aceitava-o porque no fundo nem ele se compreendia
e é sempre melhor serem dois a estarem perdidos do que apenas um

ao menos
perante um impasse
podiam somar as hesitações de ambos até elas darem a volta nesse cúmulo
e quem sabe se no outro lado disso não se encontra uma resolução

o tempo foi passando
ele deixou de falar de como porquê e para que é que escrevia
e eu não precisei de fingir que
por um lado
percebia do assunto
por outro
me interessavam essas coisas

apesar de sentados lado a lado
cada um foi pelo seu caminho


Sem título, obra de Dado (Miodrag Djuric), coleção Treger/Saint Silvestre, Centro de Arte Oliva, São João da Madeira, abril de 2018

dia 136 - o lento definhar que escolheram

os ossos precisam de alma para encarnar
para cobrir de carne e músculo os corpos
até porque o chicote ancestral do medo tem de ter lugar para se despenhar em estalos que repercutam pelo cosmos

as velas ardem com chamas que arrebatam os corações
e o desejo atordoa os sentidos dos mais distraídos
os outros
aqueles cujos olhos não perdem pitada
que engolem cada segundo com um fervor antigo
esses nunca se saciam
por muito que o mundo se revele por muito que o céu estremeça
esses vivem em permanente transe
adiam a ressaca nessa intoxicação que parece não terminar nunca
ou vivem calejados e por dentro de peles que mais parecem pedra
e aí nada entra e nada verdadeiramente acontece

no grande largo da aldeia
e junto às árvores que o contornam
as velhas
quais figuras mitológicas
metem os braços por dentro dos aventais
enquanto os maridos ora fumam ora se encostam uns nos outros a trocar segredos ébrios

passar o tempo é o que fazem
como se fosse preciso fazer o que quer que seja para que ele de facto passe

os mais novos não estão
virão mais tarde quando a fome os chamar
ou então só amanhã quando um resto de pudor o exigir 

ainda que
um ou dois
de vez em quando
não voltam mais
e só numa carta décadas mais tarde é que dão sinais de vida
mas deles pouco ou nada se fala
quem daqui foge leva tudo
os indícios de que por cá andaram e as memórias de quem os recusa lembrar

orfanizam-se
ou por necessidade ou forçados por todos os outros num coro silencioso mas implacável

é sabido que quando nada se tem a perder
o espírito cavalga no vazio do sem rumo
e que essa imagem aos olhos dos outros
aos ancorados
é um quadro que fere o olhar para lá do que é uma dor
como se ao espelho o reflexo mostrasse o vácuo infinito do futuro

o que vale é que com a prática
dominam a arte de fechar os olhos
e de os abrir somente quando o dia seguinte vem
limpo e monótono e igual
perfeito para continuarem o lento definhar que escolheram



Catedral de Basileia, Suiça, maio de 2016

dia 135 - saber feito de neblina

visitei o lugar onde irei morrer
sem o saber é certo
mas pude sentar-me e olhar o longe enquanto a noite não chegava
talvez se tivesse estado mais atento
saberia que seria ali que ela chegaria de vez

deus o diabo e um fantasma
provavelmente estavam por lá
cada um a remoer uma ideia ou apenas a deixar o horizonte ditar o limite

o que sei agora
e este saber é feito de neblina
é que o caminho se desvenda aos soluços

o passo que vem a seguir ao anterior avança sem se preocupar com o desconhecido
há um alento que nos empurra para a frente
mesmo nas horas mais negras ou mais gastas
por muito que por vezes pareça que acabou
um vento frio ou um silêncio ou um sorriso acabam por nos carregar um pouco mais além

mas também no desencanto de uma rotina ou no esquecimento de que estamos vivos
acontecem pequenos milagres imperceptíveis
como se no tecido do universo
metido dentro dos mecanismos cosmológicos
uma engrenagem nos propelisse malgré nous como se diz em francês

se calhar
afinal
contamos pouco nisto tudo
ou o que contamos não conta tudo nem de perto nem de longe

há tanto e tão pouco no que nos cabe avistar
que nem sempre colhemos o que os outros perderam
nem encontramos o que nem sabíamos estar à procura

