dia 220 - o leitor

perdia-se recorrentemente em leituras
era uma forma de atravessar o tempo
fora delas acabava por tropeçar na vida emaranhar-se em complicações lidar com pessoas

por isso mergulhava em livros
e ao reemergir vinha cheio de premonições e certezas e decisões tomadas

no amor até
depois de conhecer uma mulher e ter partilhado com ela vários encontros
não acreditou que ela o deixasse
mesmo depois dela lhe dizer que tudo terminara

contava-nos essas coisas e dizia com fervor

mas ela não pode ter partido
pois eu li que ela me esperava no lugar de sempre

não sabíamos o que lhe dizer

às vezes
quando se distraía
um de nós escondia-lhe os livros
fazíamo-nos de desentendidos perante o nervosismo dele
e a brincadeira terminava quando as ameaças pendiam a virar promessas

lá lhe devolvíamos os livros pedindo desculpas que ele aceitava por metade

uma outra vez
a meio da noite
saíra a rua declamando um poema sobre estátuas de mármore de tempos idos
sem rima e com contornos de macumba

dizia-nos para o seguirmos
que lá no fim da madrugada essas silhuetas alvas nos esperavam vivas
que a elas poderíamos contar os segredos que nem a nós mesmos ousávamos confessar
que não guardássemos dentro palavras
que as soltássemos até nos esvaziarmos por completo
que haveria lugar para sermos mais leves que a existência

nunca o compreendemos até ao cerne do que ele era
mas a amizade levou-nos até onde foi possível
e do lado de lá da loucura
ele acenava-nos com um sorriso tímido
sabia que do lado de cá o esperávamos

o esforço que fazia em voltar era a forma dele nos agradecer
porque por aqui
ele andava desfasado
não tinha pé no mar comum
pertencia a um outro lugar

trazia-nos sempre mais palavras
histórias com finais felizes e outras sem final algum
partilhava no mapa do corpo as cicatrizes que lhe cobriam o ser
cada uma com uma facada quase mortal

e era isso que ele queria doar
que quando lia
não morria
era impossível morrer
porque metia mais vida na vida
e ansiava por esse galope desenfreado pela alma fora

lia enquanto nós todos esperávamos não se sabe bem o quê

e ao ler desesperadamente
sustinha-nos na ilusão de existirmos

embora
na verdade
a partir de uma certa altura
era impossível saber
se era ele que lia ou se éramos nós fruto de uma leitura


Theatro, restaurante, winebar, livaria, galeria de arte, Póvoa do Varzim, janeiro de 2018

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