dia 223 - gémeos e heterónimos

ele era diferente de mim
tinha
ao mesmo tempo
pressa e pressa nenhuma
e ambas a revelarem-se nos momentos errados
desfasados

eu perguntava-lhe

amanhã
é essa a palavra
é essa que povoa a mente
eu não a sei
nem a entendo
para mim só há agora e já

mas ele muitas vezes adiava as coisas
atirava-as para esse tal depois que eu nunca chegava a enxergar
como se fosse possível acreditar que haveria um porvir quando o milagre atual resplandece por inteiro 

era esse descompasso que nos separava
eu no imediatismo e ele na hesitação e prorrogação

no resto parecíamos gémeos
os gestos os olhos o caminhar

havia até quem nos confundisse
mas só até ao momento de uma escolha

a demora entre a resposta dele e a minha resolução instantânea
desmascarava-nos

curiosamente
talvez fôssemos uma única pessoa
mas em ritmos diferentes
como se um de nós tivesse projetado a sombra para lá do aqui e agora
ou um reflexo
ou um eco

era difícil saber a verdade
tirar as dúvidas
questionar-nos
porque só coincidíamos raramente
quando um acaso se lembrasse
ou ciclicamente
como os eclipses e afins

até hoje
paira a dúvida
se éramos gémeos ou heterónimos


Fernando Pessoa, Museu da Chapelaria em São João da Madeira, abril de 2018

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