dia 266 - a vidente

ela antecipava-se às vozes que sabia que iriam chegar
e cometia as loucuras antes desse ditado mental

habituara-se após tantos anos

fora essa a forma que encontrara para pelo menos ser dona de si

não que desejasse fazer as coisas que fazia
mas fazendo-as antes de ser obrigada
dava-lhe argumentos para encarar os devaneios de frente

de lhes dizer

vejam
o que me pedem já eu cumpri

e a verdade é que essas falas acabavam mesmo por chegar
ecoavam por dentro com a força de uma revelação
fosse de um deus ou de um demónio

quando confrontadas com esta abordagem de adiantamento
ficavam sem resposta
surpresas e com a sensação de inutilidade

de que valia possuir um louco se ele já o era antes

e ela divertia-se com essa perplexidade esquizofrénica
como se fosse ela agora que comandasse a doidice

é certo que para os que estavam à volta não fazia diferença
antes ou depois era igual
os atos falavam por si e o que diziam não era aceitável aos olhos da doutrina

quando a internaram não esperavam grandes mudanças
o protocolo era o de sempre
enchê-la de medicação e deixar o tempo passar
esperar não se sabe bem o quê

mas também nisso ela antecedeu
e insulou-se numa apatia para lá de entediante

foi engolindo o tempo e a espera antes mesmo deles se aperceberem
e assim enganou-os de igual forma

acabaram por dar-lhe alta
e ao sair do asilo olhou-os com um sorriso antes de desaparecer para sempre

nunca mais ninguém soube dela durante anos

foi muito mais tarde que um desconhecido se sentou no café da aldeia e em troca de uma noitada de bebidas foi contando o que sabia

que ela tinha ido para longe
que se instalara num lugar onde as pessoas a iam ver para saberem o futuro
que ela dominava os presságios
que dera a volta à loucura de tal forma que tudo vira e tudo sabia

o homem bebeu até cair a um canto a dormir
alguns dos que o ouviram fizeram-se à estrada
iriam atrás dela
uns por curiosidade
outros por malícia
e outros ainda porque acreditavam

não mais se soube dela nem dos que partiram
o desconhecido esgotara também o que sabia e mais ninguém se interessava pelo assunto
mendigava agora por umas moedas que pudesse trocar por vinho
e o café perdia-se no silêncio do esquecimento


Painel numa casa na rotunda do Bessa, Francos, Porto, janeiro de 2018

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