paire sobre os olhares até que estes a tatuem por dentro
na hesitação de se esbater
essa fuligem agarra-se a uma lembrança com o esforço igual de quando se professa uma elegia
não é fácil que um voo se desenhe
o traço para ser perfeito tem de dizer se ele se ergue se plana ou se despenha
e essas fronteiras confundem-se muitas vezes
o que para uns é um alento para outros é o um desalento ainda maior
os contornos do que se adivinha ao longe
firmam uma dúvida
será que a vida continua nos lugares onde não estamos para ver
ou vagueamos num cenário vazio para lá de nós
o que acontece teima em obrigar-nos a testemunhar
porque quando se revela somente por rumores
abre as portas a uma desconfiança que soluça em provocação
há silêncios ao largo
quando um barco parece demorar-se até ao limite
o fim do verão chegou
e o outono há de vir com a nostalgia de sempre
fará o seu percurso habitual
de nos enganar com dias ainda de sol e de falsa esperança
as chuvas conspiram em segredo por agora
planeiam em suspiro
preparam os motins nas embarcações que hão de regressar mais tarde
compilam as nuvens em alto mar ainda longe da vista
até inexoravelmente se anunciarem carregadas e saquearem a costa
mas por agora ainda faz sol
um último uivo de calor
como aqueles velhos lobos que sobem ao monte à procura da derradeira lua
abandonando a alcateia sem aviso
o que fazer quando não resta muito tempo
tragá-lo de uma vez ou saboreá-lo até que não sobre nada para lamber
estas perguntas desvanecem também
há um adormecer da alma no balanço lento do mar
o estio cumpriu a promessa
ardeu até à cinza
fez o que pôde e o que não podia deixar de ter feito
há uma eternidade por preencher depois deste dia e do próximo
e assim de seguida
o que vale é que remanescem acordes de piano
melodias há por onde podem esvoaçar para sempre
e também telas por desbravar
com as planícies alvas a vibrarem em contraluz
e silhuetas por moldar
algures escondidas nas pedras por lapidar
e palavras por forjar
tanto as que já vozearam como as que irão ecoar um dia no relato do nosso acaso
o que sobeja é a centelha de um sonho a querer acordar
mesmo sabendo que isso ditará o seu próprio fim
há nestas coisas
inevitáveis e maiores que nós
um esboço de melancolia
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