dia 274 - ela e o velho

ainda não tinha vivido o suficiente
havia um vazio enorme a preencher adiante
ou pelo menos para tentar

sempre foi o mais importante
tentar
já lhe dizia o velho que passava o dia no café a mendigar bebida em troca de conselhos

ela crescera nos verões que passava pela frente dos homens sentados a beber
ouvia as conversas e apercebia-se de como exageravam em tudo o que contavam
e cedo também entendeu
de como esses homens
viviam através dessas exorbitâncias e desses excessos nos relatos

daí até compreender a natureza esquiva da mentira foi a vertigem de um passo em falso
um arrepio fulminante que num ápice se escapava para fora dela depois de lhe atravessar a alma

as narrativas revelavam-se poderosas
bem mais do que a força dos braços ou dos abusos físicos

eram as palavras encadeadas que dominavam os espíritos e os corpos

quando ganhou coragem
fez perguntas a esses homens
e as respostas que no início eram cheias deles mesmos
depressa se esvaziavam em vergonha e em algo vago e indefinido

só aquele velho parecia dizer coisas por inteiro

e hoje
muito graças ao que ouvira naquelas tardes intermináveis
sabia estar preparada para o que pudesse vir

que há coisas que nascem e outras que morrem
que as razões raramente importam
que é sobretudo o que arde ou ardeu que importa

porque o fogo de uma existência vale bem mais do que as cinzas que deixa para trás
vale pelas labaredas que singraram no meio das tempestades
que quase naufragaram de vez mas que ainda assim lavraram num resto de pavio

o velho disse-lhe uma vez

paga-me um copo
e eu conto-te como é que se abraça uma madrugada

e ela lá ouviu
e foi como se tivesse ido também por uma noite dentro
com os braços estendidos a procurar o caminho
tudo isso no meio de um breu tão cerrado que as próprias mãos se perdiam
e a noite tinha a textura de um tecido delicado
e o dia quando chegou um infinito depois
revelava-os a ambos
a ela e ao velho
como outros seres

parecia não haver vinho que chegasse no mundo para tudo o que o velho tinha para contar
e nela
ávida em lhe ouvir a voz
o mesma tipo de sede uivava por dentro até não haver mais lua no céu

paga-me outro copo
e eu digo-te o que fazer quando te apaixonares
mesmo se
chegada a altura
o ignorares

e lá lhe disse
e ela lá ouviu

reconheceu mais tarde o acerto do conselho
e de como o velho adivinhara que não o chegaria a seguir
porque o amor é uma rebeldia
é o esvaziar da sensatez até não sobrar razão que não seja um assombro

paga um último
vá lá
e eu conto-te um segredo que passará a ser teu

e ela lá pagou


"A Rapariga dos Gansos"(1978) de Samuel Buri, Basileia, Suiça, maio de 2016

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