desenharam a vénia devida
esperaram em silêncio até ser de bom tom trocar umas palavras
lembraram episódios passados
imaginaram alguns futuros
desempenharam o papel na perfeição até à hora de se retirarem
da mesma forma que chegaram foram
em ordem e em uníssono
do que ficou da cerimónia foi uma solidão imensa
os de casa foram arrumando o pouco desarrumo que houve
até ficarem cheios de tédio nas mãos cujos dedos iam estalando um a um até não sobrar mais nenhum
ela agarrava-se a uma perda
segurava as lágrimas como podia
metida dentro num daqueles gritos que dilaceraria o mundo em dois se alguma vez se soltasse de verdade
o sol ia vertendo luz pela tarde interminável
as árvores a contarem eternidades enquanto uma poalha se sustém entre contrastes
o jardim parecia agora uma pintura de museu
daquelas imagens que vamos vendo ao longo da vida
que reconhecemos por metade
primeiro num instante inicial e depois num eco posterior
que ora se propaga em indiferença ou em vago incómodo de não sabermos exatamente de onde a reconhecemos
ela um dia regressaria a estas coisas
por agora ainda não
por agora ainda há um lanho profundo na alma
por lá goteja uma dor maior que vai latejando como um terramoto interior
há que penar o inevitável antes de volver ao ondular mundano
os que vieram no início
que se vergaram e honraram a memória
tinham-lhe segredado ao ouvido
da dor
muitas vezes
nasce uma força maior
ela
perdida em agonia não ouvira as palavras
mas há sempre uma ressonância que sobrevive do que é proferido
e nela
num canto da alma
palavras irmãs se tatuaram
um dia
talvez na calada da noite
quando tiver a faca junto da jugular do assassino
ela as dirá
da dor
por vezes
nasce uma vingança maior
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