ninguém ouve
só os mortos
só os mortos ouvem
mais ninguém
os vivos andam por aí
com os corações como alvos
inconscientes de que a qualquer momento
por capricho divino
um assombro lhes pode trespassar a alma
e nesse instante
tudo mudar
tudo a mergulhar na anarquia de um amor
no caos de uma paixão
no mar revolto de uma obsessão
eu
nem viva nem morta
apenas atenta
entre dois mundos
mordendo os corpos dos vivos quando me dá a fome
e dormindo o sono dos mortos quando me aperta a solidão
demorei muito tempo até saber onde deveria estar
passei eternidades nos lugares errados
perdida em labirintos sem saída
ou abandonada em descampados para lá de ermos
foi preciso que eu visse
tanto os mortos como os vivos
que os olhasse nos olhos para perceber o meu lugar
e é neste limbo
nesta linha ténue entre o que ainda vibra e o que já é só inerte
que eu me equilibro
que eu gingo e devoro o mundo a meu gosto
tanto colhendo a luz inteira do sol no meu corpo nu
como a engolir as madrugadas de homem em homem até que o dia renasça
também calha de me deitar à sombra suada e livre
e partilhar o que me sobra de sabedoria com quem se interessa
e procurar por momentos um segundo de comunhão para que não seja só o egoísmo a reinar
mas por onde me movo ninguém me alcança
sou a herança das caçadoras felinas da savana
não tenho sombra nem rastro
sou furtiva e letal
cintilo na elegância mortífera das musas
não sou mera inspiração como alguns creem
eu sou a manifestação da própria arte
sou o desaguar de uma voz que decidiu fazer-se ouvir
sou a improbabilidade tornada concreta
talvez até seja o lado oculto das penumbras
o avesso do que pulsa no âmago dos espíritos
sou a ninfa que desliza entre dois mundos
vou sendo a inevitabilidade que me calhou
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