dia 226 - a dor

chegaram para prestar homenagem
desenharam a vénia devida
esperaram em silêncio até ser de bom tom trocar umas palavras

lembraram episódios passados
imaginaram alguns futuros
desempenharam o papel na perfeição até à hora de se retirarem

da mesma forma que chegaram foram
em ordem e em uníssono

do que ficou da cerimónia foi uma solidão imensa

os de casa foram arrumando o pouco desarrumo que houve
até ficarem cheios de tédio nas mãos cujos dedos iam estalando um a um até não sobrar mais nenhum

ela agarrava-se a uma perda
segurava as lágrimas como podia
metida dentro num daqueles gritos que dilaceraria o mundo em dois se alguma vez se soltasse de verdade

o sol ia vertendo luz pela tarde interminável
as árvores a contarem eternidades enquanto uma poalha se sustém entre contrastes

o jardim parecia agora uma pintura de museu
daquelas imagens que vamos vendo ao longo da vida
que reconhecemos por metade
primeiro num instante inicial e depois num eco posterior
que ora se propaga em indiferença ou em vago incómodo de não sabermos exatamente de onde a reconhecemos

ela um dia regressaria a estas coisas
por agora ainda não
por agora ainda há um lanho profundo na alma
por lá goteja uma dor maior que vai latejando como um terramoto interior
há que penar o inevitável antes de volver ao ondular mundano

os que vieram no início
que se vergaram e honraram a memória
tinham-lhe segredado ao ouvido

da dor
muitas vezes
nasce uma força maior

ela
perdida em agonia não ouvira as palavras

mas há sempre uma ressonância que sobrevive do que é proferido
e nela
num canto da alma
palavras irmãs se tatuaram

um dia
talvez na calada da noite
quando tiver a faca junto da jugular do assassino
ela as dirá

da dor
por vezes
nasce uma vingança maior


"A Dor" de Francisco Franco (1935), Caldas da Rainha, agosto de 2026

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