pairava como um vazio despovoado
como uma ferida que durante décadas nunca sarou
recordo o dia em que chegou e lembro o dia em que saiu
e sei as razões e os rodeios de cada um desses momentos
o que me custa agora rememorar era o que representava
que linhas e traços e contornos preenchiam a tela
sobram umas figuras metidas dentro de hábitos escuros
os olhos suspensos dentro da sombra dos capuzes
uns monges de luto num lugar ermo
e é só
não me ficou muito mais
e claro
a obra era ou seria ou não era nem seria de um artista famoso ou valioso ou ambos
e isso é que fez com que em quatro décadas os silêncios neste sítio nunca se calaram
entre o dia em que chegou
passando pelo dia em que saiu
e o dia de ontem
nasceram e morreram e renasceram mais lendas e mitos do que em qualquer biblioteca
há os que juram que o próprio artista veio um dia entregar o quadro
que o trocou por uma garrafa e um copo junto à janela
há quem diga que foi um ladrão que chegou e negociou ao balcão
que pediu uma grade de cerveja em troca da obra
outros ainda afirmam que foi uma aposta entre o dono do estabelecimento e o artista
que num golpe de sorte e acaso tinha calhado ao da casa ficar com o prémio
nada disto foi alguma vez confirmado
até porque
anos depois
o quadro foi levado
e de novo uma torrente de versões jorrou da boca das gentes
que uma mulher seduzira o dono e em troca de uma noite de amor o pagamento teria sido a obra
que o artista voltara e implorara e que deixou uma mala de dinheiro e joias e qu recuperou o quadro
que o dono numa noite de excessos se apercebeu que afinal era falsa a composição
e perante o vexame retirou-a da parede e foi queimá-la nas traseiras
também nada disto foi confirmado
eu
eu conheço a verdade
estava presente nos três dias definitivos no encadeamento desta história
estava no dia em que a penduraram na parede
esteva no dia em que a retiraram
e estive cá ontem onde tudo isto se esclareceu de vez e perante todos
mas eu só conto estas coisas a quem me paga um copo
ou dois
e a quem tenha paciência e goste de uma boa história
se não
prefiro calar-me
assim poupo na sede e no bolso
e quem não estiver interessado
pode sempre engolir as patranhas por aí espalhadas
não falta sumo na fruta podre da mentira
mas se alguém quiser mesmo saber
se tem a mente aberta e a curiosidade para saciar
se pretende acreditar em relatos extraordinários
então que se chegue
que peça uma bebida e pense num brinde
porque então meus amigos
eu conto a história desse lugar vazio na parede onde já esteve um quadro
e conto tudo
do princípio ao fim
da garrafa
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