dia 237 - apelo inevitável

ia-se olhando as escarpas que existiam entre as pessoas
o mundo de cada uma isolado
e elas solitárias a olhar os horizontes que se afastavam cada vez mais

havia um espaço a crescer entre as almas
e era preciso falar cada vez mais alto para que se ouvissem

com o tempo a passar
as palavras iam sendo berradas
e o vozear perdia o sentido
cada um prostado nas falésias
as gargantas esgotadas e o que chegava incompreensível

o afastamento agigantou-se até cada um ser uma ilha perdida
a sensação é de que era o universo que estava à deriva
enquanto que cada ilhéu estava ancorado num eixo inamovível

o destino seria um isolamento final
condenando os seres a vadiarem nas extremidades dos próprios abismos

isto era o que o quadro revelava

uma obra enorme a cobrir uma parede que parecia não ter fim

o artista falava com umas pessoas a um canto
e de frente para a pintura
um casal discutia detalhes e técnicas

eu entrara por acaso
talvez levado por uma daquelas brisas que nos empurram pela vida fora

a tela falava-me então desse distanciamento entre os espíritos
expunha o grande mar a apartar tudo e todos

mas também ia murmurando os cansaços de cada homem e mulher isolados nos seus rochedos
de como cada um deles se esgotava em desespero e ao mesmo tempo em esperança

a contradição aliás
ia ganhando força à medida que o meu olhar se pousava

apesar do desterro
a possibilidade de uma comunhão afinal resistia

as marés tinham os seus desígnios
quem sabe se um deles não seria levar todos a dar a uma mesma costa

para isso
bastava que se fizessem ao mar
que se lançassem com fervor para as ondas
que naufragassem para lá deles mesmos

a meio deste devaneio uma mão tocou-me no ombro
era o artista a apresentar-se
a perguntar se eu gostava

eu a dizer que não sabia
e ele a dizer

perfeito

e afastou-se
ou o espaço entre nos é que expandiu

fiquei eu a não saber
e enquanto não sabia alargavam-se mais as distâncias
de mim para o quadro do quadro para os outros e do instante para tudo o resto

a expansão prosseguiu até o olhar se perder de vez
e à volta de mim o mar a bramir um apelo inevitável


Ao largo de Djerba, Tunísia, agosto de 2017

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