não há idade para saber da morte
há quem aprenda muito cedo e há quem nem a reconheça quando chega no fim
há quem prometa viver para sempre e há quem minta ao nunca falecer

mas não se fala da morte sem que a vida fale por cima
como luz e sombra onde existem coisas

sim
onde existem coisas
porque se não existirem coisas
ou a luz alumia sem sombra
ou a sombra tudo cobre onde a luz não alcança

no fundo
a morte e a vida
só se falam onde houver um poeta com palavras para lhes dar
mesmo se o que dizem com elas nos transcende

sem as palavras
morte e vida
deixariam até de passar


Ilha do Pico, Açores, junho de 2024
Fotografia da Maitê 

dia 134 - a escolha

não sabia bem o que estava por trás
a própria distância ganhava forma e contorno
dando azo a premonições incertas
que tanto se erguiam como prova de tudo como prova de nada

e na dúvida que se instalava silenciosamente
a imensidão de possibilidades era tal
que nem nascendo mil vezes chegaria para lhes dar a volta

o instante pedia uma escolha impossível
calar ou falar até esgotar as palavras

a primeira levava-o para um fundo tão fundo que nem um eco conseguiria escapar

para a segunda não havia pulmão que chegasse nem língua que não se consumisse até ser cinza e pó

restava-lhe adiar
enquanto não optasse pelo menos o mundo ficaria em suspenso

aí permaneceu
à deriva num mar que tanto tinha de indecisão como de medo

e tudo isso era compreensível
mas também insustentável

mais cedo ou mais tarde
já nem escolha haveria
e das duas uma

ou ficava sem voz
ou ficava sem silêncio

um desses caminhos engoliria o outro de um só trago
depois
sobrando um deles
fosse qual fosse
seria inevitável

até lá
agarrou-se à espera
como a uma jangada em alto mar

ia calando e falando
alternadamente
a confirmar que ambos eram possíveis ainda e o fim não chegara
a escolha sobrevivia como podia

mas até as demoras expiram
e um dos destinos cumpriu-se

dele ou do que lhe calhou no acaso não se soube mais nada

sobraram deduções disfarçadas de rumores

que era sombra sem luz que a explicasse
que era verbo sem fim que o conjugasse


Igreja São Nicolau de Bari, Castelmona, Sicília, agosto de 2016

dia 133 - embalo

antes que escape de vez o embalo
do que será uma versão ébria de inspiração
remeto-me ao relato do que eventualmente não fará grande sentido
para que não desapareça no anonimato definitivo do esquecimento

existem coisas que perdem importância quanto mais se pensa nelas
esgotam-se numa burocracia emocional até serem arquivadas numa gaveta que vira calabouço

como escolher entre guardar um segredo ou contar uma mentira

repito
as coisas vão perdendo importância quanto mais se pensa nelas
diluem-se pelo tanto que são encharcadas de raciocínio
esfarelando-se nos meandros de uma ideia e mingando no horizonte do discernimento

conheço gente que diz saber o nome das estrelas com um simples vislumbre do céu
outra que se sente segura por estar longe de pessoas

outra ainda que penhorara o futuro
ou que vende o passado numa feira imaginada onde não passa ninguém

há de tudo em todo o lado a toda a hora
e é essa sinestesia de mundo que rodopia pelas cartas de adivinhação

e se há de tudo em todo o lado a toda a hora
nunca ninguém se engana
nunca ninguém está só
nem nunca ninguém morre

nunca ninguém acerta
nunca ninguém comunga
nunca ninguém existe

estas coisas são o que são
e aquilo que é o que é tem a força do inevitável

que não se pense que existe outra escolha que não seja ser
não há fuga para o que é um assombro
nem esconderijo para o que invariavelmente nos encontra


