dia 214 - anuência

foram horas a falar de reflexos num espelho embaciado
como se a névoa insistisse em lamber a superfície numa teimosia inesperada

mas lá se esvaiu
e a silhueta de um corpo nu revelou-se

pela porta
ele viu-a
um relance que durou apenas um instante
tatuou-se-lhe no olhar
a toalha molhada no chão
os caracóis molhados sobre os ombros
a água a correr até a torneira ser fechada
e ela distraída a preparar-se

eram estas coisas que ele me dizia
como se eu pudesse lá estar com ele a ver-lhe a mulher nua

nunca a conheci
mas de cada vez que nos encontrávamos
ele mencionava-a num qualquer episódio doméstico

prometia trazê-la um dia
para eu ver que era verdade
que não inventava
que era casado
ou melhor
que viviam juntos
que partilhavam rotinas

não que eu duvidasse
mas também não lhe transmitia a certeza de que ele precisava
e acho que era essa ambiguidade que o levava a contar-me essas coisas

aos olhos dele
eu era uma autoridade
uma espécie de burocrata que atestaria a existência de ambos

cada um tem as suas manias
a dele era precisar da minha anuência
a minha era fazer de conta que isso me interessava

o tempo passou até ao dia que quem apareceu foi a mulher
vinha de preto
o marido
ou namorado
ou amante
ou colega de quarto
tinha morrido
ou fugido
não cheguei a entender

disse-me

ele falava muito em si
que eu deveria conhecê-lo
que era importante ver-nos aos dois juntos
a mim e a ele

tentei confirmar se morrera ou apenas desaparecera

ela olhou-me com os olhos cansados
e numa voz que quase não se ouvia
acabou por dizer em forma de pergunta

mas não são a mesma coisa

e saiu depois de me afagar a mão

não a vi mais

a ele vi-o todos os dias seguintes
chegava com um sorriso meio envergonhado e com medo de estar a ser seguido


Cama desfeita, Foz do Douro, maio de 2022

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