dia 238 - os outros que vou sendo

no ricochete de um olhar
chegavam as constelações aglomeradas à volta da íris

e recordo um texto antigo
onde esse cosmos rodopiou num quarto e onde tudo foi sorvido à volta e em turbilhão
os corpos as roupas a cama e o mais
num redemoinho que durou a madrugada inteira

amanheceu tarde após essa implosão
e havia uma sede imensa a pairar
uma sofreguidão a bradar depois de esgotar suor saliva e lágrimas

tudo isto regressou porque um olhar tabelava num reflexo e desaguava no meu

os labirintos por onde se perdem e se encontram estas coisas
torneiam por caminhos inomináveis
e assim
em mudez e quietude vão tecendo o mapa dos assombros

nunca se espera um milagre
ou mesmo quando se espera ele acaba sempre por ser uma revelação súbita

há que reconciliar os medos
fazê-lo às escondidas de nós mesmos
tragando-os aos poucos como um remédio cujo sabor nos repugna

moldando-os devagar como um pedaço de nada
ignorando o clamor e a repulsa
como aqueles monges imunes à dor
ou então abraçar o tormento inexoravelmente

não há escapatória aos tremores de uma febre
a alma estremece sempre quando a beleza se despenha pelos desfiladeiros da solidão

chegou o momento em que o olhar e o espelho cessaram
um porque se foi embora
o outro porque a água quente o embaciou cobrindo-o numa camada espessa de névoa

ao sair do banho
o corpo lavado e o rosto à procura dele próprio
acabei por me perder em minha busca

reencontrei-me mais tarde
deitado num sofá abandonado
hesitei em reconhecer-me mas acabei por me aceitar de volta

há momentos em que somos outros
em que somos estranhos até nos rendermos à evidência de que nunca somos o mesmo em momento algum

então lá fui indo
eu e todos os outros que vou sendo


Foz do Douro, novembro de 2020

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