desistiu quando faltava um último
virou costas e regressou a casa
o vizinho cumprimentou-o
perguntou-lhe por onde andara
que não o via há séculos
que parecia cansado
ele não respondeu
sorriu e inclinou levemente a cabeça antes de fechar a porta e desparecer do outro lado
o número ao qual chegara nesse escrutínio era impossível de dizer
não havia sopro que chegasse para que fosse proferido
a razão pela qual parara antes do derradeiro grão de areia
tinha nascido há muito tempo
era uma forma de rebeldia que não sabia controlar
lembrava-se de como abandonara o altar no último momento
de como parara a bola em cima da linha baliza após ter fintado o guarda-redes saindo depois do campo sem explicação
de como esperava sempre que o semáforo regressasse ao vermelho ignorando as buzinas exasperadas dos outros condutores
de como recusava terminar uma bebida desertando-a sempre com um fundo aguado e triste
de como os poemas que escrevia findavam sem resolução
de como dormia sempre menos do que era suposto
enfim
uma série de coisas inacabadas
deixadas ao relento e ao abandono
dedicava-se a esse incompletismo não por capricho
mas porque lhe ardia como instinto
era mais forte do que ele
era uma teimosia que herdara por dentro tecida e vinda dos confins dos genes
quem o questionava não gostava das respostas
passava a imagem de um arrogante
e com o passar do tempo
de um louco
mas era o que era
não devia nada a ninguém e ainda menos explicações
e quando as começava a dar
deixava-as sem um desfecho
sustinha as frases antes do instante de uma revelação
curiosamente
os que o achavam doido
eram os que enlouqueciam à frente dele
que quase arrancavam cabelos por não terem uma conclusão
muitos partiam para o insulto
e alguns chegavam a ameaçá-lo
nunca cedeu
continuou igual
prosseguiu nesse semear de pendentes até o mundo ficar também ele em suspenso
foi só na velhice
no leito da morte
que finalmente decidiu confessar-se
juntou família e amigos
e disse-lhes que iria revelar a razão da tal cisma
e que essa revelação faria com que toda a frustração acumulada se dissiparia
que o que iria dizer traria paz de espírito e sobretudo um fim para que o luto dos devaneios se pudesse fazer
foi então que
por fim
lhes dirigiu a palavra para dizer
eu
na verdade
quero-vos pedir desculpa por todos estes anos em que hesitei e me acobardei
nunca foi minha intenção causar transtornos
eu simplesmente sabia de um segredo
e o segredo é
e mais não disse
não porque morrera
mas porque repetira a façanha
e os presentes
endoidecidos para lá deles mesmos
não queriam acreditar que mais uma vez ele os deixava sem destino
e eu
que vos conto estas coisas
acabo por
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