dia 249 - sinas

tinha deixado
num lugar do qual já nem se lembrava
os restos de um remorso

não tinha a certeza sequer
de que se por eles passasse os viesse a reconhecer

tinha cortado as amarras desse barco há muito
e ele passara a linha do horizonte lá atrás
o que sobrava era quase nada

a memória ainda assim
é um bicho que não se doma

não é incomum
que por entre a rotina das distrações
morda sem aviso
deixando a pequena marca de uma lembrança a doer por instantes
e que passado o primeiro susto
sobre a pele do que se sente
fique uma nódoa leve a desenhar um padrão

eram esses padrões que a pessoa que ele visitava tinha fama em decifrar

diziam que não era nem homem nem mulher
e que fora um acaso que a levara a descobrir o talento em traduzir manchas e cicatrizes

que o que lia nas dermes das almas
revelava-se-lhe em sonhos e delírios
mas somente se adormecesse de corpo vazio
desabitado por um jejum feito de véspera

tudo isto lhe disseram uns conhecidos quando ele se queixara
e aconselharam-no a ir ver esse ente nigromante
mas que quando lá fosse
nunca o olhasse nos olhos

lá chegara então
e sem encarar o ser de frente
expôs o caso

que havia um primitivo arrependimento
a teimar em voltar
a arder por vezes nas escamas do espírito
que não sabia porquê
porque já o enterrara fundo há muito tempo

a resposta que obteve chegou-lhe por uma voz sem eco

que tinha de lhe mostrar as mãos e suster a respiração até o dia nascer de novo

ele não sabia se era capaz
a madrugada ainda tinha muita noite por sorver

mas tentou

estendeu as mãos e inspirou o mais que pôde

assim ficou

até hoje

as sinas nuas viradas para cima
o peito cheio de ar e de tempo
os olhos tão fechados que enxergavam o passado

quem o cruza
não imagina a razão de tal pose
alguns deixam uma moeda ou outra a pensar que é um artista de rua
uma daquelas estátuas humanas que se estagnam para lá do razoável


A minha palma, Foz do Douro, setembro 2026

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