dia 271 - trilhos

os trilhos de mais um escape
a origem e o destino estão traçados
confundem-se nas esperas
e no verso de Cohen

you'd been to the station to meet every train

como se fosse possível de uma só vez
abraçar as promessas todas que há por cumprir
apanhar o que sobra dos lutos
beber o que há de amor
guardar nos bolsos a poesia inteira que ainda irá ser escrita

lembrar as velhas carruagens abandonadas no oeste
a roerem-se em ferrugem nas aldeias fantasmas
a deixarem os coiotes esfomeados deitarem-se sobre as suas sombras

a poeira do abandono a rodopiar e a chamar o deserto
as areias a entrarem pela estação em ruína
retratos de bandidos presos nas paredes
os valores de recompensas a esbaterem-se
um relógio sem ponteiros a esvaziar o passar do tempo

mas essa lembrança tinha a cor sépia das imagens antigas
e na verdade
sustinha-se num imaginário que se ia também diluindo

do lado de fora
adivinhavam-se as marcas dos duelos
quer de um contorno de corpo caído
quer da marca de balas nas molduras dos alpendres

as pegadas de galopes
quer dos que fugiram
quer dos que foram atrás

o silvar permanente do vento de sul
quente durante o dia
e gélido nas madrugadas

as grandes planícies a estenderem-se para o desconhecido
e as grandes manadas de búfalos
qual manta de retalho de um céu noturno que se esqueceu de amanhecer
a tingirem as pradarias de manchas negras em movimento

ao largo o horizonte
de um lado emparedado por montanhas longínquas que aguentavam o inverno inevitável
do outro lado escavado por um desfiladeiro que parecia não ter chão e de onde o bafo de fogo eterno subia

os trilhos silenciosos a cruzarem tudo isso
a curvarem para lá do olhar
fosse ele virar-se num direção ou noutra
a conspirar a antecipação de uma chegada ou de um atraso ou de um abandono


Estação de Treviso, Itália, setembro 2026

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