Gilreu, Foz do Douro, Porto, novembro de 2025



dia 132 - sede gloriosa

ainda hoje
passados vários anos
a memória de um calor para lá de quente arde na lembrança
e a sombra quase inexistente do corpo sob o zénite deixa um simples contorno de penumbra ao redor dos pés

em poucos minutos é obrigado a abrigar-se debaixo de uma árvore
e esperar que o sol se derrame por completo
arqueando lentamente pelo céu
até desaparecer por detrás de uma colina mais elevada
aliviando a canícula o suficiente para que seja quase tolerável

ali o mundo é ancorado por pedras cálidas
que de repente vieram à tona como piranhas esfomeadas
semeadas pelo solo encarquilhado e quase estéril
a paisagem é a de um deserto petrificado e enrugado
cujos delineamentos imitam as palavras de um livro ilegível
mas ainda assim repleto de segredos sedentos em serem descodificados

só que o enigma geológico fica por resolver
resvala pelo tempo sem revelar o mistério por inteiro
deixa que ele paire por essa recordação que continua a aparecer de quando vez

nos entretantos
enquanto caminha no olvido
a vida não sabe a grande coisa
o tempo que sobra é tanto que o paladar perde-se pelo caminho

mas quando esse meio-dia lhe entra pelos olhos
a língua lembra-se da secura e do sabor metalizado de um certo amargor cuja origem se desconhece
todo o corpo sente uma febre externa e
por momentos
pensa que chegou às portas de um inferno
não religioso nem moral
mas de lava e fogo

esta reminiscência que o revisita
serve-lhe de lição

qual
não sabemos
pois fica com ela dentro e nunca a partilha

mas é impossível não reparar
que quando regressa dessa memoração
várias gotas de suor caem-lhe do rosto enquanto ele se precipita para um copo de água
como um felino a lançar-se sobre a sua presa

e nós todos assistimos à matança de uma sede gloriosa


Quinta do Bomfim, Pinhão, fevereiro de 2018

dia 131 - o velho que nunca existiu

o velho
sentado junto ao mar numa cadeira ainda mais velha
tinha tiradas de sabedoria
ou pelo menos tiradas com a pose de sapiência
dizia coisas como

tens de aprender os prazeres
já que inevitavelmente vais carregar as dores

ou

herdaste o fóssil que vais ser no futuro
a não ser que te consumas aqui e agora no presente

e ao longo dos dias e das tardes
quem por ele passasse
tinha direito a esses remates definitivos e cheios de verdade

mesmo que essas verdades fossem crípticas
elas acabavam por entrar em quem as ouvia e acender uma centelha de esperança

ninguém sabia a história do velho
de onde vinha e como fora ali parar

uns diziam que tinha sido marinheiro
e que um dia adormecera em terra e o barco partira sem ele

outros diziam que tinha vindo do campo
que ao ver o mar pela primeira vez se sentara com o espanto
e desde então por ali ficara a ver as ondas

quando chovia a cadeira ficava vazia
mas qualquer outro dia ali estava
de olhos no horizonte e a língua pronta com revelações

quando me cruzei com ele há muitos anos disse-me

quando escreveres sobre mim
não te esqueças de contar a verdade

na altura não percebi
confesso que fiquei sem saber se era uma profecia ou uma mentira

mas hoje compreendo
e devo-lhe o que me pediu
por isso aqui revelo

o velho nunca existiu


Praia do Meco, agosto de 2017

dia 130 - meandros

do nada
do néant como se diz em francês que é uma palavra com ainda menos lá dentro
um vazio tão nulo que fica difícil de conceber

mas foi daí
desse lugar sem sequer o ser
que tudo surgiu num momento particularmente específico
para que depois acontecesse o que acabou por acontecer

e não se sabe como foi possível
mas as evidências de que o foi são incontestáveis

ou como se explica o mistério e o silêncio que jazem no relato

ele contou o que aconteceu várias vezes
todos ouvimos todos questionámos e todos acabámos testemunhas

poderia ser mentira ou um mal-entendido
disseram e perguntaram alguns

mas eram perguntas sem resposta
porque a história não tinha outra solução
que não fosse o paradoxo da própria impossibilidade acabar por ser desmascarada pela realidade

destes meandros ninguém escapa ileso
há que sofrer as ambiguidades pelo que elas são
e trata-se de ir bem mais além do pasmo ou da incredibilidade

do nada
onde tudo começou
até aqui
onde tudo se explica
vai a distância de vários versos
e até hoje
que eu saiba
ninguém escalou de volta um poema que não fosse para cair uma e outra vez


