dia 229 - melodia

apenas uma composição sobrava no espólio

os abutres tinham vindo antes
provavelmente quando o corpo ainda estava quente
e nessa sede insaciável de quererem ser maiores do que a pequenez inata que detêm
deglutiram as obras inéditas a torto e a direito
sem olhar a qualquer ordem ou pudor

a memória do maestro era assim delapidada por plagiadores menores

mas restava então uma peça
uma melodia pelos vistos

um acorde inicial lá no alto
e depois uma gentil descida em timbre e tom
um rodopio aqui e ali
muita emoção contida mas sobretudo limpa e vibrante
como aquelas manhãs inundadas de luz no início do verão

pelo menos foi o que me pareceu ao desenrolar a pauta à pressa e lê-la no silêncio da mente

teria de tocá-la mais tarde quando chegasse a casa
no piano velho que sempre me esperava junto à janela que dava para as traseiras

mas era do maestro defunto sem dúvida
tinha o manejo certo do ritmo e a precisão dos recomeços que ele sempre dominou tão bem

provavelmente ainda estaria incompleta
era um bom prefácio do que certamente teria sido uma sinfonia mais lá à frente

mas quem morre não acaba o que não acabou
a morte é o adiamento de algumas coisas
um adiamento perpétuo

assim é

mas o maestro deixou-nos uma vasta obra
e mesmo se alguns urubus o depenaram no final
esta última melodia será dada a conhecer em todo o seu esplendor

é só chegar a casa
afinar o piano
e tocar

tocar pela primeira vez o que um morto deixou e ninguém ainda ouviu
como segredar a maior das inconfidências
o maior dos pecados
dos arrependimentos
das fantasias

como espreitar o corpo nu de um desejo
declarar um amor impossível
contar a verdade

há nestas coisas definitivas
um peso maior do que parece haver visto ao longe de relance
como aquelas ondas gigantes que não acabam nunca de nascer em alto mar
e que ao avistarem a costa ainda mais parecem crescer
até que se desmoronam numa montanha de água inconcebível
e no caos de uma via láctea de espuma e de uma chuva que cai desvairada e vinda de todas as direções
o estrondo rebenta pela orla inteira mas sobretudo pela alma toda

a melodia
é uma dessas ondas
ainda não acabou de nascer


Porta de uma casa na Ilha do Pico, Açores, outubro de 2020

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