de tão cansado que estava
o próprio corpo já nem sombra delineava
e a voz perdera eco e projeção
caiu em silêncio sobre a cama improvisada
desmaiou até a alma voltar a tombar-lhe no corpo
em redor
como um bando de corvos enlutados
espectros sem rosto rondaram-no sem descanso
passaram-se mil noites e outras tantas até que acordou de novo
estremunhado
os olhos cheios de esquecimento
as mãos errantes em busca da cara da fronte e do cabelo
as pernas frágeis a equilibrarem-se a custo
demorou a recompor-se
foram precisas duas eternidades e meia até se poder erguer sem a ajuda de um apoio
e o que sobrava do império eram vestígios em ruína
cantos e recantos de uma poeira milenar com cor de argila sépia
um velho escriba remanescia
ficara a seu lado o infinito da convalescência
contou-lhe o que sucedera
de como os mais próximos o envenenaram
atraindo depois inimigos com a fome assassina em dar o golpe final
mas de como ele se defendeu
guiado por um instinto milagroso
esquivando-se dos lances mortais
respondendo com outros certeiros
e oponente após oponente
era vê-los derrubados amontoados aos pés da cama apodrecendo
enquanto ele dormia um sono tão profundo que o próprio dia demorava a nascer
com o passar das eras
foram morrendo os próximos
primeiro a mulher
depois as amantes
finalmente os filhos e os netos
não sobrava resto de linhagem quando o escriba lhe contava estas coisas
o que havia era solidão
o imperador sobrevivera a todos
sobrevivera a tudo
mas o legado decaíra e quem sabe se agora não seria então tempo de morrer também ele de vez
não perdoou tamanha ideia
e de um golpe só
com a espada invisível do orgulho
decapitou o escriba num ápice
se somente lhe sobrava solidão
se nada mais o esperava
então que assim fosse
avançaria por cronos inteiro
até a gastar
até a incinerar para lá de cinzas e de poeira
para que por último
mesmo antes do fim
possa estar ele
para além de só
a contemplar o desfecho
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