dia 273 - ao de sempre

voltemos ao de sempre
ao lento passar do tempo
à contagem obstinada de cada instante que é engolido
fazendo com que cada dia seja mais um ontem
cada sono um pedaço de morte para que no fim se possa fazer as contas devidas e dizer aos deuses

eu já morri isto e isto e isto
imagino que não me sobre muito mais
passemos ao que há depois
obrigado

há que reencarnar até não existirem mais corpos onde calhar
há que naufragar para que uma nova maré regresse e nos leve

ser o passageiro calado numa viagem pela madrugada
enquanto o carro atravessa a estrada
seguindo a luz dos faróis por entre a poalha noturna

recitar as rezas que nunca soubemos de cor
mas cujo o sussurro vibrava nos lábios das avós
esperar para as histórias que inventamos

seguir os contornos das sombras sobre a areia
e decifrar o que a língua das ondas diz por entre espumas

voltemos ao de sempre
aos adiamentos dos lutos por fazer
aos segredos enterrados tão profundamente que acabam por ver o céu do outro lado

haverá melancolia suficiente no outono que chegou
para poder desenhar um sorriso cansado do rosto ao espelho

recuperar a forma que se perdeu em três dias de viagem
ou largar as cismas de vez

listar uma a uma as listas a fazer
organizar o caos que insiste em padronizar-se
seja o das coisas concretas
ou o de tudo o que é etéreo e se escapa por entre os dedos

não esquecer a vista gasta
que parece crescer no desfoque do que é miúdo
pensar que há poemas tão pequenos que podem passar despercebidos só porque não se usam óculos de leitura

voltar ao colo do amor
ao encaixe dos nossos corpos para ser inteiro de novo

fazer um esforço mais para que o ano se cumpra
começar a pensar em tudo o que há por sonhar ainda

não hesitar em ouvir e em calar
saber agarrar o sangue na guelra para que dê uma volta mais pela alma antes de sair a coalhar sem sentido

voltemos ao de sempre
com a delicadeza de uma urtiga
e a ferocidade de um sopro

voltemos ao de sempre
professemos quer a verdade quer a mentira
porque nunca se sabe quando se revelam até ser tarde demais


Uma das obras do projeto "As Criaturas", Zurique, Suiça, Maio de 2016

Sem comentários: