dia 232 - infinito maior

quão perto já estivemos um do outro
num gesto desenhado em intenção
tu do teu lado e eu do meu
a ir
de encontro a nós

porque houve um instante
antes de estarmos juntos
em que não estávamos ainda
e esse voo em dueto para o ninho de ambos
foi desenho que se firmou no quase

um quase que era líquido e em movimento imperceptível
como algumas pinturas o sabem dizer
ou como suster a respiração antes dos lábios se juntarem
ou uma onda no início do desabamento sobre a praia
ou a lágrima suspensa num canto do olhar a aguardar que a gravidade a chame

existe um momento anterior ao irrompimento de um bando de pássaros pelo céu
quando o predador se lhes lança numa fome adiada até ao limite

o mundo do intento em busca da chave para que uma porta se abra
um bailado onde se cruzam e afloram os corpos em rodopio
os pêndulos que vão e que voltam e sorvem de cada vez um pouco mais de ímpeto para que finalmente possam chegar ao destino
o sol que se agarra antes do suspiro derradeiro no mergulho que o afoga para lá do horizonte
o trago na garganta que gladiamos antes que as palavras certas vozeiem

todos estes trizes pulsam com uma ânsia desmesurada
vagueiam pelo mar do desejo
pela lava silenciosa da expectativa

no fundo
o que te quero dizer
é que estamos já a caminho nesse instante cristalizado de aspiração
que o amor estará em casa em breve
nem que esse breve seja um infinito

porque nós
meu amor
somos um infinito ainda maior


Foz do Douro, Porto, agosto 2026

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