dia 267 - a história de um amor

ancorou-se num instante a lembrar o que ainda não tinha acontecido
não era bem adivinhar o futuro
nem sabê-lo
nem imaginá-lo

era algo paralelo a tudo isso
como se numa realidade distante uma outra vida lhe fosse acontecendo

e nessa viagem meia onírica meia alucinatória
ele queria levá-la a ela também para lá

queria entender que amor seria possível sob um outro céu
se calhar até com outro olhar e outro corpo
se sobraria do assombro atual alguma coisa de diferente ou de igual

queria entender até onde uma emoção poderia ir
se por acaso
ao chegar ao horizonte tropeçaria e resvalaria para lá do mundo ou se simplesmente o adiasse inalcançável

ela hesitava
não sabia bem o que significavam aqueles anseios
por que não se contentava ele com a realidade concreta de estarem aqui e agora frente a frente
o que poderia acrescentar esse sonho a mais numa história que eles já tinham escrito

na verdade
ele também não sabia bem
mas desde sempre que sentia que o mundo não era o suficiente

não que não contivesse mistérios e espaço e coisas que chegassem
aliás
até era o contrário
tinha disso tudo em demasia
mas já que não conseguiria esgotá-lo nem sorvê-lo por inteiro
mais valia descobrir outros infinitos
ver até onde poderia ir a ignorância e esse sentimento de insuficiência

era isso
fazer o caminho contrário
saber o quão nunca saberia
sentir o que nunca sentiria

até onde poderia ir um sentimento ou a ideia de um sentimento
será que as chamas ardem da mesma forma noutra língua e noutro mar

agarrava-se então a essas recordações inexistentes
como quem vive através de um livro ou da música
ou quando se conhece alguém que nos marca tão profundamente que de imediato sabemos comungar

ela temia que tudo isso os afastasse
ela tinha raízes menos aéreas que as dele
precisava de referências para não perder o equilíbrio
queria mordê-lo para saber que existia
tanto ele
entre os dentes e a saliva
como ela
no paladar do calor e suor iodado que ele imanava

ela necessitava ao mesmo tempo de um abraço e de uma certa distância
mas essa distância não podia ser ao largo do largo
havia que estar ao alcance de um capricho ou de uma saudade

no fundo
ambos navegavam por incertezas e certezas

ele num movimento interdimensional
e ela numa escavação telúrica

é certo que se encontravam a meio caminho
num limbo onde ambas as almas fulminavam

mas nessas explosões siderais
logo cada uma se escapava pelos seus universos
como o sol quando engolido no instante final do ocaso

sem se aperceberem
iam vivendo como uma ação fantasmagórica intocável

eram reais ao mesmo tempo que surreais

o amor entre eles sobreviveu às dúvidas
mas também sucumbiu

morria e nascia a cada momento
aniquilava-se no excesso dele mesmo e reencarnava logo de seguida na loucura do desejo

assim foi sendo e não sendo
numa intermitência que nem tempo tinha em o ser
e numa continuidade que nenhuma estrada conseguia suster

foi mais tarde
quando passadas gerações sobre eles
que descobriram
quer as cartas que ele lhe escreveu quer os poemas que ela lhe dedicou

e nesse conjunto de palavras
finalmente
o encontro de ambos pôde ecoar
tanto pela irrealidade que ele ambicionava
como pelo húmus do qual ela se alimentava


Obra de Egon Schiele, "O Abraço", Galeria Belvedere, Viena, Áustria, abril de 2022

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