Belvédère de la Carelle, Gorges du Verdon, Provence-Alpes-Côte d'Azur; novembro 2022

dia 129 - perpétua

das várias hipóteses nenhuma era auspiciosa
mas para pelo menos sonhar em ser livre
sabia que qualquer uma das possiblidades dançaria com a morte

fosse fugir pelo meio da noite e fundir-se nas sombras
fosse perder-se nas palavras e desaparecer em linguagem
fosse mergulhar para dentro e arder em loucura

as decisões já levavam o atraso de uma vida
não chegaria ao lugar para onde supostamente iria
e agora
não parecia existir caminho de volta para onde de facto já esteve

a existência ia pingando
como a cera que se acumula contorcida no chão e caindo de velas suspensas
e ele continua a caminhar descalço pela prisão
ancorado no caos do que deixou de imaginar

do lado de fora ninguém o espera nem ninguém o lembra
há um deserto de abandono que jaz inerte
mas ainda assim
ele sabe que do lado de dentro há algo pior
o tédio infinito do previsível que só ameaça e nunca se cumpre

resta-lhe o tempo e o poder de o espremer até que nem ele sobre
olhando as próprias mãos que se encarquilham
adensando as linhas da sina até ser impossível ler-lhes o final

o isolamento não o levaria à solidão
ele sabia da existência dos carcereiros
sabia da memória e do passado
sabia até do eventual futuro silencioso

a solidão era uma outra coisa que ele nunca provara
e curiosamente
neste vendaval febril
dava por ele a ansiá-la

tudo isto aconteceu no primeiro dia após a detenção
menos um dia na sentença de perpétua por cumprir

já faltou mais

pensou alto enquanto não adormeceu


"Autorretrato. O Caminhante Noturno", 1923/24, de Edvard Munch; Galeria Albertina, Viena, Áustria, abril de 2022

dia 128 - demasiado perto

ela não dizia nada
mas nos olhos uma tempestade ia crescendo
corria em turbilhão pelo olhar

todos esperávamos pelo que poderia acontecer a seguir
e o tempo parecia acumular-se em tensão por toda a sala

uns antecipavam uma loucura
outros temiam algo pior
um surto descontrolado que acabaria por rebentar com as portas e as janelas

até que sem aviso tudo amainou
como se toda a emoção contida tivesse sido tragada para dentro de uma só vez
engolida pelo corpo para o fundo da alma

serenámos
mas um de nós disse

vai deixar marca

e percebemos
não haveria como esquecer o que não aconteceu
algures no poço dela tudo aquilo ainda esperneava
mais cedo ou mais tarde conseguiria soltar-se e voltar à tona
quem sabe até
se não mais intensamente

ou então
esse peso condensado atingiria uma singularidade
e toda ela implodiria de uma só vez sorvendo-lhe o corpo e a própria sombra
e nós e a sala e o mundo iríamos atrás
sugados num vórtice aniquilador e inevitável

mas não
parecia mesmo que o pior tinha passado
ela retomou o lugar de sempre e nós regressámos às bebidas
a música voltou a ecoar pela noite e lá fora os semáforos regressaram aos soluços intermitentes do costume

no fim
quando já só estávamos ela e eu
ousei perguntar

quão perto da tragédia passámos

ela olhou-me levantou-se e antes de sair atirou

demasiado perto
tão perto que tive de de me desviar de mim mesma
não devo voltar a encontrar-me

quando a porta se fechou e eu fiquei só
reparei que no lugar dela pairava um ar de ruína
como se alguma coisa tivesse aberto uma fenda no tecido disto tudo

era o universo que hesitava em ir sendo ou em abdicar


"La Maison dans la Loire", obra de Jean-Luc Courcoult; Couëron, França, outubro de 2017

dia 127 - última palavra

em pouco tempo
as palavras vão perdendo cor
não que desapareçam logo mas rapidamente o brilho inicial dissipa-se
como se a voz depois de dita mingasse por dentro

elas continuam ali
estão lá para que outras leituras se façam
mas os timbres são já outros
e se calhar com isso
o que dizem também é uma outra coisa

e depois há os tempos verbais
que são o que são quando nascem
mas que forçosamente têm de ser outros quando renascem

não é fácil explicar tudo isto
porque o tempo passa e o presente nunca se agarra
ele é furtivo e livre e não pertence a ninguém

