dia 235 - duelista

de novo aquelas histórias de um duelo de navalhas
quando um caiu perdendo a sombra por completo
e o que ficou de pé viu a própria crescer para lá da penumbra
aumentada pelo sangue que se esvaía do corpo morto alastrando-se pela terra poeirenta do meio-dia da canícula

estas coisas ficavam sempre a pairar nas conversas do café onde tudo acontecera
uns a discutirem razões e motivos
outros a luta e as técnicas
outros ainda a coragem a covardia e o azar e a sorte que os golpes ditaram

eu
na minha curiosidade de cronista
tentava engolir tudo
queria
mais do que saber
partilhar a sequência do início ao fim com o mundo
mostrar que ainda havia esquinas onde estas coisas aconteciam

mas depressa entendi que estes confrontos não têm uma origem
ou então ela é tão antiga que fala outra língua
vem de outra era e é herdada pelas gerações que se vão apinhando depois

e percebi que também não têm fim
que há filhos e netos que ficam com uma fome de vingança por saciar
ou simplesmente seres que anseiam por sangue
e mais cedo ou mais tarde
o reflexo do sol há de cintilar nas lâminas perfeitas e prontas a lancetar

o mais velho
parecia entender tudo isto melhor que ninguém
ele mesmo tinha uma cicatriz em diagonal que traçava o rosto
que descia do sobrolho passando pelos lábios e acabando no queixo
tendo pelo caminho vidrado um dos olhos para uma cegueira prematura

ainda assim
no cinto das calças
um cabo de faca mostrava-se acima de uma bainha de couro onde seguramente uma navalha descansava

bebia devagar uma bebida que esperava a dois dedos do fim de um copo
e sentado num canto disse-me algumas coisas que ainda hoje recordo

num duelo
morrem sempre dois

um morre na hora
e o outro
o que sobra
morre todos os dias que se seguem

perguntei-lhe se ele também ia morrendo todos os dias
se a marca na cara fora cravada numa dessas disputas
e qual fora a razão

eu já não morro mais
já morri vezes que chegassem
e sim
esta minha cara nasceu logo da primeira vez que me desafiaram

eu tinha quatorze anos
ele tinha cinquenta e muitos
dizia que eu lhe lembrava o amante da mulher

respondi-lhe que a mulher tinha bom gosto
e a partir daí é fácil de imaginar
um de nós morreu na hora e o outro foi morrendo depois

confrontei-o de que ele dissera que já não morria mais
que se isso era verdade
o que se passara entretanto

entretanto
perguntou enquanto matava a bebida e se levantava

o entretanto foi feito de muitas outras facadas
de provocações
de mal-entendidos
de álcool a mais
de maldade
de piedade também

e foi avançando para mim desembainhando a arma

eu disse-lhe para ter calma
que eu nem navalha tinha

isso não é problema
trago sempre duas

e do bolso traseiro retirou uma outra faca que me atirou para os pés

vamos
essa curiosidade toda merece desaguar
e eu tenho mais coisas para fazer

baixei-me a suar e peguei na navalha
um arrepio atravessou-me o corpo e a alma
e sem contar
um esboço de sorriso começou a desenhar-se-me na cara

recordo tudo isto hoje
ao passar os dedos pela textura áspera da cicatriz que tenho junto ao pescoço
e de como a meio da noite
desde esse dia
acordo sem conseguir respirar
como se emergisse dos infernos

morria como me fora dito
talvez fosse melhor procurar um último inimigo


Faca com história, Foz do Douro, fevereiro 2021

Sem comentários: