um novo lugar para praticar solidão
e embora nunca esteja totalmente só
somente disperso
derramado pelas pequenas porções de tempo que compõem o manto de retalhos que é a memória
e que depois transborda a golpe de soluços no que será a imaginação e a criatividade
há silêncios por desbravar nos entretantos disto tudo
nada se inicia de verdade
há um elã que vem de não se sabe de onde em tudo o que acontece
as coisas revelam-se sim
mas parecem murmurar um impulso original que se desconhece
elas chegam com um ímpeto um sopro uma psique
uma emanação para além delas mesmas
há uma substância que tece o tempo e o espaço e tudo o que por lá se manifesta
como um prenúncio que enquanto carrega o vigor de uma inevitabilidade também se equilibra em esforço na fragilidade do provável
na arquitetura do mundo nunca se descobre quão fundo assentam as fundações
e se sequer se alicerçam de facto
quem sabe se não fazem parte da própria realidade desde o antes do antes
mas cá estamos
com a promessa de que tudo ainda está por criar
de que o impossível pode clamar pela oportunidade de se cumprir
de que os sonhos ainda vão a tempo de fulminar
que os anseios são ditados por uma voz que recusa ser amordaçada
não escapamos ao instinto
ele é o predador furtivo que quando o vemos já é tarde demais
morde-nos com dentes que rasgam a pele do presente
há que sangrar ao luar para que coalhe negro no pano da madrugadas
há que suar as febres e as insónias até que o dia regresse luminoso e se derrame sob a nossa carcaça
espera-nos a ressaca da vida no infinito da morte
não tenhamos pressa
mas também não percamos tempo
há beijos para dar
versos para colher
gritos para berrar
lágrimas para lamber
sonos para desperdiçar
cansaços para sentir
vinhos para sorver
remates para bater na trave com estrondo
mergulhos para naufragar
tanto e tanto mais que não cabe tudo num poema
embora tudo sempre cabe na poesia
é hora então de recomeçar
pela frente espera-nos a lenta queda da desilusão
que pelo menos
no despenhar
o vento nos afague o rosto
antes de nos esbardalhamos no chão
e essencialmente
que isto tudo valha pena
porque vale mesmo
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