o milagre tanto dura um instante como dura para sempre
e às vezes nem sequer acontece
o que leva ao paradoxo de ser algo que mesmo não sendo acaba por ser

se calhar isto é um nó impossível de desfazer
só à espada como fez aquele rei com o górdio
numa decisão radical face a um problema insolúvel

quem sabe

pode ser até que tudo seja impressão minha
ou que as palavras não se deem conta de nada

há quem diga que não passam de caixas de ressonância
carcaças que repercutem o que lhes calha
que no fundo
o que cada uma diz depende do que lá lhe metem dentro

eu já não sei
fico-me pela dúvida e hesitação
ao sabor dos ventos invisíveis da inspiração
porque mesmo não sabendo há ainda assim coisas que nos intermeios se vão sabendo
como uma última palavra


Museu do Amanhã, Rio de Janeiro, Brasil, agosto de 2025

dia 126 - em vão

haverá um nome para as madrugadas que passam sem deixar rastro
como se
envoltas de insónia varassem o tempo pela calada
deixando do lado de lá
onde o dia começa a nascer
um sabor a desperdício e a remorso
que seca e prende o trago numa garganta desprevenida

esgotou-se um pedaço de existência sem sequer se esboçar uma intenção de a viver
um adiamento do inevitável para o demasiado tarde
um reino por conquistar ou por defender
um corpo por sentir amar ou mutilar

haverá um nome com certeza
e ele é dito mais tarde
lá para o fim da vida
numa dessas tardes de balanço onde se pesam os arrependimentos

mas o que é um se quando ao lado o mundo real pulsou de verdade
o que é um se quando tudo é somente uma questão de perspectiva

essas madrugadas que escaparam num ápice deram à costa de qualquer forma
suas carcaças empilharam-se e apodreceram como tudo o que não serve para nada
e o fedor durou algum tempo e incomodou
mas acabou por desvanecer
e nós acabámos por vibrar e deixar uma outra marca por aí
há que pensar que nem tudo foi em vão

ou terá sido

não se sabe bem
mas pouco importa
porque mesmo o que foi em vão tem o seu enlevo
mesmo o que foi em vão teve o seu grito de libertação


Lanzarote, Ilhas Canárias, agosto de 2015

dia 125 - em três lances

havia uma navalha na mão e a intenção de um duelo
ou pelo menos uma variação de um duelo
porque desde que houvesse sangue e um arrependimento depois
tudo voltaria ao lugar e a história viveria uns anos nos relatos ébrios da aldeia

tudo começou umas horas antes
era de noite quando uma pedra resvalou pela falésia
isto depois dele a ter empurrado com o olhar durante horas

quando contou a peripécia o mais calado da plateia não acreditou
olhou para o lado bocejou e sorriu ao de leve

o narrador ofendeu-se e sacou da faca
o outro levantou-se e fez o mesmo

em três lances a coisa resolveu-se
o primeiro lampejou numa centelha rápida
o segundo cortou o ar num silvo curto e firme
o terceiro foi um suspiro que num ápice atravessou a garganta de um deles

um caiu o outro saiu

ninguém sabia quem era quem
se o silencioso se o telepático que empurrava pedras com os olhos

o que sobrou foi o calor que nunca esmorecia
o bafo às portas de um inferno difuso onde as lembranças se fundiam com as lendas

já o sangue
esse
ainda hoje jaz e faz de sombra no chão do café
como um poço sem fundo
de onde nem os versos escapam
quanto mais um relato que faça sentido


Algures em Djerba, Tunísia, agosto de 2017

dia 124 - diário de um pequeno caos

movem-se nos intervalos da atenção urbana
encontram por entre silêncios o espaço necessário para deixarem a sua marca

codificam uma linguagem impenetrável
até deles mesmos ouso dizer
porque é no secretismo que semeiam mais mundo no mundo

há centenas de milhares de anos
nas cavernas
alguém sentiu o mesmo apelo
deixar uma marca como âncora para a eternidade
ou em parte dela
que isto de eternidade é muito tempo e uma maré arrasta tudo mais cedo ou mais tarde

vão deixando vestígios cuja lógica ainda está por inventar
e o que dizem se calhar nem sentido faz
valem pela intenção

um diário de um pequeno caos
uma expressão artística momentânea
mas que poderia levar à resolução de um mistério não fosse ele irresolúvel

vou passando por eles
uns que arrebatam outros que se ficam por um vandalismo de mau gosto
mas todos reais e agarrados à matéria
incontornáveis

esses traços acabam por abrir um caminho que não estava lá antes
e um caminho
dando ou não a lugar algum
pelo menos permite uma escolha

e escolher é a escapatória da solidão
da verdadeira e terrível solidão

porque a escolha revela-nos a nós mesmos
e ninguém está só quando se depara consigo mesmo


