não era bem adivinhar o futuro
nem sabê-lo
nem imaginá-lo
era algo paralelo a tudo isso
como se numa realidade distante uma outra vida lhe fosse acontecendo
e nessa viagem meia onírica meia alucinatória
ele queria levá-la a ela também para lá
queria entender que amor seria possível sob um outro céu
se calhar até com outro olhar e outro corpo
se sobraria do assombro atual alguma coisa de diferente ou de igual
queria entender até onde uma emoção poderia ir
se por acaso
ao chegar ao horizonte tropeçaria e resvalaria para lá do mundo ou se simplesmente o adiasse inalcançável
ela hesitava
não sabia bem o que significavam aqueles anseios
por que não se contentava ele com a realidade concreta de estarem aqui e agora frente a frente
o que poderia acrescentar esse sonho a mais numa história que eles já tinham escrito
na verdade
ele também não sabia bem
mas desde sempre que sentia que o mundo não era o suficiente
não que não contivesse mistérios e espaço e coisas que chegassem
aliás
até era o contrário
tinha disso tudo em demasia
mas já que não conseguiria esgotá-lo nem sorvê-lo por inteiro
mais valia descobrir outros infinitos
ver até onde poderia ir a ignorância e esse sentimento de insuficiência
era isso
fazer o caminho contrário
saber o quão nunca saberia
sentir o que nunca sentiria
até onde poderia ir um sentimento ou a ideia de um sentimento
será que as chamas ardem da mesma forma noutra língua e noutro mar
agarrava-se então a essas recordações inexistentes
como quem vive através de um livro ou da música
ou quando se conhece alguém que nos marca tão profundamente que de imediato sabemos comungar
ela temia que tudo isso os afastasse
ela tinha raízes menos aéreas que as dele
precisava de referências para não perder o equilíbrio
queria mordê-lo para saber que existia
tanto ele
entre os dentes e a saliva
como ela
no paladar do calor e suor iodado que ele imanava
ela necessitava ao mesmo tempo de um abraço e de uma certa distância
mas essa distância não podia ser ao largo do largo
havia que estar ao alcance de um capricho ou de uma saudade
no fundo
ambos navegavam por incertezas e certezas
ele num movimento interdimensional
e ela numa escavação telúrica
é certo que se encontravam a meio caminho
num limbo onde ambas as almas fulminavam
mas nessas explosões siderais
logo cada uma se escapava pelos seus universos
como o sol quando engolido no instante final do ocaso
sem se aperceberem
iam vivendo como uma ação fantasmagórica intocável
eram reais ao mesmo tempo que surreais
o amor entre eles sobreviveu às dúvidas
mas também sucumbiu
morria e nascia a cada momento
aniquilava-se no excesso dele mesmo e reencarnava logo de seguida na loucura do desejo
assim foi sendo e não sendo
numa intermitência que nem tempo tinha em o ser
e numa continuidade que nenhuma estrada conseguia suster
foi mais tarde
quando passadas gerações sobre eles
que descobriram
quer as cartas que ele lhe escreveu quer os poemas que ela lhe dedicou
e nesse conjunto de palavras
finalmente
o encontro de ambos pôde ecoar
tanto pela irrealidade que ele ambicionava
como pelo húmus do qual ela se alimentava
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