erguendo-se até tocar o céu
e a sombra que projetava não acabava de ir
o próprio olhar não sabia dizer se acabava antes ou logo depois do horizonte
os ventos sopravam contra a enormidade
esgueiravam-se ao redor
procurando seguir pelo deserto depois desse embate inesperado
o vazio em volta era tal
que a torre tornava-se um monumento à solidão
peregrinos vinham de longe
percorriam continentes e atravessavam mares
para poderem inclinar o pescoço até caírem para trás
era vê-los
deitados nesse sopé desalentado
a roerem o cansaço e a invocarem os deuses
não havia entradas
o edifício era um obelisco sem nome e sem idade
ninguém sabia quando tinha sido erigido nem quem tinham sido os autores
as lendas contam coisas variadas
que um gigante espetara essa lança de pedra
que o fizeram por entre lágrimas que pareciam uma cascata
que viera do céu esse prego cósmico
trespassando o chão até ao âmago da terra
deixando de fora uma pequena parte somente
que brotara do solo
como um cogumelo furtivo numa noite de lua cheia
e que à primeira luz do dia se petrificara
enfim
mais fábulas havia para todos os gostos
mas a realidade era que ninguém sabia
e que o rumor da sua existência tinha atravessado o mundo
e que os que cá vinham
mais do que querer saber
queriam confirmar que não dava mesmo para se saber
e assim
ao longo dos tempos
romeiros de todas as idades e de todos os lugares
chegavam olhavam e regressavam a casa com uma história para contar
e era nesses regressos que a torre ganhava forma
era nas palavras dos que a tinham visto que ela se sustinha
no embate contra os céticos que nunca ousaram ir ver
na magia que vibrava nos olhos dos curiosos que se preparavam para enfim a irem ver
na leve indiferença das mulheres que tinham mais que fazer do que ir atrás de miragens
na compreensão silenciosa dos mais velhos que um dia tinham sido menos velhos e ainda se lembravam do sabor de uma aventura
a torre
mais do que existir
simbolizava
e um símbolo
é sabido
carrega almas para o infinito
Torre Effeil, Paris, França, fevereiro de 2023
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