era uma forma de atravessar o tempo
fora delas acabava por tropeçar na vida emaranhar-se em complicações lidar com pessoas
por isso mergulhava em livros
e ao reemergir vinha cheio de premonições e certezas e decisões tomadas
no amor até
depois de conhecer uma mulher e ter partilhado com ela vários encontros
não acreditou que ela o deixasse
mesmo depois dela lhe dizer que tudo terminara
contava-nos essas coisas e dizia com fervor
mas ela não pode ter partido
pois eu li que ela me esperava no lugar de sempre
não sabíamos o que lhe dizer
às vezes
quando se distraía
um de nós escondia-lhe os livros
fazíamo-nos de desentendidos perante o nervosismo dele
e a brincadeira terminava quando as ameaças pendiam a virar promessas
lá lhe devolvíamos os livros pedindo desculpas que ele aceitava por metade
uma outra vez
a meio da noite
saíra a rua declamando um poema sobre estátuas de mármore de tempos idos
sem rima e com contornos de macumba
dizia-nos para o seguirmos
que lá no fim da madrugada essas silhuetas alvas nos esperavam vivas
que a elas poderíamos contar os segredos que nem a nós mesmos ousávamos confessar
que não guardássemos dentro palavras
que as soltássemos até nos esvaziarmos por completo
que haveria lugar para sermos mais leves que a existência
nunca o compreendemos até ao cerne do que ele era
mas a amizade levou-nos até onde foi possível
e do lado de lá da loucura
ele acenava-nos com um sorriso tímido
sabia que do lado de cá o esperávamos
o esforço que fazia em voltar era a forma dele nos agradecer
porque por aqui
ele andava desfasado
não tinha pé no mar comum
pertencia a um outro lugar
trazia-nos sempre mais palavras
histórias com finais felizes e outras sem final algum
partilhava no mapa do corpo as cicatrizes que lhe cobriam o ser
cada uma com uma facada quase mortal
e era isso que ele queria doar
que quando lia
não morria
era impossível morrer
porque metia mais vida na vida
e ansiava por esse galope desenfreado pela alma fora
lia enquanto nós todos esperávamos não se sabe bem o quê
e ao ler desesperadamente
sustinha-nos na ilusão de existirmos
embora
na verdade
a partir de uma certa altura
era impossível saber
se era ele que lia ou se éramos nós fruto de uma leitura
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