num lugar do qual já nem se lembrava
os restos de um remorso
não tinha a certeza sequer
de que se por eles passasse os viesse a reconhecer
tinha cortado as amarras desse barco há muito
e ele passara a linha do horizonte lá atrás
o que sobrava era quase nada
a memória ainda assim
é um bicho que não se doma
não é incomum
que por entre a rotina das distrações
morda sem aviso
deixando a pequena marca de uma lembrança a doer por instantes
e que passado o primeiro susto
sobre a pele do que se sente
fique uma nódoa leve a desenhar um padrão
eram esses padrões que a pessoa que ele visitava tinha fama em decifrar
diziam que não era nem homem nem mulher
e que fora um acaso que a levara a descobrir o talento em traduzir manchas e cicatrizes
que o que lia nas dermes das almas
revelava-se-lhe em sonhos e delírios
mas somente se adormecesse de corpo vazio
desabitado por um jejum feito de véspera
tudo isto lhe disseram uns conhecidos quando ele se queixara
e aconselharam-no a ir ver esse ente nigromante
mas que quando lá fosse
nunca o olhasse nos olhos
lá chegara então
e sem encarar o ser de frente
expôs o caso
que havia um primitivo arrependimento
a teimar em voltar
a arder por vezes nas escamas do espírito
que não sabia porquê
porque já o enterrara fundo há muito tempo
a resposta que obteve chegou-lhe por uma voz sem eco
que tinha de lhe mostrar as mãos e suster a respiração até o dia nascer de novo
ele não sabia se era capaz
a madrugada ainda tinha muita noite por sorver
mas tentou
estendeu as mãos e inspirou o mais que pôde
assim ficou
até hoje
as sinas nuas viradas para cima
o peito cheio de ar e de tempo
os olhos tão fechados que enxergavam o passado
quem o cruza
não imagina a razão de tal pose
alguns deixam uma moeda ou outra a pensar que é um artista de rua
uma daquelas estátuas humanas que se estagnam para lá do razoável
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