dia 272 - processo

a pergunta chega
vinda de várias vozes
e vinda até também de mim próprio

como é que fazes

não sei bem o que responder

por um lado conheço a resposta
por outro duvido desse conhecimento

o que é certo é que tudo começa numa espécie de promessa
num desafio interno
edificado num momento sem chão mas com prazo
exatamente como qualquer outro devaneio

depois torna-se numa disciplina
até que no momento em que vá falhar
torna-se uma teimosia e uma recusa em não cumprir
e só então se descobrem as razões

seja uma forma de vergonha
um medo do que os outros se calhar nem pensem
ou a confirmação de mais um dos muitos falhanços que nunca aconteceram

mas com o tempo
a verdade é mais crua
ela é o reflexo no espelho e o confronto com o que sou e o que não sou

por isso
pelo menos até agora
tenho persistido neste périplo diário

e há dias em que tudo flui e em que tudo é fácil
outros há em que é necessário esgravatar a alma e queimar insónias
e outros ainda que o resto da existência se mete no meio com contratempos e constipações e ressacas

como é que fazes

perguntam

não sei
mas sento-me
seja onde for
e costuma ser noite e fazer silêncio

então começo

um verso de cada vez
uma palavra de cada vez
uma letra de cada vez

quando o vazio se impõe
vou procurar uma voz
sejam outros poemas
meus
ou deles
sejam eles quem forem
seja uma música
de preferência só piano
e lento
seja uma vista
dela ou de um abismo que são a mesma coisa

mas nem sempre isso resulta
há dias em que preciso de me calar até que o que digo dê a volta e se faça poesia

e nem sempre resulta em algo de jeito
muitas vezes é atabalhoado
algumas sem norte

mas também as há em que acerto
seja no desacerto evidente de todas as coisas
seja na honestidade e inevitabilidade do que vozeio

em todo o caso
tudo o que escrevi até hoje
lavrou
ao mesmo tempo e em simultâneo
no fogo do paradoxo
das minhas inegociáveis
liberdade e dependência


Eu, Werchter Rock Festival, Bélgica, junho de 2007

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