dia 240 - sono merecido

encontrou
ao alar as redes de pesca para bordo 
um resto de luar a debater-se por entre a malha

com o cuidado possível soltou-o e largou-o de novo ao mar
ali ficou a boiar e à deriva no balanço leve das ondas

a rede vazia pingava no convés
gota a gota numa paciência maior
seria uma noite mais sem apanha

os cardumes teriam escapado por outras marés
e a manhã iria chegar limpa

enquanto o sal calcinava nos cantos secos do barco
ele juntou algumas das conchas e algas que a rede trouxera
meteu tudo num balde de tristeza
um costume para não esquecer os dias menos bons
para que eles contassem tanto como os dias menos maus
era um hábito antigo que herdara do avô

começou a pensar nas palavras que teria de dizer uma vez em terra
ele que nem gostava de falar
encetou também que silêncios seriam necessários quando do outro lado lhe falassem

era um jogo de coisas a dizer e coisas a calar de vez
um esgrimar de egos até a hierarquia se impor
ou uma agressão brotar irrefreável

era hora de regressar
a rota dava-lhe tempo para arrumar o deque e desarrumar a alma

em terra o tempo não sobraria
cada instante tem uma raiz a fincar
e o emaranhado de cronos exige o peso de um corpo e a atenção de um olhar quando se está desembarcado

a bordo não
o corpo balança e o olhar evade-se
há tempo dentro do tempo por aqui
a cada vaga respinga uma espuma mais de instantes
há uma cadência a ritmar as coisas
e há um horizonte que circunda sem fim tudo o que se alcança

haveria de correr bem
há mais marés que marinheiros pelos vistos
os adágios nunca erram
ou se erram
um outro surge a corrigi-lo

ao largo surgia a costa
e o porto a abraçar outros barcos que chegaram primeiro
havia que esperar mais um pouco

ele e a tripulação juntaram-se na cabine do leme
brindaram com rum
lembraram piratas e náufragos

hoje dormiriam sem embalo
mas muitos deles passariam a noite em branco
tinham insónias para queimar

ele provavelmente ficaria a bordo
não confiava em ficar demasiado afastado da água

atracaram por fim
desembarcaram e rumaram pela doca até desaparecerem na confusão matinal

ele foi prestar contas
ouviu o que tinha de ouvir
escolheu engolir um pedaço de orgulho em vez de ceder a uma raiva latente

regressou a bordo

no camarim acabou com a garrafa de rum e adormeceu
sonhou com pesca e ondas largas a levá-lo para longe

foi um sono merecido sentiu


Detalhe de capa de revista, escritórios da Symington, Vila Nova de Gaia, fevereiro de 2019

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