dia 230 - a hora definitiva

a memória delongava-lhe o passar das horas
e esse atraso
ela esperava recuperá-lo no futuro quando por lá desaguasse
e enfim tivesse então tempo para para encontrar mais tempo

na redundância
ou até mesmo nessa impossibilidade
talvez pudesse ocorrer o milagre

é que às vezes
no meio da abundância é onde as coisas mais escasseiam

como o suor colado à tez
ele nunca aparece no pico do calor
manifesta-se num primeiro alívio de febre
inunda sem aviso a pele cálida
e escorre pelos poros secretos do corpo

muitas vezes
sem contar
perguntava-se quem teria chegado primeiro ao paraíso
e o que por lá fez enquanto andou sozinho
ou até se existia esse tal paraíso
se não era ilusão que os recomeços trazem de cada vez que se manifestam

noutras alturas ficava a olhar o rastro que ia deixando no pensamento
os caminhos por onde deambulava semeados de pegadas difusas
sem propriamente uma origem e ainda menos um destino
como as nuvens nos céus outonais do oeste a passarem sem fim
seja esse oeste onde for

é que há rosas dos ventos cujas pétalas esvoaçaram há muito
e os pontos cardiais desvaneceram no firmamento

ela tinha na língua sobras de um sabor a mar
como se tivesse lambido uma onda pela última vez antes de chegar o inverno
e era esse gosto que hibernaria com ela durante o frio e até ao degelo primaveril lá à frente

sentia a pulsar pelo éter os ciclos inevitáveis de cronos
e era exatamente aí
nesse decurso
nesse voo e contravoo que o tempo se encontrava consigo mesmo
na mescla difusa de um inebriamento
que ela recuperava o adiamento e atraso inicias

reavia o que lhe era devido
recompunha o tecido da existência na contemplação serena da cadência das coisas

um a um
os lugares regressavam ao mapa original
as linhas da sina recompunham-se no emaranhado das mãos
e o olhar
por fim
alcançava o horizonte

era a hora definitiva
do reencontro com o que nunca se conhece por inteiro
mas que se reconhece em absoluto

hora de invocar o futuro para que ele se manifeste

a frágil imortalidade que lhe calhou
 e que dura apenas um instante

um abrir

e fechar

de

olhos


Céu no ocaso, virado a Oeste, na Foz do Douro, com a Lua e Vénus, agosto de 2026

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