Rua de Cristelo, Porto, abril de 2026

dia 123 - o que dizem do medo e da coragem

o que eles dizem do medo
é que nunca acaba
e é isso que o sustenta

o que eles dizem da coragem
é que nunca avisa se falta ou se sobra
e é isso que a dignifica

são os momentos que nos escolhem
quando se levantam altos como catedrais
e o olhar tem se erguer carregando um peso que desconhecíamos
e mais do que expurgar as dúvidas ou o oculto
é o encarar a revelação da irredutibilidade que vive dentro de cada alma
que protege os audazes e todos os que se predispõem ao sacrifício

seja em nome de alguma coisa ou só por teimosia
pelo poder de uma voz que não cala por muito que a amordacem
pelo gesto derradeiro da entrega do espírito e corpo

aqui estou

uiva-se perante o inferno
indomável aconteça o que acontecer

o que resta depois
é um eco que reverbera para sempre
qual sepultura com o epitáfio impossível de apagar

por aqui passou quem não se vergou
por aqui passou quem não se rendeu


Adamastor, painel de azulejos no Palácio do Buçaco, abril de 2023

dia 122 - não-lugar

o mal-entendido
pelos vistos
nascera no reflexo de um espelho

um e outro
apesar da distância entre eles
iam vendo os contornos do corpo a aparecer e a desaparecer
silhuetas apressadas a serem engolidas pelos limites do espelho

quando o acaso fê-los cruzarem-se
abordaram timidamente o assunto
quer um quer outro hesitavam em mencionar esse mar de fantasmas
os brilhos que faiscavam num ápice cortando o negrume da noite
as sombras que desvaneciam num repente para reaparecerem logo de seguida num outro

sem chegarem a uma decisão
esperaram até que o acaso os descruzasse
haveria outros detalhes com que cismar
e nenhum era partilhado pelos dois

mas sobrava o reflexo do espelho quando nem um nem outro o olhavam
desconheciam o que haveria lá sem eles
o detalhe sem dono não sendo dum nem sendo do outro

ficaram com a pergunta a remoer
onde não há testemunhas será que lá chegam palavras
será que esse lugar sem ninguém é ainda assim um lugar

não o saberiam nunca

a essas coisas nem a poesia lá chega nem o silêncio alcança


Detalhe no Matriarca, Praça Carlos Alberto, Porto, maio 2026

dia 121 - os isolados

cada vez é mais difícil encontrar o caminho

enquanto dizia estas palavras
bebia o café preto e amargo do qual nunca prescindia

nós ouvíamos com a atenção possível
estávamos todos sozinhos há demasiado tempo

o isolamento vinha de antes
tinha nascido num antigamente
numa era de antepassados cujos nomes já ser perderam

mas aí ficou
esse isolamento como uma herança inevitável
e agora
perante essas palavras
a esperança de um escape mingava de cada vez que uma nuvem desaparecia ao longe

o velho voltou a falar

eu sei que todos pensavam que a fuga estaria para breve
mas sem caminho não há fuga
e sem fuga o que sobra é paciência

aceitámos e recolhemos
paciência havia a rodos
dava tropeçar nela em cada canto da aldeia lamacenta

mas um dia
depois de se esgotar este exílio do resto do mundo
quando não houver mais por onde esperar e o velho morrer
então poderemos deixar de estar sós
o caminho revelar-se-á luminoso
e quem sabe se mais do que uma saída não seja ele uma entrada
e o mundo que nos escapa
venha a nós
entre pela aldeia dentro e se junte

assim
poderemos partilhar a solidão entre todos


Santo Amaro do Maranhão, Brasil, agosto de 2025