os trilhos de mais um escape
a origem e o destino estão traçados
confundem-se nas esperas
e no verso de Cohen
you'd been to the station to meet every train
como se fosse possível de uma só vez
abraçar as promessas todas que há por cumprir
apanhar o que sobra dos lutos
beber o que há de amor
guardar nos bolsos a poesia inteira que ainda irá ser escrita
lembrar as velhas carruagens abandonadas no oeste
a roerem-se em ferrugem nas aldeias fantasmas
a deixarem os coiotes esfomeados deitarem-se sobre as suas sombras
a poeira do abandono a rodopiar e a chamar o deserto
as areias a entrarem pela estação em ruína
retratos de bandidos presos nas paredes
os valores de recompensas a esbaterem-se
um relógio sem ponteiros a esvaziar o passar do tempo
mas essa lembrança tinha a cor sépia das imagens antigas
e na verdade
sustinha-se num imaginário que se ia também diluindo
do lado de fora
adivinhavam-se as marcas dos duelos
quer de um contorno de corpo caído
quer da marca de balas nas molduras dos alpendres
as pegadas de galopes
quer dos que fugiram
quer dos que foram atrás
o silvar permanente do vento de sul
quente durante o dia
e gélido nas madrugadas
as grandes planícies a estenderem-se para o desconhecido
e as grandes manadas de búfalos
qual manta de retalho de um céu noturno que se esqueceu de amanhecer
a tingirem as pradarias de manchas negras em movimento
ao largo o horizonte
de um lado emparedado por montanhas longínquas que aguentavam o inverno inevitável
do outro lado escavado por um desfiladeiro que parecia não ter chão e de onde o bafo de fogo eterno subia
os trilhos silenciosos a cruzarem tudo isso
a curvarem para lá do olhar
fosse ele virar-se num direção ou noutra
a conspirar a antecipação de uma chegada ou de um atraso ou de um abandono
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