dia 242 - esperar é um verbo que não acaba

deu por ele a sondar vestígios de uma vida que desconhecia

encontrou um espólio interminável de coisas 
umas concretas outras indistintas e de contornos múltiplos

havia ali uma herança antiga
uma história de amor provavelmente
e de desamor em absoluto
dava para notar no cuidado com que tudo fora guardado
mas não era só um desgosto nem um fulminar de paixão

havia saudades e dores e afagos
havia memórias a gotejar e muitas sombras de várias almas à espera
havia um murmúrio subtil a reverberar à volta

encontrou palavras escritas
outras que ficaram por dizer
páginas inundadas onde nem um palimpsesto mais cabia
outras tão vazias que o próprio silêncio ia nu

e as cartas que um dia foram sinal de proximidade
hoje eram o reflexo da distância incomensurável do que acabou por nunca acontecer
como os segredos que mudam as formas das nuvens somente por existirem e conspirarem pelo éter

ele sabia que se não olhasse para trás
o futuro não encontraria o caminho oculto para acontecer

deixou-se ficar por ali
nesse museu de um pretérito hipotético a tecer um porvir improvável

descobriu que era possível sobreviver numa existência inverosímil
que o impossível era uma forma de eternidade
que se estendia sem fim até eventualmente realizar-se

no fundo
nesse limbo entre a realidade e o sonho
tinha tempo de sobra para esperar

e esperar é um verbo que não acaba

o legado que encontrara e agora visitava
fruto de um acaso diga-se
far-lhe-ia companhia neste lugar sem nome

e embora esses bens não fossem dele
ambos órfãos e desacompanhados
poderiam em conjunto tecer uma nova linhagem arqueológica das suas vidas
e entrelaçando a solidão dos dois
ir resistindo
sobrevivendo ao lento correr dos dias


Cerâmica arménia de Jerusalém, prenda de uma amiga para a Maitê, Foz do Douro, agosto 2026

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