dia 231 - paradoxo luminescente

no tom calmo
o velho foi dizendo as coisas
fazia-o sentado a olhar pela janela
enquanto nós
os que ouvíamos
seguíamos cada palavra e gesto

a linguagem é um intricado de ligações dúbias
ela serpenteia furtiva
e quando menos se espera
revela o reverso de uma medalha que até então nem sabíamos existir

e ao dizer estas palavras olhou-nos nos olhos e continuou

quando olhamos uma maçã vermelha
dizemos que a maçã é vermelha
mas na verdade
a luz visível que é feita de todas as cores
e que ao sê-lo vive branca e pura
chega à maçã por inteiro
e pergunto

o que faz a maçã
ela absorve todas as cores visíveis da luz com exceção de qual

isso mesmo
a cor vermelha

por isso
a maçã na realidade não é vermelha
ela é de todas as outras cores menos vermelha
rejeita a cor que acaba por não ser

ficámos em silêncio até que fizesse sentido voltar a falar
mas o silêncio cresceu até ser desmesurado
e esse infinito pesou tanto que houve uma espera insuperável

um hiato entre o velho e nós
entre as palavras e o vozeamento e ainda o que supostamente diziam
como se o tempo fosse dissecado em intervalos cada vez menores
e na soma desses ínfimos instantes coubesse uma eternidade

no desenrolar de tudo isso
o velho envelheceu para lá dele mesmo e nós fomos atrás
sorvendo idade e eras e épocas e poeira de dilações
e elas
quais parasitas
a tecerem-se de evidências
encarquilhando as rugas mais fundo
desfocando a vista já cansadíssima
desabotoando a audição timbre a timbre
emperrando ossos e articulações

e assim sucessivamente
até mumificar esgares
marmorear corpos como as estátuas clássicas
ou encapsulá-los numa película fina de poalha vulcânica
fossilizando-nos a todos naquele cenário

o que sobrou
foi a fugaz lembrança 
de que tudo é a simulação de uma ilusão
uma sombra projetada sem uma silhueta que a desenhe

a maçã a ser vermelha
e ao mesmo tempo
não sendo


Fotografia (sem título) de Michael Schmidt, exposição From Food, Museu Albertina, Viena, Áustria, Abril de 2022

Sem comentários: