dia 270 - exílio

o quarto tinha uma janela
a luz entrava
despejava-se sobre um chão de madeira velho
adivinha-se o ranger dos passos

a cama dava para um corpo
talvez dois se a solidão apertasse nas noites frias
mas não mais que o tempo de se cansarem as almas com o bafo uma da outra

era um antro de exílio
precisamente o que ele tinha pedido

era hora de recolhimento

há muito que precisava de silêncio e de tempo

haveria de comprar um espelho
era importante poder simular uma companhia a qualquer momento
nunca se sabe quando são precisos conselhos
ou sarcasmos e insultos

haveria de domar o pudor
percorreria o corpo até o conhecer de cor e desinteressar-se

teceria o tédio até não haver mais com que se aborrecer
seria então a altura de dizer as verdades que tinha de dizer

sairia de vez em quando
quando a fome o exigisse e as pernas pedissem estrada

mas seria na quietude que passaria grande parte do porvir
vasculhando as ideias que nunca chegaram a assentar
tentando perceber as cismas que o atormentavam

não queria perder-se em lembranças nem arrependimentos
o que desejava era agarrar-se ao presente com a ferocidade que sabia possuir
como que a dominar um agora que desde sempre se lhe escapara

desvendaria os segredos que trazia
os caminhos das emoções e os tratados dos sentimentos

declamaria poemas sem ceder à tentação de os escrever
preferia guardá-los em saliva e cuspe e sopro
revelá-los quando a noite fosse profunda e ninguém no mundo estivesse acordado

seria deus crente e cético de si mesmo
intercalando tanto preces como dúvidas como ofensas
dedicar-se-ia a julgar-se
a pesar o bem e o mal das coisas à volta
de condenar e absolver o réu cujo papel desempenharia também

no dia em que a loucura inevitavelmente chegasse
enfrentá-la-ia olhos nos olhos
encarando-a a eternidade necessária até um deles desistir

esperava que fosse ela a ceder primeiro
mas se acabasse por ser ele
ao menos que o fizesse no último instante
quando tivesse esgotado o espírito e sobrasse somente a carcaça do que fora

era esse o plano
entrar nesse quarto com uma janela e uma cama
comprar um espelho
e enfrentar a espera num duelo sem prazo e sem desfecho

tinha o alento necessário para se lançar
só não sabia até que infinito o ímpeto o levaria


Cama desfeita em Uddel, Países Baixos, novembro de 2018

Sem comentários: